Expectativas

O problema é quando desperdiçamos energia onde não devíamos. É como um pequeno buraco negro vazando alguma coisa de dentro de você. Sente esvair pelos dedos? Sente a energia sugada a cada minuto? Sente seu foco completamente distorcido?
É tudo uma questão de foco, um exercício prático de inverter prioridades. É preciso parar de esperar, e talvez essa seja a missão mais impossível do ser humano. Como não esperar nada se ao deixarmos de construir expectativas, a vida vegeta, a emoção some, o coração desacelera? Impossível ter adrenalina no corpo sem  expectativas. Quero as pernas bambas, o coração acelerado, quero o suor correndo no corpo e pingando na esquina do queixo. Quero a veia quente, os cinco sentidos ardendo, quero inventar cenários e diálogos dentro de mim.
Talvez algumas pessoas apenas adormeçam em um transe quase budista de focar a vida no momento presente e, aprendendo a desviar de passado e futuro, consigam – talvez – se concentrar no que existe agora.
Esperar é uma projeção, seja ela de um passado que você gostaria de reviver ou de um futuro que só existe na sua cabeça. Não projete, não espere, não crie. Não fantasie, não sonhe, não peça, não sinta, não lute, não vá atrás do que acredita. Não acredite.
Ah, então ensina-me a não esperar nada de alguém, porque de situações é possível que eu até consiga. Mas não sei viver pela metade, abdicar da emoção, da intensidade, não sei acreditar e não correr atrás, não sei projetar sem realizar. Talvez isso seja um defeito, ou talvez a minha melhor qualidade. Só sei que é essência, é alma, é intrínseco. É aquele ímpeto de querer viver o que se acredita, custe o que custar, desde que não machuque os outros. Ainda que machuque a nós mesmos.
Mergulhar de cabeça nas pessoas é entregar-se exposto e cru, é colocar o coração vivo, pulsando, na mão de alguém e esperar que cuide. É aceitar todos os riscos de mais um tombo e ainda assim escolher sentir.

 

Teu amor

Teus olhos cinzas guardam todo o amor do mundo. Neles você é menino. Sinto tua fragilidade, tuas duvidas, teus olhos respiram para que os meus continuem vivos. Se o segredo da vida é o amor, sou pura benção. E não pense que não tenho gratidão por cada piscar teu no canto esquerdo do sofá. Teu amor mora dentro dos pequenos gestos mais doces que já conheci.
Teus olhos cinzas guardam todo o melhor amor mundo (e o mapa da Austrália também).

Para você, com carinho

É claro que eu sinto saudade. Volta e meia alguma coisa me lembra você, nós dois, toda essa história mal contada que inventamos. Aquele amor quase adolescente, de pele, de intelecto, de sorriso. Claro que sinto a tua falta nos meus dias, dos quase mil dias que dividimos, das mil horas que experimentamos.
Você sempre será meu amor doído, impossível, aquele que desistimos sem ao menos tentar. Você sempre será um buraco vazio, um coração acelerado, a vontade de ter ido um pouco mais além e não ter tido coragem. E não ter tido futuro. Você me convenceu várias vezes de que não daríamos certo enquanto engolia suas verdades. Você me mostrou o quanto não queria remar mais o barco furado que construímos juntos, porque a minha bagagem era pesada demais. Algumas entrelinhas eu tive a sensibilidade de perceber, ou de me iludir, mas quando não há certeza, a ilusão aquece. Que talvez você tenha me amado, e muito. Que talvez o fardo de não existirmos tenha sido pesado demais. Que talvez continuar estivesse doendo mais em você do que em mim.
Quantas vezes senti um nó na sua garganta que não me disse nada que teus olhos sussurravam. Quantas vezes quis ouvir de você o que era implícito na nossa história, porque eu precisava vivo, eu precisava pulsando em mim, marcando a minha vida com as unhas.
Talvez minhas expectativas realmente tenham sido excessivas. Eu te queria como uma história bonita, eu tinha um enredo todo para você na minha vida. Eu construí começo, meio e fim. E o fim, te juro, era bem diferente do que é hoje. Queria você por perto.
Hoje eu olho tuas fotos e meu coração não acelera mais. Vejo alguém que resolveu tomar outro rumo para, quem sabe, não sofrer mais. Desculpa, ainda continuo roteirizando tudo o que não me disse, prefiro preservar a nossa história. Prefiro acreditar que essas portas fechadas, esses socos na boca do estômago, tenham sido todos eles uma tentativa de fugir do meu amor apenas por ser grande. Quanta tolice a gente inventa para ignorar a dor.
Olhar teus olhos de longe me dói um pouco. Saber que está feliz é um alívio e uma certa tortura. Já não bato o coração da mesma forma, já não tenho mais a esperança seca de ter algo de volta. Tudo muda. Nada nessa vida é eterno, muito menos os relacionamentos. O amor, por outro lado, pode ser. Ainda te carrego aqui dentro, amor doído, fardo leve. Ainda sinto falta, uma saudade breve e aguda, uma saudade gelada que bate na ponta do coração em ventos de fim de tarde.
Te vejo do outro lado dessa bifurcação. Teu caminho é tão cheio de possibilidades quanto o meu, existe muito mais mágica quando estamos separados. Você me olha e me sorri, eu estou sorrindo de volta. Você acena um adeus de longe, com a certeza de que sempre estaremos perto. Existe uma ligação muito maior que tudo isso, mas nossos caminhos são separados.
Desejo que esteja muito bem, que seja sempre fiel aos teus sentimentos e não te minta. Que tua vida esteja morna e que exista paz. E que em algum lugar do seu coração ainda tenha uma prateleira com o nosso roteiro empoeirado, algumas lembranças minhas, guardadas com o carinho de um suspiro, de uma saudade. Te guardo com carinho.
Nem sempre a vida é um desafio para ir além. Às vezes é preciso apenas alguém para saber parar.

O amor

As pessoas não encontram o amor porque não sabem exatamente o que estão procurando.
O amor é aquele telefonema no meio da tarde para saber se você tomou seu remédio. É a mão que envolve a tua mão gelada com o puro intuito de aquecê-la. É o café com dois pacotinhos de adoçante, porque é assim que você gosta. É a tarde no jardim  olhando o céu e conversando sobre metafísica. É a noite estrelada, gelada, onde dois corpos conseguem habitar um só casaco. É o fim de semana de chuva com a sua melhor amizade e suas melhores risadas.
O amor mora no reflexo das pupilas. No jeito que teu coração ainda acelera depois de dez anos, no modo em que você sorri involuntariamente quando vê a outra pessoa, ainda que a veja todo dia, por tanto tempo. O amor mora dentro do abraço e é tão fácil reconhecê-lo. O abraço de amor é único.
Ele é o que encanta, o que te aquece o coração. Você sente seus olhos brilharem, é físico. O amor é o sexo incrivelmente lapidado: quanto mais tempo, melhor. É ter décadas de história e ainda lembrar cada detalhe. É olhar fotos do passado e descobrir o quanto estavam felizes em cada uma delas, independente da época.
Não há como não perceber, você sempre sabe quando é amor de verdade. É muito diferente de paixão. Amor é o ombro do teu melhor amigo, as risadas da tua melhor companhia, o cuidado que só teus pais têm com você, a confiança que você só recebe dos seus irmãos, os frios na barriga da sua melhor paixão, o teu melhor sexo. O amor é o melhor de todo mundo que você já teve na vida, só que em uma só pessoa. O amor de verdade não morre nunca, está em constante renovação.

Conselhos de um ninguém

Vou te contar uma dessas verdades absolutas: você nunca – nunca – terá certeza de nada nessa vida. Não adianta ficar procurando explicações, argumentos. Motivos são pequenos monstrinhos imaginários que sentam em cima dos nossos traumas de um jeito quente que conforta, mas não resolve. Overthinking pode te enlouquecer.
Nada é certo, a vida é um grande jogo. Para todo o yin, existe o yang. Sempre. Não há excessões. Não existe sim sem não, não existe certo sem errado, não existe escuro sem luz, não existe calmaria sem tempestade. Clichê, talvez. Mas a vida mesmo, essa real, essa bagagem pesada que você carrega nas costas, é cheia de clichês. Amores, desamores, amizades, inimizades, acertos, erros, escolhas, decisões, negligências, bifurcações.
No exato momento em que você coloca um pé em uma escolha, está deixando outras para trás. Aderir é o mesmo que abdicar. Não existe consenso, não existe meio termo. Ou é sim ou é não. “Talvez” é escolha que serve apenas para os que se recusam a sair do lugar, para os que se recusam a evoluir. Não dá para ter tudo, é essencial decidir.
Um dia você terá idade suficiente para olhar para trás e tomara que seu passado seja cheio. Tomara que seus dias tenham sido longos, que tenham existido milhões de pessoas, algumas superespeciais, milhões de sorrisos (alguns superespeciais). Tomara que tenham existido diversas mãos segurando as suas quando você mais precisou, e espero que você tenha doado ainda mais do que recebeu. Se tiver sorte, terá uma estrada cheia de histórias pra contar, terá arriscado mais e desistido menos, terá mastigado seus medos e desafiado esse conceito esdrúxulo de liberdade. Espero que você tenha histórias para contar, e que não sejam medíocres, que encantem os ouvintes, que inspirem, que motivem. Desejo mesmo que um dia você inspire ao menos uma outra pessoa na sua vida.
Mas ainda que não tenha nada disso quando conseguir olhar para trás, te desejo apenas uma coisa: a certeza morna – ainda que momentânea – de que as tuas escolhas foram as certas. Porque te juro, não há nada mais pacificador do que isso.

 

A vida é um caminho mágico

Existe uma etapa crucial na vida: o dia de tomar decisões que mudarão teus rumos, tuas crenças, teu chão. E – acredite – você não estará preparado.
A vida é um caminho mágico. Não adianta lutar contra o que vem, o que veio e o que se tem; não vale a pena negar a passagem do tempo. Supere, passe por cima dos teus próprios conceitos. Evolua. Esqueça teus medos, teus traumas, entregue. Se entregue.
Não há saída para a maturidade. Se você não consegue decidir, a vida arruma um jeito e escolhe por você.

Hoje foi o dia em que a vida decidiu por mim. Que o futuro seja incrível.

Não é a hora

Suas lágrimas são quentes quando caem sobre os meus ombros. Eu fecho os olhos e tento encontrar algum sorriso jogado em meio aos nossos cacos espalhados pelo chão. Não é a nossa hora, não é a nossa história.
Eu entendo a sua raiva, essa necessidade desmedida de arrancar teu coração das minhas mãos como se eu não soubesse cuidar. Nem sempre é falta de amor, eu te dei tudo o que eu tinha. Eu te dei tudo o que eu podia.
Sossega as lágrimas, respira fundo e procura nesse abraço teu melhor sorriso. Não me machuca com o teu rancor mais do que tenho me machucado por não poder te ter. Não tire de mim teus melhores sentimentos, eu não tive culpa de te amar do único jeito que sei. E me perdoa por nunca ter dito que te amava, porque eu te amo. Todas as vezes que disse que te gosto eu gritei em silêncio o quanto te amo. Tenta ler as entrelinhas dos meus olhos, tenta descobrir o amor nas minhas ações enquanto não aprendo a dizer o que sinto. Eu te dei tudo o que eu tinha. Às vezes o amor é tarde, às vezes o amor é cedo.

 

Demoliram a minha casa

Ontem minha mãe me telefonou pra dizer que estão demolindo a casa onde eu nasci. Eu não sei explicar o turbilhão de sensações que eu tive, um certo desgosto, uma tristeza no fundo do peito, um conformismo pelo fato da casa não ser mais nossa. Sei lá, de um certo modo eu sempre achei que a casa onde nasci fosse ser sempre minha, não importa quantos donos tivesse.
Minha mãe disse que demoliram o primeiro andar, não preciso ser nenhum gênio para imaginar que minha casa foi vendida à algum tipo de incorporadora babando para construir pequenos milhões em apartamentos. Malditas construtoras derrubando minhas memórias de infância. Primeiro foi a minha escola, que eu podia ver da janela – e ela era um conforto, pois sempre estava ali; depois foi a minha escola de natação que cessou meu contato com tatus-bola. Nunca mais vi tatu-bola desde que demoliram aquele jardim. Agora resolveram demolir a casa onde nasci e morei até os 6 anos de idade, mas que foi nossa até 7 anos atrás.
Eu fui arremessada para a minha casa no telefonema. Fechei os olhos e esperei alguém que alcançasse a maçaneta para abrir o portão da garagem. As escadas eram tão compridas. Dessa vez eu subo sozinha, paro no quintal da frente, elevado. A cerca de madeira, toda aquela praça de brincadeiras, o pôr do sol atrás das árvores, os triciclos embaixo da janela da sala.
Continuo subindo as escadas e entro na sala, minha primeira lembrança são as festas de aniversário. Casa cheia, mesa grande, palhaços. Escuto a risada da minha mãe, os choros da minha irmã. Caminho pelo corredor, a adega. Como podem demolir a adega do meu pai? Como? Eu nunca pude experimentar um dos seus vinhos, mas a adega estava ali. Eu sabia que ela nunca iria a lugar nenhum.
Entro na cozinha e os azulejos dos anos 70 me socam a boca do estômago. A porta de vidro, a tábua de madeira com formato de porquinho que eu tanto gostava de olhar. O rádio de pilha da Nicinha tocando Roberto Carlos.
Subir as escadas me dá um aperto no coração. Vejo as bicicletas no corredor que o Papai Noel deixou em algum dia de Natal, vejo meu quarto, minha irmã ainda dorme no berço, rodeada de palhaços pendurados na parede. As prateleiras de madeira maciça guardavam todos os protetores dos meus sonhos. Minha cama ainda tem o livro do Pato Donald de capa dura que ganhei em algum aniversário e que coloquei sobre a colcha com tanto cuidado. Tinha sido o melhor presente da minha pequena vida.
Saio do meu quarto com aquela sensação estranha de que o nível dos meus olhos está muito mais alto que as minhas lembranças. Caminho até o outro quarto e vejo o estranho toca-fitas portátil que minha mãe tinha, com grandes botões onde a gente se confundia e acabava gravando coisas em cima do que não devia. Aperto o botão de abrir e a fita da Emília ainda está lá dentro. O armário ainda guarda a coleção de supermercado em miniatura, o quarto ainda tem o jogo de mesa de plástico para crianças, com adesivos de jacaré que o Dr. Jacob nos deu. Era minha pequena produtora de desenhos, a mesa amarela.
Papai era tão adorado que quando ele se foi muita gente cuidou de nós. O Dr. Jacob trazia as melhores balas do mundo e os presentes mais caros. O Dr. Honda nos mandou cestas de Natal até seu falecimento, há poucos anos. São pessoas cujas lembranças moram nessa casa, se eu fechar bem os olhos, consigo ver vagamente na minha memória o sorriso do Dr. Jacob e sua careca.
O quarto da minha mãe nunca me fez bem, acho que muita coisa ficou marcada em mim. A doença do meu pai, as dores que minha mãe tentava esconder. Mas ainda me lembro do papel de parede, do espelho grande e da minha mãe de cabelos cacheados e unhas vermelhas compridas me mostrando a coleção de isqueiros do meu pai. Eu já não me lembrava muito dele.
Eu sabia que o dia em que abríssemos mão da casa ela não guardaria mais o som das nossas risadas, as cantorias, as lágrimas perdidas. Eu sabia que concreto não tem memória e que sempre existiu o risco da casa ser reformada, refeita completamente por dentro, ainda que tirassem a adega de lá. Mas depois dos seis anos de idade eu aprendi a sempre passar por aquela rua devagar, eu sempre diminuí a velocidade do carro para olhar para ela, como se ela precisasse ser contemplada. Como se eu precisasse sempre mostrar meu respeito por ela. Como se a casa 1112 fosse meu pequeno templo, meu pequeno pedaço de vida, o elo mais real que eu tive com o meu pai.
Eu sei que as lembranças deveriam ficar por dentro, trancadas em mim. Eu sei que memórias são abstratas e essas são impossíveis de serem demolidas. Mas eu também sei que desta vez, quando passar de carro na frente dela, eu vou acelerar.
Fico me perguntando se alguma dessas escavadeiras se questiona o quanto de infância mora em um tijolo, o quanto de sonhos guarda uma janela, o quanto de lembrança existe em uma parede. A casa 1112 era minha infância. Era o pouco que eu ainda guardava do meu pai. Tomem cuidado com os meus tijolos.

1983, eu diria.