Politicamente incorreta

Politicamente incorreta: esse é o novo sonho da mulher moderna. Ser uma Amelia Bloomer de pantufas. Nada de queimar sutiã, apenas ser incorreta por alguns instantes do dia.
Engraçado como o politicamente incorreto da mulher me parece extremamente correto. Ser quem se é, sem nenhuma sombra de dúvida.
Que se dane a lingerie combinando, o salto que aperta, a bolsa falsa da Chanel. Que se danem todos os meus litros de creme e todo o estoque de maquiagem. Hoje quero deitar no jardim e olhar o céu com apenas o que me foi dado, uma pele sardenta.
Quero o direito de não ser julgada por olhares maldosos, quero trocar a academia por um passeio no parque, a sombra cor de pêssego por uma verde com glíter. Quero trabalhar de decote e rasteirinha. Usar biquini mesmo fora de forma. Ninguém paga minhas contas, ninguém resolve meus problemas.
Desmarca a manicure, diz  pra esteticista que hoje não quero limpeza de pele.
Não quero dividir a sobremesa, quero dar um tchauzinho espalhafatoso, mexendo o braço todo, sem pensar no tríceps. E sorrindo.
Também não quero pensar em meia calça e em cartão de crédito para renovar todo o estoque de cosméticos. Manda um pote de Minancora e um abacate para eu passar no cabelo.
Hoje quero tomar banho de banheira com qualquer sabonete que estiver ao alcance e vestir uma calcinha de algodão que não me incomode. Quero passar o dia enrolada num roupão e  meias coloridas. E só por hoje não tomarei chá verde, passarei o dia a base de groselha.
Danem-se o plano verão do ano que vem, a dieta da moda, o corte de cabelo. Quero ser a Brooke Shields em “A Lagoa Azul”. Linda, bronzeada e vivendo de mamão.

Sampa

Do alto do prédio do Banespa eu te vejo num dia cinza qualquer. Em toda essa imensidão de concreto, essas luzes de vidro, sua tão afamada camada negra de poluição. E penso, meu Deus, como você é perfeita.
Você já foi bem cuidada, dizia meu avô que caminhou pelas tuas ruas de chapéu. Eu nasci na sua imensidão, cresci nos teus problemas e aprendi a te amar com todos os seus defeitos. Porque talvez saiba ver em você a força que sai de mim, os braços que me abraçam, as palavras que contam a minha história.
Se pudesse te cantar, te cantaria em Moema, entre Bem-te-vis e Sabiás. Se pudesse te caminhar te caminharia em Ibirapuera, te escreveria em palavras cheias de poesia, respiraria teu silêncio de dentro da Catedral da Sé. Quantas vezes achei um espaço naquele vazio somente para observar as pessoas que vem e  passam por você.
Te descobri entre Pinheiros, subindo e descendo os morros da Vila, minha região é Oeste, minha legião é urbana.
Te sentir de longe dói, dói e é escuro qualquer lugar longe de você, dói e é silencioso e pequeno demais.
Quero andar sem rumo em você e dizer, Deus, como te amo, como faz falta essa imensidão cinza, Avenida Paulista, centro velho, Largo da Batata, Ipiranga. Liberdade, Augusta, Teodoro Sampaio, atravesso a ponte pra chegar no teu Morumbi e volto, volto e corro para os Jardins das tuas avenidas. E volto. E pego a Imigrantes pra fugir de você pelo menos por um dia e digo “pô, meu” sem ninguém prestar atenção. Paulista.
E te olho de cima do prédio do Banespa e resolvo descer e caminhar até o Mercado Municipal para um sanduíche de mortadela. E minha vida se completa nas suas feiras-livres, nos teus caldos de cana, na música nordestina saindo de um alto-falante de camelô. E talvez passe pela Pinacoteca pra ver algumas das suas artes, pela Galeria pra ouvir alguns dos seus sons. Respiro. Seco, cinza, duro. Mas respiro. E me falta teu ar. E sou feliz, cara, como sou feliz com o teu ar.
Que todos que te desdenham te deixem e que sobrem apenas os que te amam e não conseguem viver um dia sem reclamar e te adorar.
Sou filha tua, minha casa de pedra. E, meu, dói pra caramba não te ter todos os dias.
Parabéns, Sampa, querida.

Veja São Paulo em 360 graus, do alto do Edifício Itália: http://migre.me/hywv

Deséame suerte

Passo as mãos pelos seus cabelos alisados, cobertos por alguma tinta barata. Corro meus dedos, como quando tocava aquela música pra você no violão, aquela que eu conhecia os acordes e você conhecia a letra, e cantávamos e tocávamos juntos a mesma música durante a madrugada toda. Você bebia e derramava o vinho tinto no carpete, eu corria para limpar e a gente ria e ria e ria até o sol nascer. Parece que éramos tão jovens, baby, e nem faz tanto tempo assim que rolávamos do sofá para o chão e fazíamos guerra de almofadas durante qualquer assunto na televisão, lembra?
Hoje eu olho pra você entretida numa novela boba e olho pra você de um jeito diferente. As sardas e a pele branca, ainda é frio e você não toma mais sol. Seus lábios secos pedem qualquer coisa como um beijo desses sem explicação. Mas eu não dou. Te olho por trás destes óculos pesados e quadrados e corro os dedos nos seus cabelos e penso de quantos orgasmos você é feita. De quantas estórias. Um mar de risos e choros e lágrimas e espamos e luxúria e álcool e drogas e versos de poemas. Como pode tanta coisa caber em apenas uma pessoa?
Tenho muita coisa guardada no peito pra te dizer. Que nunca mais vou conseguir beber Shiraz sem você e que não te ver sorrindo na porta dizendo deséame suerte vai me rasgar o coração. E é essa imagem tua, sorrindo de blusa amarela e dizendo deséame suerte, que levo comigo pro resto da minha vida. Deseja pra mim também qualquer sentimento bom, porque te quero bem acima de tudo. E chore, não se faça de boba fingindo ser forte, não se engane – pelo menos dessa vez. Não deixarei ninguém neste mundo julgar as tuas lágrimas.
Espero que me perdoe um dia, mas não fui capaz de amar nós dois sozinho. Não tenho amor suficiente pra alimentar nossos dois corações e você nunca me amou de verdade, aquele amor que vem das entranhas e estremece as pernas ainda que dez anos tenham se passado. Você gosta de estar comigo, de ler meus livros de madrugada e tirar a roupa com o som dos meus discos. Você é dura, menina, e eu preciso de um amor líquido.
Desapegue, rasgue as minhas fotos, mas não me odeie. Eu tentei. Talvez um dia eu volte pra beber Shiraz com você e tente seu amor mais uma vez e, quem sabe, mais umas outras vezes. E talvez eu nunca te amoleça. Seria bom se pudéssemos viver assim, eu bastando nosso amor por nós dois e você me desejando sorte, mas isso dói e  há somente um pouco que um coração pode aguentar.
Agora preciso ir, baby, mas me deixe correr os dedos pelos teus cabelos mais um pouco. Olha no fundo dos meus olhos, me leia, não chore, não pergunte. Apenas olhe nos meus olhos e me entenda. E deséame suerte.

Quando eu leio muito Caio acontece isso. Inspiração.

E é tão fácil mudar qualquer plano

Um dia você vai entender que é preciso apenas um gesto de alguém para mudar os roteiros.
Eu sempre acreditei no amor, sabe. Nesse amor que chega destruindo, arrancando as pétalas do coração, ardendo, machucando, mexendo lá no fundo. E não entendia o amor medíocre, o estar acompanhado para não estar só.
Durante muitos anos eu fui criando uma espécie de armadura, uma camada de espinhos que era acionada ao menor contato lá de dentro. Caí tantas vezes, cara. Sempre quis quem gostasse mais, talvez porque eu tivesse medo de alguma coisa cutucando a carne exposta, viva, a vulnerabilidade.  E  quando achava que estava tudo amadurecido o suficiente para expor a minha parte mais branca, alguém me atacava com uma espada fria, no mais fundo e puro amor.
É, eu pareço forte e você bem pensa que eu sou, mas a minha armadura é de vidro. Ao menor estalo tudo se desmorona. Eu tento segurar, você sabe, mas aqui dentro está tudo em frangalhos. E eu vou recolhendo meus pedaços pelo chão e recolando nas mesmas beiradas frágeis, aquelas que há tanto tempo vem sendo recoladas. Em cada vinco tem um nome.
Seria bom se pudéssemos viver a vida ao contrário. Começar com um pequeno pedaço de nós e ir recolhendo outros no meio do caminho para chegarmos ao fim inteiros, completos. Mas a realidade é que assim que nascemos vamos deixando cacos da gente. E isso não é de todo ruim, porque existem pessoas que guardam nossos cacos para sempre. Sim, existem pessoas que guardam. E existem pessoas como você, que puxam a pele descascada pra cair mais rápido. Que querem chegar perto sem entender que a parte exposta está aqui, com espinhos em volta. E se quiser continuar insistindo eu me desarmo. E cairei de novo. Com você, tenho certeza. E levantarei e recolherei o caco com o teu nome e o recolarei em algum pedaço de mim.
E aprendo a ser humana de novo, levantar, tirar o pijama e continuar sendo, sem expectativa nenhuma. E continuar indo, e abrindo, e armando, e desarmando. E esperando um gesto seu pra mudar o caminho.

Pedaços

Eu podia te mandar um email ou dizer tudo isso quando você abrisse a porta de casa, mas rabisco umas letras aqui na esperança de que um dia você leia. Ou não. Talvez eu apenas tenha que recolher meus cacos mais uma vez e transformá-los em palavras para, quem sabe, entender o que se passa dentro de mim. É, a minha incoerência chega a esse ponto. Escrever para ver se entendo.
Até que ponto um grande amor resiste. Até que ponto um grande amor resiste?
Não, não me faça perguntas. Não quero imaginar as respostas que assombram a minha mente. Há alguma coisa quebrada aqui dentro, e eu tenho medo de mexer na fragilidade.
Você me conhece melhor que ninguém. Sabe que não dou avisos se não puder cumpri-los. Mais uma vez, e dessa vez é a última, peço para que emende esta linha fina e faça dela uma corda de marinheiro.
Puta merda, como eu te amo. Mas não sei viver com coisas quebradas dentro de mim.
Sometimes I feel like saying Lord, I just don´t care. But you´ve got the love I need to see me through.

Mais um

Eu já mal dou conta de escrever pra dois sites e ter tempo aqui pro blog. Pois bem. Acham que não. Porque me convidaram para um terceiro site, o Top Talent. Entrou lá meu primeiro artigo, “30. E agora?”. Passem lá!

Deita do meu lado

Deita do lado meu lado. Beija a minha nuca, envolve meu corpo na tua coxa,  me deixa sentir o frio correr pelas costas. Derreta comigo, nesse quente ardido que me molha a boca, mistura as tuas gotas às minhas, sente o arrepio que invade o corpo. Derrama em mim todo esse calor e me faz acreditar em qualquer coisa de novo.

Virada

Dia 31 de Dezembro de 2009, 23:45h em Reading, Inglaterra.
Sofá aberto, velas, rosas, televisão ligada esperando os fogos em Londres, Paolo Nutini cantando, champagne pronta pra ser estourada. Inverno. Três graus negativos lá fora, clima quente aqui dentro.

– Ihhhh… mas assim a gente vai passar o reveillon sem usar cor nenhuma… A calcinha é nova…
– Relaxa, a gente tá branco.

(Hahahaha)