Deséame suerte

Passo as mãos pelos seus cabelos alisados, cobertos por alguma tinta barata. Corro meus dedos, como quando tocava aquela música pra você no violão, aquela que eu conhecia os acordes e você conhecia a letra, e cantávamos e tocávamos juntos a mesma música durante a madrugada toda. Você bebia e derramava o vinho tinto no carpete, eu corria para limpar e a gente ria e ria e ria até o sol nascer. Parece que éramos tão jovens, baby, e nem faz tanto tempo assim que rolávamos do sofá para o chão e fazíamos guerra de almofadas durante qualquer assunto na televisão, lembra?
Hoje eu olho pra você entretida numa novela boba e olho pra você de um jeito diferente. As sardas e a pele branca, ainda é frio e você não toma mais sol. Seus lábios secos pedem qualquer coisa como um beijo desses sem explicação. Mas eu não dou. Te olho por trás destes óculos pesados e quadrados e corro os dedos nos seus cabelos e penso de quantos orgasmos você é feita. De quantas estórias. Um mar de risos e choros e lágrimas e espamos e luxúria e álcool e drogas e versos de poemas. Como pode tanta coisa caber em apenas uma pessoa?
Tenho muita coisa guardada no peito pra te dizer. Que nunca mais vou conseguir beber Shiraz sem você e que não te ver sorrindo na porta dizendo deséame suerte vai me rasgar o coração. E é essa imagem tua, sorrindo de blusa amarela e dizendo deséame suerte, que levo comigo pro resto da minha vida. Deseja pra mim também qualquer sentimento bom, porque te quero bem acima de tudo. E chore, não se faça de boba fingindo ser forte, não se engane – pelo menos dessa vez. Não deixarei ninguém neste mundo julgar as tuas lágrimas.
Espero que me perdoe um dia, mas não fui capaz de amar nós dois sozinho. Não tenho amor suficiente pra alimentar nossos dois corações e você nunca me amou de verdade, aquele amor que vem das entranhas e estremece as pernas ainda que dez anos tenham se passado. Você gosta de estar comigo, de ler meus livros de madrugada e tirar a roupa com o som dos meus discos. Você é dura, menina, e eu preciso de um amor líquido.
Desapegue, rasgue as minhas fotos, mas não me odeie. Eu tentei. Talvez um dia eu volte pra beber Shiraz com você e tente seu amor mais uma vez e, quem sabe, mais umas outras vezes. E talvez eu nunca te amoleça. Seria bom se pudéssemos viver assim, eu bastando nosso amor por nós dois e você me desejando sorte, mas isso dói e  há somente um pouco que um coração pode aguentar.
Agora preciso ir, baby, mas me deixe correr os dedos pelos teus cabelos mais um pouco. Olha no fundo dos meus olhos, me leia, não chore, não pergunte. Apenas olhe nos meus olhos e me entenda. E deséame suerte.

Quando eu leio muito Caio acontece isso. Inspiração.

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