E entre algumas pessoas desconhecidas, você se apresentou à mim com nome e sobrenome. E eu te sorri um sorriso secreto de quem tem histórias nossas para contar.
Ninguém percebeu, mas teus olhos já brilhavam em mim há um bocado de tempo.
Categoria: Crônicas, Contos & Ladainhas
A maior parte das minhas crônicas é fictícia. Quando for verdade, eu aviso!
O dia chora
O dia chora. É uma chuva tão fina que você só percebe a tristeza do dia se olhar para a escuridão. Gotas minúsculas de lágrimas que o sol não consegue esconder. Não molha o chão, a chuva é mansa e doída. E é gelada somente em que for capaz de percebê-la.
O dia chora os amores perdidos, os amigos esquecidos. O dia chora a falta do abraço e o último beijo. A chuva chora o frio do peito, um vazio oco, Eco. As risadas varridas, os sorrisos trocados, os olhos que brilham. A chuva chora a moça que virou a esquina porque não podia amar. O dia chora o velhinho sentado na praça e seu chapéu de perdas. O dia chora o medo que o menino tem do escuro por dentro. A chuva chora os que lembram, os que não esqueceram, os que ainda esperam.
O dia chora uma chuva tão fina e triste, que não se sente, que mal se vê. É a tristeza silenciada, o nó na garganta, é o sorriso falso do dia no sol. E eu não sei bem ao certo se o dia está triste ou se o dia é apenas poesia.
Borboleta amarela
Minha irmã me mandou uma foto de uma borboleta amarela essa manhã. É como um código secreto nosso de infância desejando boa sorte. Era sinal de dia feliz. Uma gritava “corre, vem ver uma borboleta amarela!” e sussurrávamos juntas com os olhinhos bem abertos e fixos na borboleta amarela: “sorte pra hoje e pra amanhã”.
Me lembrei agora, então, de um trecho de “Borboleta Amarela” do Rubem Braga, que diz: “Vinde. Vamos tocar janeiro, vamos por fevereiro e março e abril e maio, e tudo que vier; durante o ano a gente o esquece, e se esquece; é menos mal. E às vezes, ao dobrar uma semana ou quinzena, às vezes dá uma aragem. Dá, sim; dá, e com sombra e água fresca. E quem vo-lo diz é quem já pegou muito no sol nos desertos e muito mormaço nas charnecas da existência. Coragem, a Terra está rodando; vosso mal terá cura. E se não tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa; o fim é um grande sossego e um imenso perdão.”Ah, se eu não acreditasse na sincronicidade da vida talvez deixaria passar despercebido tanto significado. Se eu estivesse um pouco mais distraída, talvez perdesse completamente a minha inocência.Obrigada, irmã. Obrigada, vida. Que a sorte seja sempre para hoje e para amanhã.
E se a gente se apaixonasse de verdade
Então você olhou lá dentro dos meus olhos e me perguntou, tentando tirar de mim a resposta mais perfeita que eu pudesse elaborar:
– E se a gente se apaixonar de verdade?
Eu ri, sem saber muito o que te falar, sem querer dizer que se a gente se apaixonar, a gente foge junto pra Itália e fica lá vivendo só de amor e aventura, sem querer te dar uma resposta perfeita, porque perfeição e paixão não combinam. Então te digo assim, olha: se a gente se apaixonar, a gente vira uma história bonita. Dessas que foram feitas somente para serem contadas e nunca encenadas. Desses amores que ficam alheios ao tempo e à vida, desses que esperam que um dia, quem sabe, o futuro resolva. Desses amores que devem ser guardados pra outra vida, sei lá, deixa de tanto medo, de tantos dedos. Mania mais masculina essa de querer se pré proteger do que tem apenas potencial pra machucar. Machucar, todo amor machuca, meu bem, quer queira ou não. Meu coração também é de papel remendado, se a gente se esfolar, é fácil achar a borda cortada pra colar de novo. Se a gente se apaixonar de verdade, menino, a gente
resolve depois. Por enquanto só chega mais perto, me invade e me mostra o quanto dá pra amar, agora.
* Texto publicado no segundo livro Mundo Mundano, 2011.
Come on, let´s get ready
Larguei a vida inteira e coloquei o meu barco no mundo. Sem nada, além de uma promessa de amor. Trocar a vida todo por um relacionamento é como trocar tudo o que você tem no mundo pelas suas duas mãos fechadas em concha, apenas, segurando vento. Ah, relacionamentos são tão instáveis!
E entre chaminés compridas e estações do ano definidas eu descobri uma porção de coisa. Que todo esse tempo foi uma auto-celebração. Que toda essa vida é incrível. E que eu sou grata pelos meus momentos mais difíceis, pois sem eles eu seria apenas mais uma alienada morando na Europa.
Não tenho pretensão de parecer forte o tempo todo, e quase sempre não sou, e por isso que eu tenho um baita orgulho de mim mesma. Só eu sei o tamanho das pedras em que tropecei.
E crescer é isso. É pertencer à todos os lugares e à nenhum ao mesmo tempo e – ainda assim – se sentir em casa. É se adaptar à falta, ao vazio, mesmo quando tudo está completo. Eu descobri que, se antes eu me achava saudosista, hoje eu sei que o que eu tenho é saudade pura. Eu não superestimo o passado. Eu tenho uma lembrança quase melancólica e muito suave das pessoas, das situações distantes, coisa corriqueira de quem deixa suas raízes.
E enquanto a vida passa, eu tropeço nos obstáculos feito gente grande. De um lado, seguro a mão da menina que eu fui – ela não me deixa esquecer quem sou. Nas costas, carrego a saudade com todo o amor do mundo. E na minha frente tem uma estrada e eu já não mais me importo com o que tem no fim dela. Respiro fundo e espero o amor falar. E ele diz com aqueles olhos de bolinha de gude: come on, let´s get ready. É hora de seguir. Dane-se o que virá. O que importa é o que está aqui comigo, de mãos dadas, carregado nas costas e ao meu lado. É isso o que eu chamo de vida. Felicidade é paz de espírito.
“Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.”
(Alberto Caeiro, “Para além da curva da estrada)
…
Amassou um artigo de jornal com o meu nome.
Pediu outro vinho da casa; Chardonnay era o meu preferido.
Apagou todo aquele álbum do Strokes que ouvimos na minha cama.
Deletou os amigos em comum do Facebook.Deus, como doía a saudade que não podia ter.
Se eu te deixei ir, não foi por falta de amor
Se eu te deixei ir, não foi por falta de amor. Foi por excesso. Foi porque você não correspondia mais aos meus sentimentos e sequer se deu a chance de continuar. Muito mais à você do que à mim.
Meu coração já não acelerava mais, baby, minhas pernas não tremiam. As palavras que antes mexiam tanto comigo resolveram descer pela garganta como pequenos goles de água gelada, daqueles que trincam os dentes. A gente sabia que não dava mais certo, no fundo, a gente sempre sabe. Faltou você me pedir pra ficar, me pedir pra lutar, faltou você querer um pouco mais. Amor, por si só, é barco furado; quando só um rema, rema em círculos.
Eu podia ver nos teus olhos que o que sentia por mim era apenas carinho. O teu amor, eu sei, era de outro alguém. E nem ao menos tenho coragem de culpar essa outra pessoa, porque talvez ela tenha te amado até mais do que eu. Amores de fora não derrubam relacionamentos sozinhos, eles apenas permitem que o que está frágil, caia.
E eu não sei viver de carinho, menino. Eu preciso da intensidade da paixão e do conforto do amor. Eu quero noites selvagens, mas também quero romance e jantares à luz de velas. Eu quero aquela única massa que você sabe fazer, aquele vinho que você guarda para ocasiões especiais. Eu quero o lado da tua cama assistindo à qualquer coisa na televisão sem falar nada, sem cobrar nada, segurando a minha mão. Eu quero aquele olhos nos olhos silencioso que diz tudo. Eu quero os beijos inesperados, eu quero a tua fome. Eu quero um eu te amo, não um coração via sms. Eu quero buquês de rosas brancas, porque você sabe que são as minhas preferidas. Eu quero conhecer Monte Verde. Quero estar com alguém que me faça sentir que o tempo pára e o mundo espera.
A verdade é que a gente tentou. E eu tenho a consciência tranquila. Eu dei tudo o que eu tinha de mim e você deu apenas o que podia. Por medo, por negligência, por falta, quem sabe. Você foi a maior ausência presente que eu já senti, você permitiu que todo o encanto escorresse pelos meus dedos.
Só quem está preparado para se expor e para doer consegue vivenciar a amplitude de uma história de amor. Só quem não exclui possibilidades consegue mergulhar nas melhores experiências. E o teu medo te cega. Ninguém vai te machucar mais que você mesmo, baby, essa é a grande verdade. Todo amor há de doer um pouco para ser amor.
Se eu pudesse te dar um conselho agora, pediria que abdicasse dessa tua mania de carinho pelas pessoas. Aprenda a amar de verdade, a se entregar, a doer, custe o que custar. Vá atrás de quem deixa teus sentimentos em carne viva, quem te tira o sono. A vida é muito curta para trancar amores na gaveta. E aprende: só existe crescimento quando se vivencia os dois lados da moeda.
Seja feliz. Mesmo.
Bang.
Estou preso aos barulhos desta tarde. A sala vazia, o café amargo, o vento entrando por baixo da porta. A tarde está perfeita assim. As nuvens cinzentas no céu têm a pressa e a testa franzida dos engravatados; Deus, faz tempo que não vejo nuvens sorrirem.
Começa a chover lá fora. Cada pingo na janela me ensurdece. A chuva me mói no seco da sala, chuva moída em mim. Gelada, ríspida, meu corpo treme e eu me encolho no canto, viro o rosto para a parede. Estiletes de água. A chuva me corta o pouco que sobra de prosa. O vento me confunde. Bang. Um pingo. Bang. Outro pingo. O papel em branco se desmancha em poça na mesa. Choro uma chuva moída que corta. E sangra. E é leve, é tão leve que tem o peso da minha humanidade. Bang. Bang.
