Sampa

Do alto do prédio do Banespa eu te vejo num dia cinza qualquer. Em toda essa imensidão de concreto, essas luzes de vidro, sua tão afamada camada negra de poluição. E penso, meu Deus, como você é perfeita.
Você já foi bem cuidada, dizia meu avô que caminhou pelas tuas ruas de chapéu. Eu nasci na sua imensidão, cresci nos teus problemas e aprendi a te amar com todos os seus defeitos. Porque talvez saiba ver em você a força que sai de mim, os braços que me abraçam, as palavras que contam a minha história.
Se pudesse te cantar, te cantaria em Moema, entre Bem-te-vis e Sabiás. Se pudesse te caminhar te caminharia em Ibirapuera, te escreveria em palavras cheias de poesia, respiraria teu silêncio de dentro da Catedral da Sé. Quantas vezes achei um espaço naquele vazio somente para observar as pessoas que vem e  passam por você.
Te descobri entre Pinheiros, subindo e descendo os morros da Vila, minha região é Oeste, minha legião é urbana.
Te sentir de longe dói, dói e é escuro qualquer lugar longe de você, dói e é silencioso e pequeno demais.
Quero andar sem rumo em você e dizer, Deus, como te amo, como faz falta essa imensidão cinza, Avenida Paulista, centro velho, Largo da Batata, Ipiranga. Liberdade, Augusta, Teodoro Sampaio, atravesso a ponte pra chegar no teu Morumbi e volto, volto e corro para os Jardins das tuas avenidas. E volto. E pego a Imigrantes pra fugir de você pelo menos por um dia e digo “pô, meu” sem ninguém prestar atenção. Paulista.
E te olho de cima do prédio do Banespa e resolvo descer e caminhar até o Mercado Municipal para um sanduíche de mortadela. E minha vida se completa nas suas feiras-livres, nos teus caldos de cana, na música nordestina saindo de um alto-falante de camelô. E talvez passe pela Pinacoteca pra ver algumas das suas artes, pela Galeria pra ouvir alguns dos seus sons. Respiro. Seco, cinza, duro. Mas respiro. E me falta teu ar. E sou feliz, cara, como sou feliz com o teu ar.
Que todos que te desdenham te deixem e que sobrem apenas os que te amam e não conseguem viver um dia sem reclamar e te adorar.
Sou filha tua, minha casa de pedra. E, meu, dói pra caramba não te ter todos os dias.
Parabéns, Sampa, querida.

Veja São Paulo em 360 graus, do alto do Edifício Itália: http://migre.me/hywv

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2 comentários sobre “Sampa

  1. Caroline disse:

    Logo eu que andei desdenhando tanto dela nos últimos dias.
    Também amo essa coisa grande e viva, que se vê do alto e não se acredita que é possível viver dentro dela.

    Mas a verdade é que quem chega, fica.

    Belo texto!

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