Queria te contar algumas coisas.

Já faz tanto tempo. Quanto? Dois, três anos, talvez? Quem sabe três meses, não me lembro mais ao certo. Suas lembranças dentro das minhas pálpebras se apagam um pouco a cada dia. Como nessas fotografias velhas, você amarela em mim. Queria te contar algumas coisas, sobre como estou, o que tenho feito, queria te encontrar num barzinho na hora do almoço e te contar como foi meu dia. Eu tenho trabalhado tanto, sabe. A vida tá corrida, tá gostosa, batalhada. Os caminhos estão abertos, as coisas têm acontecido. Tenho feito algumas coisas interessantes nesses três-qualquer-coisa-de-tempo em que a gente não se fala. Entrei naquele curso de fotografia que te contei, escrevi demais nesses últimos meses, descobri um chocolate quente em Barcelona que você iria adorar. Tanto tempo e eu ainda te vejo como um fantasma, te fazendo presente em cada esquina. Te vejo em milhares de pernas pela janela do ônibus, seu sorriso ainda reflete na multidão e eu te procuro. Te procuro entre olhares, cabelos, perfumes, entre pernas e sapatos que você talvez usaria, e meu coração acelera por alguns segundos até meu cérebro perceber que não. Você não está ali, você não está aqui. Comigo.
Soube que você está bem, tá namorando outro cara, interessantinho, inteligentinho, bonitinho, alternativozinho. Imagino que seja um desses produtores de filmes publicitários, all star colorido, óculos geek, um monte de besteiras na boca, clichês românticos e bom de cama. Imagino, porque não quero pensar que talvez ele seja muito mais que isso. Soube que você está feliz e fico contente por isso, mas queria que fosse  eu aquele que te faz feliz. Tá tudo dando certo aí na sua vida também, nossos rios separados parecem que fluem melhor.
É que penso em você ainda todos os dias, principalmente quando chove. E dói um pouco não saber como está, não te perguntar nada, não ouvir você me perguntando como foi o meu dia, como tá o meu pai, se já decidi tocar a minha vida e ser feliz sem você. E, cara, a vida corre, você sabe. Eu chego em casa morto do trabalho e ela está ali, linda, preparando um jantarzinho romântico numa quarta-feira à noite, abrindo uma garrafa de merlot pra gente. Ela me faz rir, ela é boa de cama, ela enche a minha vida de paz. Ela é meu porto. Talvez calmo demais pra quem tem coração que balança com o vento. Você, furacão. Você, que me tira o sossego da vida. E a verdade é que eu a amo demais, principalmente quando ela sorri e seus olhos se esticam no canto do rosto. Ela é a minha história, meu amor construído. Então me explica o por que de tudo isso? Por que ainda insisto na gente, por que me dói a sua ausência?
Tá chovendo lá fora e a água escorre pelo vidro do ônibus. Eu vejo você em flashes, lembranças quase apagadas de uma memória que teima em lutar contra o tempo. Vou encontrar uns amigos no boteco lá da esquina da Vidigal daqui a pouco, aquele que tem o seu bolinho de bacalhau preferido. Eu vou beber umas garrafas de cerveja e olhar o bolinho de bacalhau no cardápio. Vou me lembrar de você. E me perguntar como está, o que será que tem feito, quem te tira o sono, se teu coração acelera por alguém. Vou me perguntar se, quem sabe, ainda pensa em mim com amor, de vez em quando. Se pensa em mim quando vê alguém escrevendo em uma praça ou em um café. Se procura algum pedaço meu no meio da multidão. Queria saber de você, queria ouvir que sente a minha falta, que ainda gosta de mim do mesmo jeito e que tudo isso é apenas circunstância. Queria te dizer que acho que ainda te amo. Principalmente quando chove.

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3 comentários sobre “Queria te contar algumas coisas.

  1. Brunno Lopez disse:

    Quem olha daqui consegue perceber o album de fotos que você coloca usando as palavras e as descrições do cotidiano enlevada por sentimentos adormecidos – ou nem tanto.
    Eu vejo que todos temos esses apostos quando tratamos de descrever emoções e relacionamentos. Existe a paz celestial, o amor que dá calma e existe a chuva ácida, o outro amor que é grito, que é loucura, devastação.
    Não se pode escolher por intensidade, apenas por ocasião e oportunidade. Escolhemos a paz pois ela é suave após a guerra. Mas o outro amor é o que nos impulsiona a sorrir no campo de batalha e comemorar vitórias inesperadas.

    Fabuloso. Principalmente quando chove.

  2. Priscila Fortuna (@Prifort) disse:

    Olha Mi, em minha humildezinha opinião, faz tempo que seus textos não tinham um sabor. Esses flashes, ou “álbum de fotos” do comentário acima, que faz o leitor do lado de cá sentir o cheio de café, o vento na praça, o barulho simples de água na janela. Acho que um texto assim foi um recentemente publicado por você, mas escrito ainda nos seus 18 anos (acho que é isso).
    Acredito, no entanto, que para sentir todo o texto é necessário que o lado de cá também esteja apto para rebebê-lo.. Enfim, não consigo definir em palavras =( Mas parabéns mesmo meeeesmo pelo dom de nos rechear com um texto desses! Beijo!

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