É que essa raiva que eu sinto do mundo bem que podia servir para alguma coisa que me fizesse te apagar para sempre. Mas não consigo te odiar. Ainda que tenha me rasgado em pedaços com seus traços de desamor, ainda que tenha usado o meu sentimento como um pequeno troféu de ego. Não consigo te odiar. Volta e meia me pego submerso em lembranças nossas – deus, faz tanto tempo. Teu cheiro, teu gosto, já mal lembro as curvas do teu corpo; mas teu sorriso, teu olhar, aquelas poucas horas de felicidade impossível. Alguns detalhes minuciosos de qualquer instante que dividimos. Você me olhando quando eu não percebia. O beijo roubado na esquina do teu ombro. O mundo parado no calor do teu rosto sobre o meu peito. Hendrix na televisão e você dizendo que sempre se lembraria de mim quando ouvisse Hendrix.
Hendrix continua tocando e talvez eu não exista mais em você.
Categoria: Crônicas, Contos & Ladainhas
A maior parte das minhas crônicas é fictícia. Quando for verdade, eu aviso!
E se a gente não soubesse fingir?
E ele continuou a carta, apertando o lápis no papel: você me dói, você me dói como uma facada crua raspando a carne, pingando o sangue até chegar no fundo, como uma ferida antiga que não cicatriza e pulsa, pulsa pelo simples prazer de dizer que está aí. Que está aqui. Dentro. Mas não, não vou me deixar ser triste, vou beber muita vodka e te sumir de mim, me sumir de você. Vou fumar charutos e usar chapéu, vou deixar o bigode crescer. Vou comprar camisas xadrez e Levi´s 501. Vou usar sapato de bico fino e corrente no pescoço. Qualquer coisa que me faça esquecer de mim, de você, qualquer coisa que me faça esquecer de mim sem você e que invente um novo eu, um novo que nunca te viu. E o que é eu sem você… Não sei, juro que ainda não sei. Você veio e levou tudo o que eu tinha de bom, trancou os meus sentidos fora de mim. Mas eu vou, olha, veja bem, eu vou superar. A vida está aí, o sol está aí, se a vodka é café, o café é a vodka, já não sei. Só sei que você me dói, cara, você me dói pra caralho. Apertou o lápis num rabiscado eu te amo, quebrou a ponta. Dobrou o papel, deu mais um gole na vodka, ou no café – não sei, e guardou a carta na gaveta do criado-mudo. Levantou e continuou: o sol lá fora, a escova de dentes, a chave do carro. Estava atrasado para o trabalho, tinha reunião logo cedo.
* Escrito em 5 Abril 2011
Não tenha medo
Não tenha medo de olhar dentro dos meus olhos enquanto acaricia minha mão com o seu polegar esquerdo. De me beijar de olhos abertos e ter certeza de que sou eu aqui, só eu e é agora. Não tenha medo de correr os dedos pelo meu corpo e provar que cada gosto é exatamente tudo aquilo que você sempre quis. Não tenha medo desse meu jeito impulsivo, dessa intensidade suada, do quanto mastigo em palavras tudo o que sinto por você. Não tenha medo de me dizer onde é que em você eu moro, antes de fazer de tudo isso uma história em vão. Não tenha medo da estrada, de uma história errada, não existe erro quando existe amor.
Mas acima de tudo, por favor, não tenha medo de sentir. Quem nega o que sente, nega a si mesmo, endurece a alma e sufoca o que resta da vida.
Olhos fechados
Sentei no jardim esperando uma resposta, qualquer tipo de sinal, nem ao menos sabia dizer o que tanto eu esperava. Olhei para mim, para o meu corpo, analisei os dedos do pé, cada unha, cada dobra, o osso do tornozelo, o calcanhar. Olhei minhas mãos, minhas pernas, cada pedaço de mim que pudesse contar alguma história.
O zumbido de uma abelha desviou minha atenção, ela mergulhava flor por flor no meu jardim. O rasante de uma andorinha bem na linha dos meus olhos, três caramujos peregrinando uma longa estrada de terra, dois tatus-bola, algumas aranhas entre as plantas, formigas enfileiradas. Patos voavam no horizonte em direção ao rio, as nuvens corriam de um vento sem fim, um vento com som. Dois pardais namoravam na cerca viva, as coelhas chutavam a cerca de madeira.Procurava demais pelo lugar errado. As respostas estão sempre presentes, mas é preciso ter os olhos bem abertos para o que não é humano.
O coração pensa
Alguma coisa muda em mim em dias de chuva cinza: o coração pensa.
O frio acalenta a dúvida e enche a saudade de certeza. Saudade boa é a que vem com as escolhas certas.
Varre as folhas mortas do outono, o ciclo está fechado. Amadurece, olha-te por dentro e veja quem você é agora e o tamanho do orgulho que tenho por ser quem é. Passado é constância morta. O futuro, menina, está a um passo do seu instante. Caminha pra frente, a vida te desprende. E o desprendimento trará apenas o que te brilha os olhos e sorri teu coração. Você já escolheu teu caminho e ele tem paz por dentro, olha, lembra. “Que você tenha uma vida boa, pois é uma boa menina”. Seja feliz, incrivelmente feliz.
O ritual: amor egóico
Algumas coisas não fazem sentido e por mais que você tente, nunca o farão. Não tente entender. Se não importa aos envolvidos, deveria ter menos importância ainda para você.
Hoje ele apagou todos os emails, inclusive o que guardava o número de telefone da casa dela. Rasgou as cartas, os bilhetes, as fotos e os sorrisos. Já havia se martirizado demais com resquícios de um semi-amor.
Ela não tem mais a menor consideração por ele; não responde seus telefonemas. O carinho, o amor, nunca saberá ao certo o quanto foram reais ou ilusórios, mas nessa etapa tudo parece ter sido apenas ilusão. Como pode se convencer do inexistente? Como pode entregar seu coração da forma mais barata?
O ritual precisava ser feito há seis meses, mas o dia só chegou hoje. É hora de apagá-la da sua história. Ainda que para você tenha sido especial de alguma forma, ainda que queira levar as boas lembranças, não vale a pena guardar o que outras pessoas teimam em esquecer. Então esquece também. Apaga, finge que nunca existiu.
Ele tinha muito medo de se arrepender de ter cruzado seu caminho um dia. Ela não fazia questão de não ser apenas uma imagem de mágoa e arrependimento, muito pelo contrário – agia de tal forma que algumas pessoas juravam que essa era a intenção. Loucos os que fazem questão de ser um arrependimento na história de alguém. Loucos.O dia amanhecia laranja. Uma única estrela teimava em brilhar na claridade do horizonte. Toca tua vida. Esquece. Apaga. Deleta. Os caminhos estão cheios de pessoas boas e ruins, não foi teu primeiro amor e muito menos será o último.
Talvez ela sofra. Talvez não esteja nem aí pra você. Perguntas que nunca saberá responder, então enterra, desiste de qualquer aproximação, cumpre o ritual. Chega de tentar manter por perto quem não te quer bem.
Um dia você entenderá que relacionamentos não baseados em amor são puramente egóicos. E, a menos que você desista completamente do ego viciado que te liga à esse tipo de amor, você doerá um vazio enorme.Amor e ego são contradições, aprenda isso. Nunca foi amor. Nunca.
Incoerência: desabafo de uma quarta à noite
Descobri que as pessoas são completamente incoerentes. De uma incoerência falsa, superficial. Nada tem a ver com uma pequena loucura, há sanidade em todos os poros. A incoerência é apenas falsidade.
Não aguento mais superficialidade, pessoas rasas com invejável marketing pessoal. Não tenho mais saco para gente que tenta fugir de estereótipos, criando outros ainda piores. Não suporto mais cascas interessantes que escondem personalidades podres, espíritos mesquinhos sem consideração alguma. Não respeito quem brinque com sentimentos, sejam eles quais forem. Não aguento mais me apaixonar por seres humanos decepcionantes. Onde foram parar os elos das amizades de adolescência? Como se fazia isso?
Não peço muito, peço gente como eu. Que aja de acordo com o que pensa e sente, que não tenha medo de ser julgado por ser quem é. Que preze e considere os outros com suas cargas emocionais, suas dores e seus corações. Que não pisem em corações. Peço gente que saiba entender o sensível, que consiga ler as entrelinhas de um olhar. Gente que se emocione mais com o ser humano do que com um jogo de futebol.
Peço o gesto, muito mais que as palavras. E das palavras, peço somente as honestas. Peço a sinceridade, comigo e consigo. Sejam sinceros com vocês mesmos, com o que sentem e pensam. Peço apenas o verdadeiro, a aceitação, o discernimento. Apenas diga ou faça algo para alguém, se o fizer com todo o seu coração.O que as pessoas não percebem é que quanto mais incoerentes são, mais fracas e mal resolvidas se mostram. A coerência nada mais é do que a lapidação da personalidade; é quando mente, alma e coração querem as mesmas coisas.
Lealdade e genuinidade têm sido nobrezas raras de se encontrar no ser humano.
Tragam-me os pertencentes ao mundo
Ando com preguiça de amizades reais e virtuais que não agregam nada. Ando com tolerância zero para pessoas superficiais, desinteressantes, sonsas, falsas e dissimuladas. Sentimentos que mudam do dia pra noite, corações que pulsam ontem e adormecem hoje.
Não quero mais perder meu tempo com pessoas que consomem minha energia, que seguram minha evolução. Só quero ao meu lado as pessoas que me amam de verdade e que estarão comigo para o que der e vier. Sem falsas expectativas, sem espíritos complicados. Só quero o que flui, gente líquida, do bem. Gente que sabe se pronunciar e não tem medo de dizer o que sente; odeio pessoas emperradas.
Quero os livres de pensamento – mas os livres mesmo, não os que estão presos na ideia de liberdade. Sem nós na garganta e no coração, sem problemas remoídos, sem cicatrizes abertas.
Tragam-me os pertencentes ao mundo, quero os amantes do planeta e dos bichos. Quero tudo o que não for estereótipo e vier sem rótulo. Quero gente livre, sem máscara e sem medo. E que, principalmente, tenha bom gosto musical.
