Veneno

Era terça-feira e ela sabia que tinha acordado diferente. Jogada na cama, ainda com a roupa da noite, a maquiagem borrada, escorrida em forma de lágrima pelo rosto, denunciava uma noite escura e sozinha. Mas como todo mundo que um dia leva demais, ela aprendeu. Parecia que sim. Depois daquela noite ela seria muito idiota se não aprendesse.
Ele era veneno. Ou ela era quem havia construído o veneno em cima da imagem dele, baseada ainda naquela frase anotada na contra-capa do caderno da 7a. série: meninos são gente que diz coisas sem querer dizer.
Aos 27, o que mais esperar de situações assim? Que tudo que começa tem um fim, que tudo é ciclo, é mar que vai e volta. As coisas e os sentimentos morrem. E ele era veneno. Ele era droga pesada e a iludia por algum motivo que não entendia (não tinha certeza de que ele a iludia). O problema é que ele não cogitava sequer lhe mostrar o contrário, então resolveu acordar diferente. Apagou mentalmente seus vestígios e suas migalhas, colocou o menino dentro de um vidro, escreveu numa etiqueta “veneno” e ali deixou. Para quando estivesse segura de que poderia se envenenar de novo sem morrer de amor.
Talvez ele não fosse veneno. Talvez ele realmente gostasse dela e não sabia o que fazer com isso. Talvez ele realmente dissesse coisas que queria dizer. Cuidado com as ilusões, menina. Se te dói tanto, melhor etiquetar e esquecer na prateleira.
Não, não era isso que lhe doía. O que mais rasgava-lhe o peito era ter aquela certeza contida de que não era pra ele tão especial como ele era para ela. Mas te acalma, querida. É disso que são feitos os amores.

***

Sentou-se no chão do box, deixando a água quente lavar a alma, o coração e a mente.
Acho que levou demais, mas não tenho certeza se já aprendeu.

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2 comentários sobre “Veneno

  1. CAROL disse:

    Meu Deus, justo hoje resolvi passar no seu blog e dei de cara com esse texto … parece que vc entrou dentro do meu coracao e colocou em palavras os meus sentimentos! te amo

  2. Taty disse:

    Mi,

    Um dos mais lindos e bacanas que você já escreveu!

    Acredito que o teor do veneno depende muito do quanto a gente usa e abusa dele… de como a gente trata as pessoas e aceitamos ser tratados!

    Beijos, com carinho!

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