Vício

Ela não sabia o que via nele, e pensou isso quatro vezes enquanto rodava o indicador na beira da taça de vinho, enquanto ele falava qualquer coisa sobre algum diretor de cinema russo de quem ela nunca ouviu falar.
Não sabia mais contar quantos desses jantares já tinham passado, entre os beijos e os orgasmos, e ainda não entendia o porque ele era tão viciante. É um vício, pensou, e eu sou tão fraca pra vícios.
Nem era tão bonito, até tinha um certo charme, mas não fazia seu tipo, nunca fez nenhum dos seus tipos. Usava umas roupas esquisitas, andava de moto, morava num apê alugado em Osasco, mal tinha grana pra pagar o cinema. E ela ouvia sobre Che Guevara e, caramba, é como um desses meninos que cruzam a nossa vida no colegial, cheios de ideais, filiados à UNE, querendo salvar o mundo de bicicleta, sabe? A diferença é que aos dezesseis anos estava rodeada de revolucionariozinhos cultos e interessantes, e nunca teve nada com eles. Mas porra, agora com trinta, Natália!
O que será que acontece aos trinta que dá vontade de realizar todos aqueles desejos presos de adolescente?, pensou.
Ele falava com propriedade, ela se encantava com cada palavra que ia de Oscar Wilde à Max Weber, de música underground, de rock independente. Assistiam à um monte de filmes cabeça, frequentavam a Sala Unibanco. Ele lia Nietzche pra ela e analisava a evolução de baroque pop, de Fiona Apple à Beatles, enquanto fumavam um béque.
E ah, ele era muito bom de cama, e isso soava como uma desculpa no fundo do cérebro dela pra que insistisse em toda essa aventura. Socialista? Queria um pedaço dele pra ela. Um pedaço desses improdutivos, ou produtivos mesmo, ninguém precisava saber. Ele lhe dava vontade de colocar um vestido comprido, uma faixa na cabeça e cruzar a Argentina de moto, vento no rosto, cabelo embaraçado. E fazer sexo no meio do deserto do Atacama, mas daí teriam que ir pro Chile, mas tudo bem. E então fumariam maconha e falariam de Bukowski e trepariam até nascer o sol.
Só que ele era um desses meninos feitos pro mundo, sabe? Não conseguia assumir um compromisso, ter um relacionamento sério desses de mudar o status no Facebook. Ele não queria, ele era livre. E ela só queria que ele lhe pedisse em casamento e assim viveria viciada pra sempre. Menina fraca que ela era.
E você até pode estar pensando, o que foi que ele viu nela? Bem, a Natália era menina de classe média alta, burguesinha, criada em escola particular. Tinha viajado o mundo sozinha, era culta e falava três línguas. Tinha um monte de mania que ele odiava, mas tinha o sorriso mais lindo do mundo. Ela era bonita, corajosa, inteligente. E era boa de cama. Ela lhe fazia rir, ela era colorida. Ela era cor na escala de cinza dele. E ela tinha esse quê de vício nele que, nofundonofundo, era o que mais o atraía. Ele ser o vício de alguém como ela.
E passaram-se uns meses e eles continuavam fazendo tudo isso, mas não foram pro Chile, nem pra Argentina. E um dia ele sumiu. Ela ouviu dizer que arrumou uma namorada tatuada que sabia o que era Blood Red Shoes, não se depilava e acreditava no Comunismo. E sabia timtimportimtim a história de vida de Lenin. E não comia carne. E ah, também devia ser boa de cama e discutir sobre tipos de cerveja do Mercosul. É, vai ver que tinham sido feitos um pro outro. Vai ver que cruzariam os Andes de bicicleta, pregando o ateísmo. Vai ver que trepariam até o sol nascer no deserto do Atacama. Vai ver.
E Natália o esqueceu por fora, mas não por dentro. Achou que nunca mais fosse conseguir tirá-lo do fundo do peito, porque ele era a liberdade dela, ele era o que ela tinha de mais bruto dentro dela, ele era ela sem lapidações.
Até que um dia Natália se casou com um menino de classe alta, advogado, que andava de terno todo dia, já tinha viajado o mundo todo a trabalho, tomava LSD e frequentava raves.
E  ela soube que Ele ainda estava com a revolucionariazinha tatuada, nunca tinham se casado, eram assim: adeptos do amor livre. Mas ele também a esqueceu por fora, e não por dentro. 
Depois de tantos anos, Natália recebeu um email dele, numa tarde de terça-feira chuvosa. Você. Ainda. E isso foi o suficiente pra acalmar aquela adolescente dentro dela. Era simples, não precisava de explicação, não tinha saída: eles eram viciados um no outro, sem culpa. E isso bastava.

What I want is to be needed. What I need is to be indispensable to somebody. Who I need is somebody that will eat up all my free time, my ego, my attention. Somebody addicted to me. A mutual addiction.

Chuck Palahniuk

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