Está tudo lá 

Esta tarde choveu. Começou mansinho e o céu foi escurecendo devagar. Uma velha lembrança de tarde chuvosa me molhou os olhos.O sofá dos meus avós, as tardes assistindo ao Sítio do Pica Pau Amarelo, o bolinho de chuva. Fecho os olhos, sinto tudo, o gosto da canela, o cheiro de açúcar, a voz da Dona Benta, a textura do veludo do sofá, a silhueta da minha avó, os pequenos barulhos. 

Sinto tudo. E respiro fundo com uma esperança quase infantil de reviver tudo em mim. Fecha os olhos, tenta. Está tudo lá ainda. Os quadros pintados pela sua mãe, o pote de amendoins japoneses do vovô, o Odissey embaixo da televisão. Respira mais fundo, sente o cheiro das cortinas. As pontas dos dedos correm os batentes das portas, as maçanetas, os azulejos da cozinha. Está tudo lá. Os remédios da vovó, embalados em pacotinhos, a bandeja com café fresco na garrafa térmica, o pote de cerâmica de açúcar e o adoçante líquido. Está tudo lá. O calendário na parede, perto do relógio, a pequena pia de lavatório, o filtro de barro no canto da cozinha, os vitrôs semi abertos. Estão todos lá. As xícaras de vidro alaranjadas, os pratos decorados, o armário de panelas, os potes azuis com tampas brancas de feijão, arroz e açúcar. Aperta os olhos e lembra mais. Lembra a toalha da mesa, a bacia de louça e o vaso de flores artificiais. Lembra o forninho cheio de batata doce assada, lembra o cheiro do pinhão. O telefone, 2116012, trim, trim, tenta discar. O armário embutido e a manteiga em lata. Lembra a mania de colocar a tábua na porta pra evitar ladrão. Lembra a porta telada antes da porta de madeira, abre o trinco. Inspira o cheiro de naftalina do quartinho, o cheiro de livro velho misturado com veneno de baratas. Inspira o cheiro metálico da oficina do vovô, o churrasco de espetinho, sente o banho de mangueira no quintal. Sobe no telhado, esfrega a folha de manjericão nas mãos. Debruça no muro, tem pitanga. Sente o cheiro dos pêssegos na pessegueira do vizinho. Inspira a textura da rosa nos dedos, a polenta fresca no forno. Está tudo lá. 
Em algum lugar, a casa ainda existe e seus detalhes ainda são vivos. Em algum lugar, a vovó ainda anda pela cozinha, o vovô dorme depois do almoço e a Dona Benta dá conselhos pra Narizinho. Em algum lugar ainda chove fininho e tem o sofá de veludo e cheiro de canela. 
A vida é cruel com o que um dia foi tão a nossa essência, mas se a gente apertar bem os olhos molhados, ainda está tudo lá. Está tudo lá.

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Um comentário sobre “Está tudo lá 

  1. fjunior disse:

    Fim de semana passado fui para festa de aniversário de um amigo que eu não via há uns 17 anos, aliás, eu não visitava a casa dele (e dos irmãos) há uns 17 anos. Fomos vizinhos até os meus 10 anos de idade. Eu fui embora e eles ficaram. Perderam primeiro a mãe e anos mais tarde o pai, ficando apenas os três irmãos, sempre unidos. Durante minha adolescência sempre aparecia por lá no verão ou coisa que o valha. Depois a vida leva a gente por mil caminhos e acabei me distanciando.

    Voltar lá, na mesma rua, na mesma casa, a deles não mudou quase nada, foi muito estranho, engraçado, parecia uma viagem no tempo. Como se eu tivesse ainda em 1998 (ou em 1988) e de repente saltasse uns 17 anos (ou 27) para frente. Quase tudo estava no mesmo lugar, porém, hoje eles estão casados, dois ainda moram no mesmo lugar, logo, a casa estava cheia de pessoas estranhas, no caso, os filhos – que de alguma maneira lembra a nossa infância. Pessoas que eu não vi surgindo, que eu não vi nascendo, crescendo, se apropriando da casa, do mundo ao redor. Pessoas que existiam há algum tempo num universo paralelo quase que desconhecido pra mim.

    O povo da física diz que existe a possibilidade de existirem inúmeros universos paralelos. De alguma maneira, a vida que a gente não escolheu viver, o caminho que a gente deixou de seguir, tá em algum universo paralelo, tá se desenrolando em alguma possibilidade. Quiçá o tempo não seja esse desdobramento contínuo, linear, mas seja “tudo ao mesmo tempo agora”, sem passado, presente e futuro.

    Além disso, as coisas que nos experimentamos, o mundo que fotografamos um dia, seja com os olhos ou através da sensações provadas existem em nós, na nossa memória, no nosso DNA.

    Às vezes, penso que as sensações de déjà vu tenha a ver com isso, com o nosso DNA. Ou como propunha Shakespeare, a única maneira de a gente vencer a morte, o tempo, é através da prole. De alguma maneira, em você, “vovó ainda anda pela cozinha e o vovô dorme depois do almoço” e basta apertar os olhos para ter certeza disso.

    P.S.: acho que me empolguei no comentário, desculpe-me!

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