Joana

Bonita, bonita, ela nunca foi. Tinha o rosto manchado de puberdade, olhos caídos, muito negros, e de uma profundidade assustadora. Seus cabelos eram ruivos, quase cacheados, mas pareciam tão mal tratados quanto ela. Ah, Joana, se soubessem o quanto de água já escorreu por estes olhos fundos, o quanto de mágoa ainda reluta em permanecer lá dentro, onde ninguém ainda havia mexido.
Passara uma vida assim: sentada na cadeira da cozinha lendo Bukowski, cantarolando Chico Buarque e ajudando a vó Odília a sovar o pão que vendia. Dos trinta anos que tinha, se lembrava da bicicleta verde enferrujada que ganhou do vizinho no Natal de 88, da Páscoa com a família da tia-avó Adélia e do bolo de nozes que a tia Conceição da escola levava no seu aniversário. Não tinha lembranças dos pais, haviam partido para a serra de  Petrópolis pra nunca mais voltarem. Ou voltaram, mas não quer se lembrar daquele dia, levaram também Renato, seu irmãozinho de dois anos e meio. Acreditava estarem em um jardim muito verde e rico, dessas belezas isuportavelmente naturais. Renato vestido de branco, brincando entre as margaridas. Não, não acreditava em um fiapo disso tudo. Pensava em seguida que eram pó, que do pó vieram e que logo viraria pó também a única pessoa que lhe restava, a vó Odília. E cantarolava Chico Buarque de olhos vermelhos.
Joana não tinha amigos, era tímida demais, não sabia conversar e seus papos-cabeça eram chatos. Enquanto falavam de novela, ela rebatia frases de Kafka. Chata pra caramba essa menina, hein. Era o que ouvia nas entrelinhas.
Também nunca tinha namorado, embora tenha sido apaixonada a vida toda por ele. Ele que, de manhã cedo passava para ver como vó Odília estava. Que pedia dois dedinhos de café com uma colherinha de açúcar, pois estava de dieta. Que um dia, um único dia, olhou em seus olhos fundos e disse Joana, precisa de um namorado.
Como era lindo sonhar com ele de terno no altar, sorrindo depois de ter descoberto quanta coisa linda ainda estava dentro dela. O quanto ela era especial por dentro. E escrevia cartas de amor que nunca mandava, ensaiava o número do telefone da casa dele, o primeiro beijo nas costas da mão. Mal se lembrava do primeiro beijo, o dia em que Fernando, o primo de quarto grau a segurou pelas bochechas e tacou-lhe aquela língua molhada por dentro de sua boca. Queria o beijo dele, a língua molhada dele. E adormecia assim, entre desejos de língua molhada e o toque macio das mãos que já lhe conheciam o corpo, embora ninguém suspeitasse.
Numa manhã de inverno ele veio visitar vó Odília. Joana foi buscar o café e, como numa cena de novela, ele a segurou pelo braço. Sua pele arrepiou até a ponta do mamilo, suas pernas falharam, sentiu um segundo de tontura e e os lábios estremeceram: sim? E ele lhe disse: Vamos ver o rio. É bonito no inverno.
E caminharam os dois quietos pelo atalho de terra até a margem do rio. Ficaram ali, mudos, como dois pombos na chuva, a olharem o casebre abandonado do outro lado da margem. Está com frio? perguntou ele. Sim, ela sorriu de lado. E então ele lhe passou os braços pelos ombros e ela sentiu algo que nunca havia sentido antes. Um coração que batia alto e tinha medo que ele ouvisse, que lhe fazia atenta de todas as partes do seu corpo, um frio quente que subia da base da espinha até a nuca. E aquele foi o momento mais lindo da sua vida.

O resultado da Sexta-feira 13

Começou assim: chuva e frio. Uma chuva dessas típicas deste lado, que não param por um minuto sequer. Já fui bem contrariada vender minhas goiabinhas, odeio o processo guarda-chuva… não sei, não me entendo com ele, tô sempre com a bolsa errada e a sensação de que ele não tá guardando porcaria de chuva nenhuma. Mas fui.
E acreditem, meu povo, quase fui atropelada por dois patos!!!!!! Imagina a cena. Eu na ponte da menina ruiva, lá em cima da ponte sobre o Tâmisa, me vem dois patos voando pela esquerda e, cara, eu tive que dar uma desviada tão grande que dei um “who´s bad” em cima das folhas pisadas e quase fui parar dentro do rio. Sério, meu. Até pato louco eu atraio, não é mais só gente, não. Já viu pato voando? Parece um bimotor débil mental, você jura que eles vão cair e morrer estatelados. Mas eles nunca caem. São tão desengonçados. E eu tentando adivinhar se eles me atropelariam pela antes do meu próximo passo ou depois, tava quase um Robinho em campo.
Em compensação, como disse que sexta-feira 13 geralmente é meu dia de sorte, vendi jujuba de novo. Adivinha quem tá em primeirooooo?
A volta do trabalho agora foi a Noite do Terror do Playcenter. Lembram-se da chuva e do frio? Some um mini-furacão, igual ao da semana passada. Um vento que vocês não fazem idéia. Meu penteado evoluiu de Cindy Lauper pra Marge Simpson. Meu guarda-chuva teve dezenas de paradas respiratórias e resolveu morrer pra sempre (quero só ver como vou trabalhar amanhã com a previsão de chuva de novo…. será que vou ter que assassinar a moda e partir pra uma capa-de-chuva amarelinha, do Mickey?)
Enfim, como se não bastasse o puto do guarda-chuva morrer e todos os movimentos de judô que eu usava pra tentar deixá-lo cumprir sua função no mundo, ele quis fazer total parte do cenário Sexta-feira 13. Resolveu morrer em mim. Cara, o vento era tão forte que o guarda-chuva fechou num momento em que eu o usava de escudo. Ou seja, fechou na minha cara. Como se não bastasse a asada de pomba que levei há umas semanas, o semi-atropelamento por pato, fui engolida por um guarda-chuva-planta-carnívora. Cena de gibi, sabe! Doeu, viu, ri não.
O que me acompanhou no percurso foi o meu repertório de palavrões em português. Minha avó, onde quer que esteja, deve estar se revirando, porque eu soltei uns senhoras da vida que tiveram filho e esperma, genitália masculina em alto e bom tom.
Cheguei em casa num estado que quando o marido abriu a porta teve uma crise de riso. Ainda quis tirar foto, mas não dava, gente. Eu, com o guarda-chuva do avesso, cabelo de Marge Simpson, ensopada, falando todos os palavrões que podia em português (que pra ele deve soar como o Zé Buscapé falando, né…). Só comigo, né. Só.

Fêmea Ômega

Como mulher é besta, né gente. Olha só o que a sociedade fez com os nossos corpinhos, a nossa mente! Tô aqui pensando em quanta coisa envolve alguns únicos momentos na vida de uma mulher. Recebi um email esses dias, infelizmente sem créditos, entitulado “Porque não sair com um Zé Ruela”. E a autora realmente merecia um bom nominho estampado lá, porque é a mais pura verdade.
Estava eu aqui relembrando primeiros encontros. Assistindo Friends ontem e vendo como a Rachel fica linda num passe de mágica, coisa que não acontece na vida mundana desse povo aqui, diga-se, normal.
A menina conhece o cara. Marcam o primeiro encontro. Tem que existir um tempo mínimo entre o marcar e o encontro em si, né, porque a agenda, meu querido, lota num breve espaço de tempo. Não venha querendo marcar encontro pra daqui a duas horas que não rola, a não ser que a gente tenha saído com outro no dia anterior – ou que a gente não esteja tããão a fim de você!
Encontro marcado, começa a gincana da vida. Quem foi que disse que a gente tem que fazer tudo isso? E marca pé, mão, depilação, depila até o cotovelo. Até a cor do esmalte é devidamente re-re-repensada. Depila, pinta, vai malhar um pouquinho pra ver se as coxas endurecem em meia hora. Borra a unha, tem que voltar. Merda. Tô um fantasminha camarada. Será  que aquele salão faz aqueles bronzeamentos a jato?
Lá vai ela pro salão testar o bronzeamento a jato. (Alarme de incêndio aqui, meninas. NUNCA testem nada antes de um primeiro encontro. Vai por mim.) Sai a infeliz dondoquinha do salão, laranja e fedendo a auto-bronzeador. Ah, vai, melhor que ver as minhas veias…
Volta pra casa, se olha no espelho, vê aquele rio de celulite. Lembra da Zoraide, a massagista que faz aquela drenagem linfática quase photoshop. Liga pra Zoraide, chora no telefone, diz que precisa de uma A-GO-RA, indicação do terapeuta.
Vai na massagista, faz a drenagem, sai correndo porque tinha marcado cabelereiro. Vai laranja, oleosa e linda pro salão. Faz aquela escova ultra poderosa, hidratação de queratina. Ah, já tô aqui mesmo, né…
No caminho pra casa passa no shopping. Quem nunca viu uma pessoa fedendo a auto-bronzeador, sujinha e de escova em loja de lingerie?? Pois é. Somos nós, mortais, pré-primeiro-encontro. Entra na loja de lingerie e sucumbe aos papinhos da vendedora de que a vermelha rendada que custa os olhos da cara é bem mais bonita do que a da liquidação. E sai do shopping com a sacolinha da loja e um brinco novo pra combinar com aquele vestido tomara-que-caia infalível.
Lá vai ela pra casa pra lembrar o que? Que tem que tomar banho depois da escova (impressionante como a gente sempre faz isso…) Põe a touca de plástico que vira uma semi-sauna na cabeça, se esfrega duzentas vezes pra tirar o óleo de massagem, o cheirinho de auto-bronzeador e o resto da cera. Pronto, tomou banho, tá linda. Uma chapinha resolve os fiozinhos molhados.
Se troca, abre a bolsa, vê todos os papéizinhos de cartão de crédito e pensa, se esse cara não for tudo isso eu me jogo na frente do ônibus. Faz uma mega maquiagem com toda a sua coleção mais carinha, usa aquele Chanel guardado pra ocasiões especiais.
Aí vem o cara te pegar num semi-poisézinho motorizado. Mmmm, você já pensa, vai me levar no Habib´s… Entra no carro, o cara ainda com a roupa do escritório. Nem um banhozinho. Te leva num restaurante mais ou menos. Ah, gostosinho, papo bom, comidinha ok. Aí vem o cidadão e dá uma “dica” de dividir a conta. O sangue sobe, relembra os papéizinhos, fica sem graça e diz “tá”. Pensa, vou me fazer da mulher bem resolvida.
Saem, o cara propõe um motel. Nessa você já brochou total, porque sabe que vai ter que rachar o motel. Se teve que rachar quarenta contos, imagina o resto?
Viado de merda, pão duro, depois dessa maratona toda, eu aqui bonitinha, você é que tinha que me pagar pra isso. Mas aí é prostituição, né… então paga o motel, filho duma mãe. Nem cheirosinho ele é, ó a nhaca de fim de dia. Que ódio. Feio. Feio. Olha essa correntinha no pescoço? Não, essa correntinha no pescoço, esse peito meio aberto, taxista-wannabe, não dáááááá!

Por isso, meu amigo, se quer um conselho na vida, anota: pague a conta do jantar. Se não, os olhares “dissimuladinhos” dela depois disso vão estar pensando todas essas coisas sobre você. E não são olhares sensuais…

PS: Pior quando o encontro tem meses, tipo eu e o David. Tem gente que faz até lipo. Eu fiz clareamento nos dentes. Pra chegar aqui e ele me esperar no aeroporto de moletom e boné. Foda, né.

A ponte de pedra

Quantas vezes caminho na beira do rio Tâmisa, com meu Ipod tocando alguma coisa entre Paolo Nutini e Roberta Sá. Tanta trilha sonora para um caminho que não chega a dez minutos, na beira do rio. Mas é lá, naquele curto espaço de tempo e de asfalto que eu me pergunto, todos os dias, o que estou fazendo aqui. Ou afirmo, meu Deus, estou aqui.
Cada dia é uma emoção diferente, quando olho a ponte de pedra e toda sua carga Britânica. Ponte de pedra, quantas pessoas já passaram por ali. Quantos passos fazem este país. É como ir a Londres e pensar em Jack, o Estripador. Ou ir a Strattford e pensar que Shakespeare um dia andou pelas mesmas ruas. Ou ir a Arundel e descobrir uma vila com cara de Robin Hood no meio de um país civilizado.
A sensação de estar aqui é velha. É de antiguidade, de passado, de história. A ponte de pedra sobre o Tâmisa em Reading me lembra muito as pontes de Cambridge, onde morei por um mês e pouquinho quando tinha apenas 16 anos. Cambridge ainda me fascina e ainda é um dos meus lugares preferidos daqui, porque ainda conserva todo esse passado.
Mas aprendi a amar Reading. Aprendi a aceitar o contraste entre a arquitetura secular e os prédios de vidro. Aprendi a aceitar a mistura de indianos, paquistaneses, ingleses e estudantes universitários do mundo todo. Aprendi a parar tudo pra ver um pato voando. Um cisne voando.
Reading esconde ainda coisas como raposas no jardim. E o barulho que elas fazem quando estão no cio se integra ao som das sirenes de carros de polícia e ambulância. O novo, o velho, o natural, o artificial. Tudo em harmonia, embora só hoje eu reconheça isso.
Ainda sou apaixonada por tantos outros lugares daqui, mas talvez sinta falta de Reading se resolver sair um dia. E um dia me lembrarei da ponte de pedra…  Ela talvez seja o único elemento que me faça lembrar todos os dias que estou deste lado do mundo. Ela tira meu piloto automático.
Um dia me lembrarei da ponte de pedra. Do Tâmisa correndo forte ao meu lado, dos filhotes de cisne nadando, dos patos, das folhas amarelas de outono. Talvez um dia eu me lembre de todas essas sensações confusas que um dia eu tive olhando a ponte de pedra, ora feliz e realizada, ora querendo tudo menos ela.
A vida é um eterno jogo de sinuca. A gente até pode saber qual é a próxima bola, mas se vai encaçapar ou não… depende da gente e de um pouco de sorte.

O cenário

O cenário da menina ruiva.

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Se olhar bem a foto, tem umas pessoas subindo uma rampinha e dá pra ver a ponte atrás da árvore…. 😉

Sem medo

Ah, se as pessoas fossem menos complicadas… Se arrancássemos as dores do peito, as longas noites de choro, se pudéssemos lamber as feridas do passado a ponto de estancá-las eternamente. Não, babe, nem todo mundo é igual. Nem todo mundo é ardido, sórdido, nem todo mundo machuca e é pesado. Ainda existem pessoas leves, ainda existem hippies e amor fácil. Ah, se as pessoas viessem sem medo de Déjà vu…

A menina ruiva

Eu tenho cruzado com as mesmas pessoas quando estou a caminho do trabalho, de manhã. Uma delas é a menina ruiva.
No primeiro dia que a vi o mundo quase sumiu. Ela é a menina mais linda que já vi caminhar. Alta, magra, cabelos claros e vermelhos, sardas em uma pele imaculadamente branca. Olhos enormes, verdes, com cílios que podiam ser vistos de longe. Nariz pequeno, boca perfeita. Ela é toda perfeita, a menina ruiva. E no primeiro dia que a vi ela roubou o sol.
O céu estava cinza, com nuvens carregadas. A temperatura já estava baixa e todo mundo caminhava em seus mundos solitários, envoltos em casacos e cachecóis, ouvindo alguma trilha sonora particular em seus Ipods. A minha era “Million Faces” do Paolo Nutini, e serviu muito bem à ocasião.
Eu caminhava ao lado do rio Tâmisa, observando suas águas que às vezes não se movem, seus patos e cisnes esperando ansiosamente por algum pedaço de pão de fôrma. A million faces pass my way, they are all the same, nothing seems to change anytime I look around. Mentira, naquele dia tudo mudou e os rostos nunca mais seriam os mesmos.
Eu cruzei com a menina ruiva em cima da ponte. Eu indo, ela vindo. Bem em cima do Tâmisa. Quando ela apareceu, seus cabelos lisos e compridos se incorporaram às folhas de outono, vermelhas, quentes, espalhadas pelo chão como um manto e ainda resistentes nas árvores do fundo. Ela vestia apenas um sobretudo roxo e sapatilhas verdes, como uma modelo de passarela. E caminhava sorrindo, como se fizesse parte de uma propaganda de absorventes.
Ela sabia que o mundo parava ao seu redor, ela sentia os olhares. Ela era o sol naquela manhã fria e escura. Ela era as cores.
E eu me senti o pleno inverno, em toda a imensidão preta do meu sobretudo e na quadradice dos meus óculos. Ela me fez sentir o frio, mas só quando foi embora. Porque pelos poucos segundos em que caminhou sobre a ponte, em passos largos e rápidos de pernas compridas, ela aqueceu toda a beira do rio.
Ainda a encontro nas manhãs frias de Outono. E ela sempre traz o sol consigo.

Devagarinho

“Queria chegar bem perto
Tocar teu nariz com o meu
Beijar teu rosto, provar teu gosto
Morder teu lábio
Bem devagarinho, sem medo
Sem pressa,
Descobrir teus segredos
Mergulhar no fundo dos teus olhos
Sentir teu cheiro, correr meus dedos
Sussurrar no teu ouvido, não se preocupe
Não há nada de errado
Se o coração bate mais forte
Se a gente arrisca a sorte
Não pense em nada agora
Me beija molhado,
Tira meu ar, minha roupa, meu passado
Deixa tuas mãos conhecerem a minha pele quente
Enquanto entendo os mistérios dos teus botões
Deixa correr solto, deixa o resto por mim
Quero provar teus sabores
E hoje, a noite não tem fim
Me beija devagarinho, sem medo
Não te prometo nada, não te peço
Nem amor eterno
Só me ame por enquanto,
Até de manhã cedo
Ou enquanto durar o inverno.”

Escrito por mim em Abril de 2003, achado em um arquivo perdido…