Olhar para o passado só é bom quando se é livre dele. Ainda não cultivei a arte do desapego, não sei soltar a mão sabendo que o que volta é o que fica, tenho medo. Tenho tanto medo que errei muito com você e acabei de te perdendo. Acabamos nos perdendo no exato instante em que nos encontramos por dentro.
Amar é simples, relacionamentos é que são complexos. Eu quis tanto ser o teu lado fácil, a mão que te acolhe, aquele amor eterno. Quis tanto ser o beijo de madrugada, teu eterno não-compromisso, o nosso amor livre. Eu quis tanto ser um pedaço de nós dois sem ser de ninguém, mas sou apenas humana. Qualquer tentativa de desapego exige de mim níveis de evolução que ainda não alcancei. E eu tentei, mas – me perdoa – não consegui. Minha mania de controle me ensinou que é impossível controlar emoções quando meus pensamentos já não deitam sobre meu travesseiro.
Teu cheiro ainda vaza das minhas mãos, o calor dos teus lábios ainda percorrem o meu corpo e meu corpo, meu corpo sangra em saudade doída. Queria mais uma vez poder te olhar os olhos pretos e dizer-te nada, absolutamente nada, contrário a tudo o que eu fui um dia. Queria te sorrir de longe, alheia às nossas vidas, e entender a linha tênue entre nossos olhares e sorrisos de canto delimitando a eternidade de um amor que um dia viveu; e que apenas adormece. Queria essa certeza de que as coisas não morrem, que existem sentimentos que apenas se aquietam embaixo das cicatrizes, queria perceber uma entrelinha em você que acalentasse meu coração tão cheio de buracos. Meu nó no peito, minha falta de orgulho. Por que devo calar sentimentos? Por que devo fingir que você passou em mim quando a verdade ecoa por dentro todos os dias? Para te proteger, para te proteger do meu amor.
Fui eu quem decidiu ir embora quando você não pediu pra ficar.
Fui eu quem soltou a mão esperando que voltasse.
Fui eu quem perdeu o controle de uma paixão desmedida.
Fui eu quem atravessou a rua para escolher tudo que não fosse você.
Mas saiba que não morreu em mim. Saiba que um pedaço do meu peito ainda mora no nosso último abraço. Entenda que nem sempre a paixão é escolha. Me perdoa por ter te deixado entrar de maneira tão brutal na minha vida. E volta um dia, quando estiver preparado, quando o amor descansar solene debaixo dos nós na garganta.
…
A vida terrena não nos permitiu muito tempo, mas tenho de ti as melhores qualidades e os melhores defeitos.
É pela tua falta que não sou muito boa com o dia dos pais. Feliz, seja onde for, pai.
Máscara
Falta, a gente sempre sente. De um lugar, de uma pessoa, de um momento. Mas é importante lembrar que cada segundo já é passado, que tudo está em constante evolução e mudança é a única realidade que existe. As pessoas mudam, os cenários mudam. O cheiro evapora, as memórias amarelam como fotografias antigas. Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica se lembrar dos detalhes.
A verdade é que o que é efêmero é passado, ora ou outra; hoje ou amanhã. E nem sempre a verdade é que as pessoas mudam, às vezes elas só encararam personagens para te encantar. O que sobrou hoje, isso sim talvez seja a realidade. Uma máscara jogada no canto do palco.
It is far harder to kill a phantom than a reality. (Virginia Woolf)
Irresistível
Ela era assim, irresistível. Tinha tantos defeitos, que era completamente perfeita. Impulsiva, intensa, fazia o que tinha vontade. Vivia um dia de cada vez, era inconsequente e totalmente louca. Podia jurar que era louca. Mas dessas insanidades de gente feliz, sabe? que faz o que quer, que vive o quer, que se doa sem pensar no que vai ganhar em troca. Se você quisesse, ela te faria a pessoa mais feliz do dia. Se você deixasse, ela tornaria seus dias as suas melhores aventuras. Cada minuto ao lado dela era um minuto de memória eterna.
Escondia uma mulher incrível atrás dos grandes olhos azuis de menina e das sardas espalhadas no nariz. Era forte, de personalidade e músculo. Deixaria você sem palavras com as respostas mais astutas. Era incrivelmente inteligente e culta, seu maior charme. Quando ela sorria, ah – seu sorriso esticava inteiro pelo seu rosto, e seus olhos quase se fechavam como se fosse preciso sonhar a cada sorrir. Era o rasgo mais bonito que já tinha visto.
E quando ela caminhava pela rua, vestida de cores vivas, ela era vida. Ela é o inesperado, o sem rumo. Ela é a pessoa mais instigante que você já conheceu; ela é a risada mais convidativa, ela é arte em sua forma mais bruta.
Ela tem o maior coração do mundo e dentro dele caberia você. Se você deixasse.
Purple Haze
É que essa raiva que eu sinto do mundo bem que podia servir para alguma coisa que me fizesse te apagar para sempre. Mas não consigo te odiar. Ainda que tenha me rasgado em pedaços com seus traços de desamor, ainda que tenha usado o meu sentimento como um pequeno troféu de ego. Não consigo te odiar. Volta e meia me pego submerso em lembranças nossas – deus, faz tanto tempo. Teu cheiro, teu gosto, já mal lembro as curvas do teu corpo; mas teu sorriso, teu olhar, aquelas poucas horas de felicidade impossível. Alguns detalhes minuciosos de qualquer instante que dividimos. Você me olhando quando eu não percebia. O beijo roubado na esquina do teu ombro. O mundo parado no calor do teu rosto sobre o meu peito. Hendrix na televisão e você dizendo que sempre se lembraria de mim quando ouvisse Hendrix.
Hendrix continua tocando e talvez eu não exista mais em você.
E se a gente não soubesse fingir?
E ele continuou a carta, apertando o lápis no papel: você me dói, você me dói como uma facada crua raspando a carne, pingando o sangue até chegar no fundo, como uma ferida antiga que não cicatriza e pulsa, pulsa pelo simples prazer de dizer que está aí. Que está aqui. Dentro. Mas não, não vou me deixar ser triste, vou beber muita vodka e te sumir de mim, me sumir de você. Vou fumar charutos e usar chapéu, vou deixar o bigode crescer. Vou comprar camisas xadrez e Levi´s 501. Vou usar sapato de bico fino e corrente no pescoço. Qualquer coisa que me faça esquecer de mim, de você, qualquer coisa que me faça esquecer de mim sem você e que invente um novo eu, um novo que nunca te viu. E o que é eu sem você… Não sei, juro que ainda não sei. Você veio e levou tudo o que eu tinha de bom, trancou os meus sentidos fora de mim. Mas eu vou, olha, veja bem, eu vou superar. A vida está aí, o sol está aí, se a vodka é café, o café é a vodka, já não sei. Só sei que você me dói, cara, você me dói pra caralho. Apertou o lápis num rabiscado eu te amo, quebrou a ponta. Dobrou o papel, deu mais um gole na vodka, ou no café – não sei, e guardou a carta na gaveta do criado-mudo. Levantou e continuou: o sol lá fora, a escova de dentes, a chave do carro. Estava atrasado para o trabalho, tinha reunião logo cedo.
* Escrito em 5 Abril 2011
Não tenha medo
Não tenha medo de olhar dentro dos meus olhos enquanto acaricia minha mão com o seu polegar esquerdo. De me beijar de olhos abertos e ter certeza de que sou eu aqui, só eu e é agora. Não tenha medo de correr os dedos pelo meu corpo e provar que cada gosto é exatamente tudo aquilo que você sempre quis. Não tenha medo desse meu jeito impulsivo, dessa intensidade suada, do quanto mastigo em palavras tudo o que sinto por você. Não tenha medo de me dizer onde é que em você eu moro, antes de fazer de tudo isso uma história em vão. Não tenha medo da estrada, de uma história errada, não existe erro quando existe amor.
Mas acima de tudo, por favor, não tenha medo de sentir. Quem nega o que sente, nega a si mesmo, endurece a alma e sufoca o que resta da vida.
Olhos fechados
Sentei no jardim esperando uma resposta, qualquer tipo de sinal, nem ao menos sabia dizer o que tanto eu esperava. Olhei para mim, para o meu corpo, analisei os dedos do pé, cada unha, cada dobra, o osso do tornozelo, o calcanhar. Olhei minhas mãos, minhas pernas, cada pedaço de mim que pudesse contar alguma história.
O zumbido de uma abelha desviou minha atenção, ela mergulhava flor por flor no meu jardim. O rasante de uma andorinha bem na linha dos meus olhos, três caramujos peregrinando uma longa estrada de terra, dois tatus-bola, algumas aranhas entre as plantas, formigas enfileiradas. Patos voavam no horizonte em direção ao rio, as nuvens corriam de um vento sem fim, um vento com som. Dois pardais namoravam na cerca viva, as coelhas chutavam a cerca de madeira.Procurava demais pelo lugar errado. As respostas estão sempre presentes, mas é preciso ter os olhos bem abertos para o que não é humano.
