Falta

Quando criança, eu tinha uma sensação reconfortante de que tudo se resolveria quando eu crescesse. Os problemas seriam facilmente solucionados, eu entenderia absurdamente de todas as coisas do mundo e, mais que isso, nada me faria falta. Quando eu crescesse, eu teria tudo o que me faria falta.
Talvez isso tenha sido um reflexo da minha infância dolorida com a morte precoce do meu pai, aquela sensação de falta gravada a ferro e fogo no meu subconsciente, ou talvez tenha sido apenas uma expectativa ingênua da adultice. Que nada me falte, que nada me falte. E lia no parachoque do caminhão da frente: “O Senhor é meu pastor e nada me faltará”. Pronto, tudo resolvido. Adulto não sente falta de nada.
Um dia eu entrei para o time e pude perceber que é na vida adulta onde tudo faz falta. O passado, o presente, a incerteza de um futuro do qual NÓS temos que cuidar, e ninguém pode cuidar dele no nosso lugar.
E então quando é que as coisas param de fazer falta? Quando é que o que faz falta não dói? Acho que o segredo é aprender aquela frase de auto-ajuda, life goes on. Mas veja bem, o segredo é aprender. E eu não sei o segredo.
Só sei que tenho um monte de coisas e me faltam outras tantas. E sinto que sempre irão me faltar e causar um bocado de dor. As coisas mudam, as pessoas mudam, os ciclos se renovam, as coisas e as emoções morrem. E nascem de novo. Mas o que morre fica pra trás e faz falta.
Alguma coisa sempre vai faltar. Alguma coisa, lá dentro, sempre vai doer. E acho que a causa de tudo isso, dessa insana falta de tudo na vida adulta, é meramente falta de tempo para dedicar a alguma coisa que realmente importe.

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6 comentários sobre “Falta

  1. Taty disse:

    Mi, querida!

    Outro dia mesmo escrevia sobre isso: http://whenshedanced.blogspot.com/2010/11/aqueles-tempos-de-paz.html

    Realmente, na infância acreditamos que, quando adultos, seremos melhores e não teremos mais tantas tristezas como na infância.

    Saiba que eu também pensava assim e, quando me deparei com a realidade, foi bem difícil!

    Mas ao final descobrimos que a falta não se relaciona com infância, adolescência ou vida adulta… mas com a vida, de forma geral!

    Somos seres faltantes em busca da realização de um desejo que contemple nossas carências…. mas nos esquecemos de que a grande artimanha do ser humano é renovar seu desejo a cada segundo, nunca o concretizando por completo!

    Falei demais, né? Culpa do seu texto tão bonito e verdadeiro!

    Beijos, linda…!

  2. Cris disse:

    Amiga, poucas coisas na vida nos completam. O restante só aguça a falta.
    O problema da falta é que damos tanto valor a ela que esquecemos que aquilo que nos preenche é mais importante. Esquecemos pq o que nos preenche não mais é desejado, pq já está lá. E o que faz falta parece tão importante pq somos filhos do desejo.
    As faltas e as presenças sejam das coisas ou das pessoas, não é o que importa.
    A relativa verdade é que o que importa de fato é você aceitar tudo que você recebe como um “aprendizado”.
    Como você mesma disse “O segredo é aprender”.
    Você já sabe o caminho, só precisa aceitar e acreditar.

    E eu concordo com a Ka.
    Você realmente faz falta… Muita falta!

    Te amo pequena
    bjos
    Cris

  3. Delma disse:

    Mi

    Nossa, tanto tempo sem aparecer….que texto lindo! Nem tenho palavras….pois pensava da mesma maneira e tenho muitas saudades do tempo da infância, do tempo em que a vida era só alegria…

    Beijão

  4. heleny disse:

    ENQUANTO VIVEMOS, ESTAMOS BUSCANDO ALGO, NAO SABEMOS EXATAMENTE O QUE. SEMPRE QUEREMOS MAIS E MAIS (FELICIDADE E SENSAÇOES NOVAS, ETC, ETC……).

    PESSOAS E ALGUMAS COISAS MATERIAIS NOS FAZEM FALTA.

    ESPERAMOS QUE 0 UNIVERSO NOS PRESENTEI SEMPRE COM ALEGRIAS E REALIZAÇOES PARA PREENCHER O VAZIO QUE ALGUMAS VEZES SENTIMOS ENTÃO, COBRAMOS DELE O TEMPO TODO.
    ISSO FAZ PARTE DE NOSSAS VIDAS E DEVEMOS IR ATRÁS DO QUE DESEJAMOS, CONQUISTAR E VIVER INTENSAMENTE.

    ONDE QUER QUE ESTEJAMOS SABEMOS QUE SOMOS AMADAS E ISSO TRAZ CONFORTO.
    TE AMO, MINHA ADORADA FILHA.

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