Então vá, se quiser ir. Te dou mais uma chance para me esquecer, se apaixonar por alguém, se reapaixonar, quem sabe. Também tentarei fazer o mesmo, é hora de tocar a minha vida sem você. Quem fica, fica por vontade própria.
Te dou um tempo sem mim, me dou um tempo (doído) sem você. E quem sabe um dia você descubra se tudo isso te significou alguma coisa, se foi de verdade. A diferença entre a gente é que sei que ainda me lembrarei de ti em dez anos e talvez você esqueça meu nome. Porque não sei exatamente se pra você fui amor ou fogo de palha.
Então vá, não vou pedir pra ficar, não vou mais desejar que me peça para ficar. Não farei mais perguntas, engolirei um silêncio seco, feito bola de pelo na garganta. Porque é melhor assim, não é mesmo? Não.
Talvez você tenha razão, talvez eu tenha inventado um amor que só existiu dentro de mim. Talvez um dia eu olhe para trás e perceba o quão infantil eu fui, logo eu, sempre tão madura emocionalmente.
E eu te desejo algumas coisas. Que seja feliz, de verdade. Que um dia encontre alguém que consiga amar e que não te machuquem. Desejo coisas do passado também, como por exemplo, ter sido capaz de acelerar teu coração, de te dar nós na garganta, de te fazer sorrir sozinho antes de dormir. Desejo ter frequentado alguns sonhos seus e atormentado alguns pensamentos.
E desejo, acima de tudo, que se um dia quiser voltar, que venha de coração aberto. Que nunca esqueça o quanto te gosto. Que não tenha medo de me mandar uma mensagem no meio da noite dizendo que sente saudade, se sentir. Que não tenha receio de me bagunçar outra vez, se perceber que é de verdade. Você conhece meus caminhos, então venha, se quiser. E permita se perder em mim.
Eu já entendi teu silêncio, então pode ir tranquilo. Fica bem, eu também vou ficar, cedo ou tarde. E se ainda for importante para você, não me deixa te esquecer; se passar muito tempo, posso ter endurecido demais. Se nossos caminhos ainda estiverem cruzados, te vejo em breve, quem sabe. Se não, se cuida e me esqueça aos pouquinhos.E se permita amar um pouco mais.
Categoria: Crônicas, Contos & Ladainhas
A maior parte das minhas crônicas é fictícia. Quando for verdade, eu aviso!
Queria te contar algumas coisas.
Já faz tanto tempo. Quanto? Dois, três anos, talvez? Quem sabe três meses, não me lembro mais ao certo. Suas lembranças dentro das minhas pálpebras se apagam um pouco a cada dia. Como nessas fotografias velhas, você amarela em mim. Queria te contar algumas coisas, sobre como estou, o que tenho feito, queria te encontrar num barzinho na hora do almoço e te contar como foi meu dia. Eu tenho trabalhado tanto, sabe. A vida tá corrida, tá gostosa, batalhada. Os caminhos estão abertos, as coisas têm acontecido. Tenho feito algumas coisas interessantes nesses três-qualquer-coisa-de-tempo em que a gente não se fala. Entrei naquele curso de fotografia que te contei, escrevi demais nesses últimos meses, descobri um chocolate quente em Barcelona que você iria adorar. Tanto tempo e eu ainda te vejo como um fantasma, te fazendo presente em cada esquina. Te vejo em milhares de pernas pela janela do ônibus, seu sorriso ainda reflete na multidão e eu te procuro. Te procuro entre olhares, cabelos, perfumes, entre pernas e sapatos que você talvez usaria, e meu coração acelera por alguns segundos até meu cérebro perceber que não. Você não está ali, você não está aqui. Comigo.
Soube que você está bem, tá namorando outro cara, interessantinho, inteligentinho, bonitinho, alternativozinho. Imagino que seja um desses produtores de filmes publicitários, all star colorido, óculos geek, um monte de besteiras na boca, clichês românticos e bom de cama. Imagino, porque não quero pensar que talvez ele seja muito mais que isso. Soube que você está feliz e fico contente por isso, mas queria que fosse eu aquele que te faz feliz. Tá tudo dando certo aí na sua vida também, nossos rios separados parecem que fluem melhor.
É que penso em você ainda todos os dias, principalmente quando chove. E dói um pouco não saber como está, não te perguntar nada, não ouvir você me perguntando como foi o meu dia, como tá o meu pai, se já decidi tocar a minha vida e ser feliz sem você. E, cara, a vida corre, você sabe. Eu chego em casa morto do trabalho e ela está ali, linda, preparando um jantarzinho romântico numa quarta-feira à noite, abrindo uma garrafa de merlot pra gente. Ela me faz rir, ela é boa de cama, ela enche a minha vida de paz. Ela é meu porto. Talvez calmo demais pra quem tem coração que balança com o vento. Você, furacão. Você, que me tira o sossego da vida. E a verdade é que eu a amo demais, principalmente quando ela sorri e seus olhos se esticam no canto do rosto. Ela é a minha história, meu amor construído. Então me explica o por que de tudo isso? Por que ainda insisto na gente, por que me dói a sua ausência?
Tá chovendo lá fora e a água escorre pelo vidro do ônibus. Eu vejo você em flashes, lembranças quase apagadas de uma memória que teima em lutar contra o tempo. Vou encontrar uns amigos no boteco lá da esquina da Vidigal daqui a pouco, aquele que tem o seu bolinho de bacalhau preferido. Eu vou beber umas garrafas de cerveja e olhar o bolinho de bacalhau no cardápio. Vou me lembrar de você. E me perguntar como está, o que será que tem feito, quem te tira o sono, se teu coração acelera por alguém. Vou me perguntar se, quem sabe, ainda pensa em mim com amor, de vez em quando. Se pensa em mim quando vê alguém escrevendo em uma praça ou em um café. Se procura algum pedaço meu no meio da multidão. Queria saber de você, queria ouvir que sente a minha falta, que ainda gosta de mim do mesmo jeito e que tudo isso é apenas circunstância. Queria te dizer que acho que ainda te amo. Principalmente quando chove.
Divagações de Outono: folhas secas, assopra-me.
Não sei o que o Outono do hemisfério norte traz que me balança tanto. Me assopra. Eu mudo. Eu, muda. Nova. Feito planta madura que tem de se desfazer de pedaços que precisam de atenção demais, secos, quase mortos. Preciso deixar o que não é vivo ir embora. Preciso concentrar a energia no que recicla, cicla, dá frutos.
Outono é hora de balançar a si mesmo e deixar as folhas secas caírem. E esperar que um dia essas mesmas folhas secas me adubem e me alimentem mais uma vez, pois elas já são minha parte, vida, amor e dor, sorriso e lágrima que já não vingam. Esperança de.
E ah, a natureza. Nada mais sábio nessa vida do que essa força invisível que a gente vê todos os dias. O Outono traz consigo os ventos fortes, como se soubesse que sozinhas, as árvores não têm força para desgarrar. Limpa, eu ajudo. Venta, assopra forte todas as minhas folhas. Secas, caem, não deixa cair , por favor, não deixa, mas está por um fio, morto, eu assopro, vai, pronto, não doeu.
A vida tem me dado muitas oportunidades de ser feliz. Eu só preciso me desgarrar de um passado/presente/futuro que nem sei se existe. Existe? Só vejo folhas secas. E não posso mais sustentá-las sem me perder, sem me doer no ardido dessa secura. Corre seiva daqui de dentro, alimenta o que é verde e brota, e brota. Ainda que do adubo, um dia, quem sabe.
Vem, vento, me chacoalha, assopra minhas folhas secas, me ajuda, pois só já não sei mais soltar e tenho medo de me perder no seu escuro.
Fecha o mundo dentro de mim
E deita no meu colo.
Pega na minha mão. Me diz meia dúzia de besteira só pra me fazer rir depois de um dia longo.
Me manda mensagens bobas à tarde só pra lembrar que me ama, que pensa em mim, diz que tem uma surpresa pra esta noite.
E me abre a porta com o maior sorriso de todos.
Fecha o mundo só pra gente, quando me congela dentro dos seus olhos de esquilo. Fecha o mundo dentro de mim, quando me resgata entre seus braços longos com sono. Fecha o mundo dentro de mim.
Foda-se, fica
A cabeça grita foda-se, o coração grita fica. E se me permite dizer alguma coisa sobre isso, escuta, o coração é o que te faz humano. A cabeça só te faz máquina.
E máquinas não sentem, e por isso também não dóem. Foda-se.
Corações são burros e têm transtorno de déficit de atenção. Disléxicos. Fica.
Corações não aprendem nunca. Fica.
Cabeças só te permitem uma escolha. Foda-se.
Mas não use meus conselhos, ouça apenas o grito que sai mais forte. É o que chamo de linha tênue do orgulho; amor próprio.
Buraco
Preciso muito descobrir que buraco é esse que você preenche na minha vida. Porque não pode ser tudo isso amor. Há de ser um buraco. Um vazio não preenchido, um lugar frio dentro de mim.
Um buraco que você inunda quando vem. E me transborda, buraco cheio. Será isso o que chamam de amor?
Dessa falta que você me faz.Queria que tudo isso fosse importante pra você. Queria que tivesse medo de me perder.
Do seu jeito
Então que seja do seu jeito. Longe, frio, seco, sem emoção nenhuma. Morto. Engavetado em uma esquina qualquer, como um livro empoeirado na sua estante. Agora tanto faz. Quando o coração cicatriza grosso, quase não dói.
O amor tem muitas formas de morrer, mas a pior delas é ter que matá-lo.
Amor é água que flui
Se eu pudesse escolher, escolheria nunca ter te amado. Ainda que isso significasse uma vida toda sem seus sorrisos, seu olhar dentro do meu, ainda que passasse todos os dias sem seu beijo. Que se danem as palavras jogadas ao vento, essas promessas de amor mal elaboradas, que se dane o soco no estômago a cada meia dúzia de palavras clichês, tiradas meticulosamente de um manual profissional.
You take me for granted, babe. Você não sabe me amar, você não me deixa te amar. Não pense que estarei para sempre do seu outro lado; da linha, da cama, da história. O que não dá retorno não vale a pena. Amor é água que flui, quando bate em muro de pedra, transborda. Sufoca. Afoga. E eu já não tenho mais saco para remar contra a maré. Ainda que isso signifique um futuro todo sem seus sorrisos, seu olhar dentro do meu, ainda que passe todos os dias sem seu beijo. Cuida da gente, só um pouquinho. Não perde. Quebra essa parede de pedra e deixa a gente fluir de novo. Calmo, amor tranquilo, barquinho na correnteza.
Seus silêncios me congelam. Sua falta de interesse tem gosto de faca afiada dentro do meu avesso.
