Bang.

Estou preso aos barulhos desta tarde. A sala vazia, o café amargo, o vento entrando por baixo da porta. A tarde está perfeita assim. As nuvens cinzentas no céu têm a pressa e a testa franzida dos engravatados; Deus, faz tempo que não vejo nuvens sorrirem.
Começa a chover lá fora. Cada pingo na janela me ensurdece. A chuva me mói no seco da sala, chuva moída em mim. Gelada, ríspida, meu corpo treme e eu me encolho no canto, viro o rosto para a parede. Estiletes de água. A chuva me corta o pouco que sobra de prosa. O vento me confunde. Bang. Um pingo. Bang. Outro pingo. O  papel em branco se desmancha em poça na mesa. Choro uma chuva moída que corta. E sangra. E é leve, é tão leve que tem o peso da minha humanidade. Bang. Bang.

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