Que será, será

Sentir, sem didática pra saber o que fazer com o que sentir.

A vida deveria vir com manual de instruções. Com diagramas, gráficos e explicações plausíveis, com testes e respostas.

Enquanto isso toca alguma coisa na televisão, Doris Day, cara. Que será, será. The future is not ours to see.

A vida fala por si.

Dois

Sabe que quando você saiu por aquela porta eu até achei que fosse amor. Mas não, você não é nada mais do que uma fantasia que a minha imaginação criou pra mim, um você perfeito, sem defeitos, que só vem e não vai nunca. E agora preciso aprender a arrancar de mim duas pessoas, você e a minha fantasia.

À noite

Era tarde da noite e algum barulho lá fora nos acordou bem de leve, como uma dessas folhas que entram pela janela e pousam calmamente sobre a nossa cama. Você tinha um desses sonos profundos que você tem, e ainda assim, me puxou pelo braço e beijou minha mão. Então acordou um pouquinho mais e eu me lembro de doze beijos entre as mãos e o rosto, até que perdi a conta, você sabe, eu adormeço tão facilmente. Mas você não desistiu e me puxou contra o seu corpo e cheirou a esquina do meu pescoço, aquele cheiro que é só nosso, e você faz tanto isso. Eu acho tão lindo, tão animal, tão puro, como se um bicho cheirasse o outro pra ter certeza de que ali, naquele momento esquecido pelo tempo, eu sou a tua casa, o teu conforto, o teu mundo.

Labirinto

Andei olhando por aí, sabe… esse verde todo, esse céu azul. Caminhei na  esperança de te encontrar em alguma esquina, quem sabe você tenha vindo, não, você não viria, essa esperança toda tola. A esperança é a última que morre porque a ilusão a segura pelo braço. Cara, como a gente ilude a própria esperança. Eu tinha certeza de que você não viria e ainda assim eu te procurava em olhares dispersos, espalhados em lugares que talvez você nunca estivesse. Mas eu resistia, firme como uma dessas árvores que precisam ser serradas por dias e dias e homens e homens e nem pelo último fiapo desaba. Há de vir e empurrar com algo grande.
E assim eu fiquei por muito tempo. Te desenhava ali, onde imaginava que pudesse estar – se estivesse. E não estava. Nem eu mesmo estava. Era tudo ilusão, você e eu jamais daríamos certo, eu sempre disse, você é ariano e eu não tenho saco.
O negócio é que acabei me perdendo feio, fui entrando nesse labirinto sem fim cheio de planta carnívora e nem  pensei em jogar migalhas de pão pelo caminho. Foi como uma cegueira breve, uma dessas luzes brancas com sentimentos de droga. Acabei me perdendo de mim quando me encontrei em você.

Nada

De tudo fica um pouco. Um olhar perdido na foto, palavras rabiscadas no bloco de notas perto do telefone, naquele dia que te liguei. O sorriso que sorri o coração, a quentura da alma, o fogo da pele, o gelo da calma, o querer, o dever, o poder, o querer e querer e querer. A fantasia, tudo o que a gente criou e não passou de criação. Paixão é ilusão. Amor é realidade.

Do nada também fica um pouco.

Post-it

Eu queria te contar que cansei.
Cansei de escrever cartas e não mandar, cansei de não receber resposta, cansei de apertar a mesma tecla e a vida não reagir.
Acho que quando a vida pára de reagir é porque o tempo morreu. Passou, virou a página, a energia é outra.
Acho que estou precisando de um tempo pra mim, pra todos nós. Um tempo em Paris com cheiro de tulipa fresca.

***

Sabe que tudo isso apaga um dia, fica solto na areia esperando a maré cheia levar de volta. Preciso soltar de mim todos esses grilhões que me seguram. Cansei, cara, cansei. Cansei de todas essas coisas, não preciso disso.
Vou abrir a janela e inspirar o mundo, expirar você. Talvez a vida seja isso mesmo, a gente apenas inspira e expira os outros, as coisas mudam, as cenas mudam, e até mesmo o que permanece trancado lá no fundo é esquecido um dia.
Sinto o cheiro do hiacinto no vaso da sala. Como se a natureza dissesse, vai, levanta, caminha pra frente. O cheiro é outro.

***

Mas é. Aquela coisa, “it´s realizing that you don´t need certain people and their crap”. Porque o que você tem me dado é crap. A lot of, só pra mostrar o quanto você é pequeno de espírito.

***

Pois é, cansei.
Paris.
Inspiro tulipas e expiro você.

PSV Crônicas – Participe

Não resisti e escrevi pro PSV Crônicas. Tá, pra quem não sabe o PSV site é o Portfólio Sem Vergonha, um site criado pra ser uma mão na roda na vida de qualquer um começando carreira em Publicidade. Tipo de coisa que deveria ter existido quando eu era universitária e inventava briefs bestas pra minha pasta.
No PSV site, os briefs são desafios e participa quem quiser. Muito bacana.
Agora o @maurosergio, criador do site, lançou o PSV Crônicas. Mesmo esquema, mas para aquele escritor entalado na sua amídala, ou naquele calo do dedo do meio. O desafio que nasceu foi o “E se…”. Qualquer tema que comece com um “E se…”.
É, eu sou uma das juradas, por ser colunista da Casa do Galo, então considere minha participação um oops, I did it again. Café com leite, que nem quando eu era menor do que eu sou.

E se a gente não soubesse fingir?

E ele continuou a carta, apertando o lápis no papel: você me dói, você me dói como uma facada crua raspando a carne, pingando o sangue até chegar no fundo, como uma ferida antiga que não cicatriza e pulsa, pulsa pelo simples prazer de dizer que está aí. Que está aqui. Dentro. Mas não, não vou me deixar ser triste, vou beber muita vodka e te sumir de mim, me sumir de você. Vou fumar charutos e usar chapéu, vou deixar o bigode crescer. Vou comprar camisas xadrez e Levi´s 501. Vou usar sapato de bico fino e corrente no pescoço. Qualquer coisa que me faça esquecer de mim, de você, qualquer coisa que me faça esquecer de mim sem você e que invente um novo eu, um novo que nunca te viu. E o que é eu sem você… Não sei, juro que ainda não sei. Você veio e levou tudo o que eu tinha de bom, trancou os meus sentidos fora de mim. Mas eu vou, olha, veja bem, eu vou superar. A vida está aí, o sol está aí, se a vodka é café, o café é a vodka, já não sei. Só sei que você me dói, cara, você me dói pra caralho.
Apertou o lápis num rabiscado eu te amo, quebrou a ponta. Dobrou o papel, deu mais um gole na vodka, ou no café – não sei, e guardou a carta na gaveta do criado-mudo. Levantou e continuou: o sol lá fora, a escova de dentes, a chave do carro. Estava atrasado para o trabalho, tinha reunião logo cedo.

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