Preguiça unilateral

Não sei você, mas eu ando com uma certa preguiça do mundo ultimamente. Uma preguiça de interagir com as pessoas, de ir atrás,  alimentar, cultivar,  preguiça de regar cada relacionamentozinho com um regador  pesado demais. E não é desistência, é uma preguiça de unilateralidade mesmo. Talvez seja apenas uma fase de reclusão involuntária ou voluntária, talvez seja uma reação. Alguma superficialidade latente que me faz sentir como em uma competição de tempo, um dever de correr atrás de todos os vasos de relacionamentos humanos que eu tenho para regá-los. Todos os dias, todas as horas, uma corrida incessante que me deixa exausta e com sono. Queria uma estufa pra colocar todos esses vasos humanos e deixá-los lá crescendo, dando frutos, morrendo, que fosse.
Talvez seja apenas uma dessas minhas fases arredias, ariscas, esse lado meu é tão incógnito que nem eu mesma sei lidar. Talvez seja apenas um excesso de informação, de pessoas, de acontecimentos, talvez seja a hora de não somente parar de esperar qualquer coisa dos outros, mas também de aprender a ser seletiva.
A verdade é que a distância afasta e exige demais de você para que as coisas não morram. Preciso de uns dias em Júpiter, uma casinha perdida, um celular desligado, um livro, um pouco de amor e atenção reais, bilaterais, fáceis.

 

PS: Isso não é uma carapuça pra ninguém em particular, não a vista. 😉

Sobre a sua falta

Eu queria te dizer que senti sua falta esses dias, mas não precisa dizer nada, só quis te dizer assim, solto, como um
desses sussurros no ouvido. E que vou continuar sentindo sempre e que vai ser bem difícil me desacostumar com tudo isso, com a casa vazia, com você dobrando aquela esquina olhando para trás. Porque o coração ainda bate.
E  eu queria que você não saísse da minha vida e não me esquecesse assim, mas saiba que eu entendo se tiver que ir. E vou tentar me conformar mesmo quando doer, e me policiar pra não te pedir nada além do que pode me dar. E queria te dizer que espero continuar ocupando ainda o mesmo lugar em você, mesmo que de longe, e não é pretensão nenhuma, é quase um desespero de querer ter significado tanto na sua vida quanto você significou para mim. E que aqui eu colocaria o que já te disse antes, e não vou repetir, porque acho que agora você prefere não ouvir. Mas que sinto. E você sabe. E desculpa jogar todas essas palavras assim, numa tarde de quarta-feira, só te quero bem. Só te quero dentro. Só te quero.

Deixa guardado

Não me perca, não me deixe ir. Segura forte a minha mão enquanto tenta soltar de mim seu coração. Não se prenda, se entregue. Não me prenda, não me negue. Nunca pedi mais do que essa sua mão entrelaçada na minha, nunca esperei mais de nós do que um desses amores que amanhecem dormidos. Ou talvez tenha fantasiado demais, pulado esses muros de conveniência, de certos e errados, talvez eu tenha acreditado que o muito que existiu ainda foi pouco, porque foi de verdade, e o que é de verdade merece ser por inteiro. Se agora o que tenho são apenas duas metades, uma que sabe que não há razão em alimentar o que não pode crescer, enquanto a outra finge que você foi apenas um sonho, só para te ter de novo. Não te ter de novo.
Deixa guardado esse sentimento todo que você tem por mim, não apaga, não roteiriza, não precisa ter fim.  Fuja se quiser fugir, invente todas as desculpas do mundo para me deixar distante, desinteressante, imperfeita, pretérito. Procura meus defeitos mais bobos, minhas farpas que te incomodam tanto, provoca uma briga pra ver se me arranca daí de dentro. Testa a minha paciência, meu ciúme, minhas paranóias, prova pra si mesmo o quanto não damos certo, mas não me deixa morrer em você. Não te deixa morrer em mim.
Que tudo tem um tempo e que para continuar, às vezes, é preciso recuar, eu entendo. É preciso respirar. Mas volta logo com esses seus abraços apertados, com essas suas falas que me estremecem as mãos, volta logo com esse seu jeito único de disparar meu coração. Toma teu tempo, não te pressiono, prometo, vamos caminhando por estradas paralelas. Mas deixa a gente guardado no átrio especial desse seu coração complicado.
Que eu te quero e ainda te espero chegar sem aviso, trazendo seu melhor sorriso só para beijar o meu.

Espaço

É que quando me abraça de conchinha, me puxa pra mais perto de você com essa sua perna comprida, e me aperta tão forte como se pudesse dar duas voltas em mim.
E então me beija o pescoço, e duas vezes o ombro, e cada tatuagem na nuca, como um ritual, e suspira no meu ouvido o amor em silêncio.
É que aí é onde me sinto seu mundo, seu pedaço, nossa verdade.
E você sabe que presto atenção em cada gesto seu, em cada palavra não dita e no quanto de paz existe dentro desse espaço apertado entre o meu corpo e os seus braços.

Fica

Não vou ficar aqui mastigando palavras, dissertando sobre corações alheios ou  sobre os meus (porque tenho muitos), não quero mascar cacos de vidro pra cuspir sentimentos. Não sei mais andar sem olhar para trás, são muitos anos pra contar agora. Não sei mais olhar para frente sem querer entender o que acontece no passo deste exato momento. Não vou ficar aqui fingindo que nada aconteceu, como subterfúgio de um autismo sentimental, fingindo que tudo é mentira, que nós todos não passamos de grandes mentiras inventadas para alucinar a monotonia da vida. Que não sinto nada. Se a ausência de tudo me preenche o tempo, enquanto a presença me enche de falta. E não me venha com frases clichês que saem embrulhadas como presentes pré-embalados em época de Natal. Hoje não. Não vou ficar aqui tentando te convencer do quanto tudo isso é mágico e foge do nosso controle, do quanto vejo teu sorriso em cada vez que pisco (isso), ou do quanto você fica lindo quando me conta sobre as estrelas, desenhando constelações no céu com os dedos, como se o limitasse. Não vou ficar aqui expondo a falta que me fazem os diálogos dos seus olhos, quando me olha perdido assim bem dentro de mim e disserta através deles tudo o que não tem coragem de dizer. Ou dizer sobre o quanto me corrói essa sua eterna presença ausente ao meu lado, como uma dessas fotos nostálgicas com a data no verso no melhor porta-retrato da sala. Porque você é uma pessoa especialíssima e cheia de traumas. Porque tuas cicatrizes te limitam, teus medos te apertam as asas e não te deixam voar. Porque tem essa necessidade humana de se proteger de qualquer coisa que tenha potencial de te ferir, e eu entendo, mas não me peça para não deixar doer. Porque faço parte do outro grupo de pessoas que gritam o coração, que se expõe, que  se expressam, que conseguem escrever em sopa de letrinhas o que se passa por dentro, e só por isso é que sei voar, e saber voar entre tão poucos é como ser presenteado com a vida eterna: dolorido e inútil. Mas não vou ficar aqui te pedindo pra entender, pra aprender, pra falar, não vou ficar aqui dizendo coisas sem sentido, dentro do que eu sinto.
Que sinto sua falta, que a gente não é mentira, que voar dói.

– Fica.

Coração branco

Hoje é um daqueles dias de coração dolorido, apertado, dia de coração branco, feito um inverno em mim. Como se sempre faltasse alguma coisa aqui, lugar físico, espaço, de dentro. Como se houvesse uma menina mimada esperando que você perceba e venha salvar o seu mundo. E que chegue bem perto e beije de leve meu joelho esquerdo, e que chegue bem perto e toque com dois dedos as minhas cicatrizes, e que chegue bem perto e conte dezoito beijos entre as minhas pálpebras e a curva do ombro.

Prece

Para ler ouvindo isto (abra numa segunda janela):
Won´t be long (Ferraby Lionheart)

 

Antes que eu tenha que ir embora, me deixa ficar mais um pouco na sua cama assim, eu olhando pra você, você olhando pra mim, me deixa dizer essa única prece que eu sei, que eu amo você eu amo você eu amo você eu amo você, enquanto desenho seu rosto com o meu dedo e entrelaço os da outra mão nos seus, me deixa olhar nos seus olhos enquanto me sorri, e me deixa sorrir também enquanto te prometo que não sei se vou demorar, mas que um dia volto, que o que é nosso nunca vai embora, viu, me olha aqui dentro, bem dentro, onde as coisas são bonitas e repete pra mim sorrindo, desse jeito que só você sabe sorrir, e reza comigo, vem, eu amo você eu amo você eu amo você eu amo você eu amo você.

 

 

Carinho

Sabe, eu queria entender esse seu gostar. Esse tal de carinho que você sempre fala. Porque carinho, eu conheço como qualquer manifestação de afeto que a gente possa ter por qualquer coisa, geralmente um ser vivo, sei lá. Um afeto desses por amizade, talvez, será que é disso que você está falando? Amizade?
Talvez o mais decepcionante da palavra carinho seja o inho denotando quase que de bobeira um diminutivo que não existe. Um carinho assim, bem pequenininho, olha. É isso o que eu sinto por você.
E essa ânsia corrosiva dentro de mim, de querer ouvir de você o que você nunca me falaria, faz até o  muito, antes do carinho, parecer pouco. Porque esse tal de carinho que eu tenho por você, não sei mais chamar assim. Que te gosto. Te gosto muito. Te gosto com um monte de superlativo junto. Que te quero bem e que te queria comigo. Que você me faz bem, tanto quanto me faz mal, mas que só me faz mal quando não está ao meu lado.
Talvez eu precise de você mesmo me dizendo coisas que eu não quero ouvir na mesa do bar. Talvez eu precise que você me segure o rosto, olhe lá dentro de mim e me peça que entenda, de uma vez por todas, que não existe amor. Que amor é coisa criada na minha cabeça, alimentada por todos esses anos de ausência e presença. Talvez eu precise que você segure meu rosto e me diga que não é a hora e que eu não sou a pessoa. Mas talvez nem adiante, porque sou roteirista das melhores histórias de amor, e quando penso em você segurando meu rosto, meu coração protege o cérebro e só se lembra do gosto do seu beijo.
Mania essa de querer reciprocidade e explicação pra tudo. Se o que me fala num dia, some no outro, e se suas palavras vêm e vão como ondas numa maré baixa, cada dia um sentimento diferente. Tento me convencer de que basta lembrar aqueles segundos perdidos no tempo, em que te peguei me olhando, para não precisar substitituir o que seus olhos gritavam por palavra alguma. Seriam seus olhos apenas bons atores? Então basta me lembrar dos beijos inconscientes, molhados de suor, existia um certo amor neles. Basta acreditar que foi só comigo e eu entendo o que é esse seu gostar, que ora me parece brincadeira, ora amor.
Se eu sei que mesmo que me amasse de verdade ou pouquinho, mas que ainda fosse amor, jamais me diria. Não há o que ser entendido, explicado, dito. Há apenas uma sensação de reciprocidade vaga, que é coisa natural de todos os amores. Há apenas uma sensação de que poderia ter sido muito grande e muito bonito, mas não existe espaço na linha do tempo e do agora. Deixa pra mais tarde, quem sabe. Deixa guardadinho no coração os momentos que te fizeram rir, deixa o frio na barriga, o calor dos meus lábios no seu corpo, deixa o meu cheiro grudado no seu travesseiro. Deixa guardado em você o meu gosto e o quanto de espaço você ocupa aqui dentro. E, quem sabe, quando olhar nos seus olhos de novo, eles talvez me mostrem o quanto de superlativo também existe nesse seu gostar.