Embrulho

Amar alguém é um dos maiores gestos de humildade do ser humano.
É retirar de si o coração, a parte mais suscetível a dor, e entregar a uma pessoa esperando que ela não o machuque.
É retirar de si o pedaço mais frágil, sem saber como o outro vai cuidar e, ainda assim, esperar com toda a fé do mundo que seja colocado num pedestal e velado como a parte mais especial de sua vida.
É entregar o seu mundo inteiro em sangue e carne viva nas mãos de alguém e dizer toma, faça o que quiser com o que mais me dói.

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E as pessoas ainda não aprenderam o quanto isso é importante.

Guerreira de barco

Que talvez o que te prende é um passado que, de repente, não existe mais.
Que as pessoas mudam, ora pra melhor, ora pra pior.
Que o amor não acaba, mas se transforma.
Que para sempre não existe.
Que talvez tenha sido mesmo sempre você a insistir em tudo em isso.
Que talvez tenha sido mesmo sempre você a acreditar em contos de fada.
E contos de fada não existem.
Enxuga essas lágrimas, engole todo esse vazio. Chega de remar contra a maré, é hora de deixar a correnteza levar, é hora de deixar a vida manifestar suas vontades. Passe pro banco de trás, menina, você não controla mais esse barco.

E isso não é fracasso. Isso é amor próprio.

 

***

Continuará tentando, espera sempre o melhor de tudo. É uma guerreira sem estratégia nenhuma, conta apenas com essa esperança triste de que os outros continuem remando também.

A voz abafada de dentro

Parado no meio da rua, ele segurou suas duas mãos com todo o cuidado do mundo e sussurrou baixinho, não quero que você vá. Mas lá dentro dele, seu coração queria gritar tudo isso e fazer com que as pessoas que caminhavam por lá parassem, olhassem e entendessem, como um pedido de socorro, como se alguém no meio da multidão pudesse tirá-lo dessa angústia, chamem a ambulância, os bombeiros, socorro, socorro, socorro, camisa de força, amarrem-na, pelo amor de deus, amarrem-na, façam com que ela nunca mais vá embora!

Ela então beijou-lhe o rosto e disse que se apenas ele fosse menos frio, se soubesse dizer mais o que se passava por dentro, talvez ela não precisasse ir embora. E mais uma vez ele calou-se, com as unhas rasgando o avesso do coração, com a voz abafada de dentro gritando, implorando, pedindo. Ele simplesmente não sabia. E ela se foi, mais uma vez. Talvez para sempre.

Liberta

Liberdade de sentimentos é a única liberdade real. Somente quando nos despimos de sentimentos mesquinhos e estagnados é que podemos nos considerar livres.
O grande truque dessa liberdade é que às vezes ela te ilude, fazendo acreditar que está livre do que te prendia e, ao menor sinal de tropeço, ela te entrega todos os sentimentos de volta, enfeitados com lâminas afiadas e espinhos pontudos.
Há de se desprender do que te segura, há de se chacoalhar e deixar o que é morto cair.
Porque de nada adianta a liberdade se ainda somos escravos da nossa mente e do nosso coração. Eles é que são os grandes aliados e inimigos de qualquer pessoa livre.

Outbox

Porque tudo que eu mais queria é que você ainda quisesse. Naquela mesma intensidade de quando voltou.
Queria que ainda entupisse minha vida com aquele turbilhão de palavras que davam choque por dentro, que me faziam sentir viva. Queria enrubescer, sentir a boca molhar, o ar faltar. Queria sorrir por dentro e não conter o leve sorriso por fora quando os seus olhos cruzavam com os meus.
Queria sentir que você ainda quer. Na mesma intensidade que eu quero.
Ou queria. Já não sei mais.

Você teve o fogo na mão e não soube mantê-lo. Ou talvez apenas não quis que queimasse mais. 
Só que  nesse acende-apaga, menino, um dia a gente acaba perdendo o pavio.

Só queria sentir de novo.

 

Ponto final.
Então engoliu seco o que sobrava do vinho tinto e apertou o backspace sem piedade. Comeu letra por letra de tudo o que jamais falou. E, mais uma vez, guardou o sentimento por dentro. Quando ele voltou, fingiu que estava tudo bem.

Falta

Quando criança, eu tinha uma sensação reconfortante de que tudo se resolveria quando eu crescesse. Os problemas seriam facilmente solucionados, eu entenderia absurdamente de todas as coisas do mundo e, mais que isso, nada me faria falta. Quando eu crescesse, eu teria tudo o que me faria falta.
Talvez isso tenha sido um reflexo da minha infância dolorida com a morte precoce do meu pai, aquela sensação de falta gravada a ferro e fogo no meu subconsciente, ou talvez tenha sido apenas uma expectativa ingênua da adultice. Que nada me falte, que nada me falte. E lia no parachoque do caminhão da frente: “O Senhor é meu pastor e nada me faltará”. Pronto, tudo resolvido. Adulto não sente falta de nada.
Um dia eu entrei para o time e pude perceber que é na vida adulta onde tudo faz falta. O passado, o presente, a incerteza de um futuro do qual NÓS temos que cuidar, e ninguém pode cuidar dele no nosso lugar.
E então quando é que as coisas param de fazer falta? Quando é que o que faz falta não dói? Acho que o segredo é aprender aquela frase de auto-ajuda, life goes on. Mas veja bem, o segredo é aprender. E eu não sei o segredo.
Só sei que tenho um monte de coisas e me faltam outras tantas. E sinto que sempre irão me faltar e causar um bocado de dor. As coisas mudam, as pessoas mudam, os ciclos se renovam, as coisas e as emoções morrem. E nascem de novo. Mas o que morre fica pra trás e faz falta.
Alguma coisa sempre vai faltar. Alguma coisa, lá dentro, sempre vai doer. E acho que a causa de tudo isso, dessa insana falta de tudo na vida adulta, é meramente falta de tempo para dedicar a alguma coisa que realmente importe.

Veneno

Era terça-feira e ela sabia que tinha acordado diferente. Jogada na cama, ainda com a roupa da noite, a maquiagem borrada, escorrida em forma de lágrima pelo rosto, denunciava uma noite escura e sozinha. Mas como todo mundo que um dia leva demais, ela aprendeu. Parecia que sim. Depois daquela noite ela seria muito idiota se não aprendesse.
Ele era veneno. Ou ela era quem havia construído o veneno em cima da imagem dele, baseada ainda naquela frase anotada na contra-capa do caderno da 7a. série: meninos são gente que diz coisas sem querer dizer.
Aos 27, o que mais esperar de situações assim? Que tudo que começa tem um fim, que tudo é ciclo, é mar que vai e volta. As coisas e os sentimentos morrem. E ele era veneno. Ele era droga pesada e a iludia por algum motivo que não entendia (não tinha certeza de que ele a iludia). O problema é que ele não cogitava sequer lhe mostrar o contrário, então resolveu acordar diferente. Apagou mentalmente seus vestígios e suas migalhas, colocou o menino dentro de um vidro, escreveu numa etiqueta “veneno” e ali deixou. Para quando estivesse segura de que poderia se envenenar de novo sem morrer de amor.
Talvez ele não fosse veneno. Talvez ele realmente gostasse dela e não sabia o que fazer com isso. Talvez ele realmente dissesse coisas que queria dizer. Cuidado com as ilusões, menina. Se te dói tanto, melhor etiquetar e esquecer na prateleira.
Não, não era isso que lhe doía. O que mais rasgava-lhe o peito era ter aquela certeza contida de que não era pra ele tão especial como ele era para ela. Mas te acalma, querida. É disso que são feitos os amores.

***

Sentou-se no chão do box, deixando a água quente lavar a alma, o coração e a mente.
Acho que levou demais, mas não tenho certeza se já aprendeu.

Crisântemo

Se tem uma coisa que me tira do sério é alguém me fazer uma pergunta, eu responder e a pessoa retrucar com um “mas você tem certeza de que sabe do que eu tô falando?”. Não, meu querido, eu só quis dar uma de espertinha mesmo.
Na loja, eu estava atendendo um casal de senhorzinhos muito dos grossos, até que o homem me perguntou:
– Vocês tem chá de crisântemo?
– Não, desculpa, a gente não faz.
Meia hora com a sobrancelha levantada, me olhando de cima e lá veio:
– Mas você tem certeza de que sabe do que eu tô falando?
Minha vontade foi de responder, claro, meu senhor, crisântemo é aquele pássaro, e a gente não faz chá de pássaro, desculpa. Mas daí tirei a Milena mais educada (cof-cof) de dentro de mim e respondi:
– Sei sim, claro, crisântemo é aquela flor de cemitério, existe chá dela? Não sabia.

O homem me olhou torto, mas eu sorri bem bonitinho.