A menina do francês

Ele se chamava Marcos. Me lembro dele como um moço fino, de classe, de família. Educado, alto e muito bonito. Diziam que na faculdade era muito popular, sempre chegava com uma porção de meninas penduradas. Todas queriam seus lábios, seu corpo, seu dinheiro. Não era sempre que aparecia moço tão bonito e tão bem de vida.
Eu sei que ele trabalhava ali por perto e sempre frequentava aquele café. Perto das cinco da tarde ele pedia um café latte e um muffin de chocolate. Eu também frequentava aquele café e o via todas as tardes. Com uma penca de mulheres vestidas de tailler penduradas no seu pescoço, todas querendo um pedaço dele, um pouco de atenção. Ele parecia gostar da fama, mas pra ser bem sincero nunca o vi acompanhado. Logicamente deve ter tido muitas mulheres, eu é que nunca vi.
Mas eu lembro direitinho o dia que aquela menina entrou no café. Ela se sentou sozinha na mesa, pediu um chocolate quente. Tirou o sobretudo e o ajeitou na cadeira, fazia muito frio naquele começo de noite. Ela tirou um livro da bolsa, um lápis e começou a ler. Lembro que consegui decifrar o título do livro, era um livro de francês. Acho que ela estava estudando porque treinava a pronúncia num silêncio desses de oração, e bem dava pra ver o biquinho que ela fazia.
A menina não tinha muito que me chamasse a atenção. Era um pouco acima do peso, bem vestida, tinha o rosto muito bonito, mas naquela calmaria e solidão nem se destacava. Ela se incomodava com a dobrinha da barriga e puxava a blusa para baixo a todo o tempo. E acho que tinha um pouco de vergonha também pois mantinha a bolsa no colo. Ela era comum, usava um rabo-de-cavalo que prendia seus cabelos castanhos e lhe mostrava mais as feições. Feições de menina fina. Naquele momento ela estava de óculos, um óculos vermelho de moldura quadrada que até combinava com ela, mas lhe dava um ar acadêmico demais pro meu gosto.
Eu sei que ela me chamou a atenção, mas não foi por ela. Foi por ele. Eu vi os olhos do Marcos se voltarem para ela assim que ela entrou. Ele parou de conversar com as outras mulheres e seus olhos até pareciam brilhar um pouco mais. Não entendi exatamente o que acontecia, todas aquelas mulheres esculturais, extrovertidas em volta dele e ele olhando para a acadêmica gordinha? Não era coisa que eu esperasse do Marcos, não pelo que eu escutava dele.
Voltei meus olhos para ela e tentei desvendá-la. Ela me parecia tímida, mas ao mesmo tempo um pouco confiante. Nem ao menos percebeu que o Marcos, aquele cara tão boa pinta, estava vidrado nela. Ela continuava fazendo biquinhos e tentando falar francês.
Por um momento, eu me apaixonei por ela. Comecei a percorrer a sua beleza com meus olhos e analisei cada centímetro daquela mediocridade feminina. Tão comum, tão simples e tão bela. Como dessas margaridas, ervas daninhas que a gente vê a toda hora e não presta atenção. E quando pára para olhar percebe a magnitude da beleza das pétalas, uma sobre a outra, o contraste do branco com o amarelo, a majestade do caule fino que eleva uma cama de flor. Sim, ela era bonita a menina. No meio de toda aquele disfarce, ela era linda.
E o Marcos também deveria estar enfeitiçado, continuava olhando. Mas então ela fechou o livro, bebeu o chocolate quente e começou a guardar as coisas de um jeito como se fosse embora. Marcos ficou meio atordoado, pediu a conta e hesitou em falar com ela. Deu pra ver que ele queria se levantar e ir até lá, e a menina até demorou um pouco pra sair, mesmo sem saber o que acontecia a sua volta.
Ele se levantou, pagou a conta, pegou suas coisas e caminhou na direção dela. Pensei, agora é a hora. Não, ele passou reto, continuou olhando, mas simplesmente passou. E se foi.
E a menina, sem saber de nada, foi embora também.
Eu nunca mais a vi, em todas as tardes de café. O Marcos eu sempre vejo e sinto que ele sempre procura por ela. A toda hora o pego olhando pra porta, até está pensando em estudar francês, me disseram. Eu acho que no fundo ele teve um pouco de vergonha. Não dela, mas por ela. Vergonha por ela não ser o troféu que a sociedade esperava de um rapaz como ele, não era moça para ele, alguns diziam.
Eu ainda acho que a menina do francês era perfeita para ele. E tenho certeza de que o sentimento que despertou naquele moço era diferente de muitos outros. Eu disse que conhecia o Marcos há tempos. Talvez ela fosse a pessoa certa na hora errada. Eu prefiro acreditar que aquilo era uma oportunidade… uma oportunidade de ele ser feliz de repente com alguém um pouco mais humano do que as mulheres plásticas a sua volta. Mas as oportunidades são como trens. Passam. Às vezes até voltam… mas raramente trazem as mesmas pessoas.

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4 comentários sobre “A menina do francês

  1. Daniela Gomes disse:

    Esses textos que as vezes você posta são seus? Achou o dente de alho? ehehehe O caminho dos pocotos foi uma brincadeira minha e do meu namorado durante nossa primeira viagem juntos, bobeira, mas não encontrei outro nome pro blog 🙂 Beijinhos

  2. Delma disse:

    OI Mi

    Linda a crônica, vc escreve maravilhosamente bem…devia escrever um livro – falando sério!
    Sabia que eu me identifiquei bastante com a história??
    beijinhos e parabéns, vc é muito talentosa…
    Delma

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