Ela

Ele estava sentado perto da lareira. Tinha uma xícara de café na mão e mais nada. Sim, não tinha mais nada. Sentou-se perto da lareira porque fazia muito frio naquele começo de noite e o aquecimento já não funcionava como antes.
Desde que sua esposa faleceu, não fazia mais sentido nada naquele mundo. Ele apenas esperava o dia e o momento de encontrá-la. Não havia mais porque ficar ali. Não tinham filhos, muito menos os netos que ele sempre quis ter. Foi uma decisão dos dois quando descobriram que ela era infértil. Não quiseram adotar.
A única criatura que fazia companhia para ele era Mister, o gato. O mesmo gato que ela tanto amava e cuidava. Era o que lhe mantinha ali, perto da lareira.
A televisão ele já não ligava mais, já não interessava o que acontecia pelo mundo. Com oitenta e nove anos, onde iria? A lugar nenhum que sua esposa não estivesse. Para que saber o que acontecia na China… nada mais importava.
Naquela manhã fria ele sentiu algo diferente. Um pouco mais de disposição, uma alegria repentina que não batia há quatro anos, desde quando ela estava viva. Passou o dia arrumando suas poucas coisas, escreveu uma carta. Não era endereçada a ninguém, apenas contava como tinha sido feliz em oitenta e cinco anos e tão triste em apenas quatro. Contava do arrependimento de não ter tido filhos e da falta que fazia algum rosto conhecido num dia desses, de lareira. O cheiro do bolo no forno, como ele sentia falta. E as manhãs de caminhadas no parque, a primavera na Inglaterra, as viagens para o sul da Espanha. Dizia que até do trabalho como operador de máquinas sentia saudade.
Depois de escrever a carta, dobrou o papel e deixou em cima da mesa. Colocou uma cópia da chave da porta da frente em um envelope e posicionou estrategicamente na caixa de correio da vizinha. Tinha muito medo de que lhe acontecesse algo e ficasse ali, sozinho, ele e o gato. O gato precisaria de ajuda. Encheu-lhe o pote de comida e colocou mais um de água.
Fez seu café e sentou-se à lareira. Lembrou de todos os momentos felizes que já passaram. De como era lindo o seu sorriso quando ela acordava, aos trinta e poucos anos, depois de se casarem. Lembrou-se com saudade do dia do casamento, seus pais, sua irmã, seus primos, os amigos. Ninguém mais estava presente hoje. Lembrou-se então dela vestida de noiva, doce, com flores nos cabelos longos e castanhos. Os olhos pintados, mais brilhantes e claros do que nunca. O corpo esculpido por camadas de crepe de seda. O bolo de três andares, com recheio de abacaxi. A lua de mel em Barbados, a cor do mar caribenho. O jeito que ela lhe olhava ao acordar e levantava da cama às cinco e meia para lhe preparar o café. As coisas que só ela sabia fazer quando ele adoecia. E então lembrou-se de como ela ficou linda quando os cabelos começaram a ficar grisalhos, e as rugas apareciam em volta dos lábios e dos olhos. Era impressionante, as coisas mudavam, mas aquele olhar que lhe conhecia por completo continuava igual, com a mesma doçura, a mesma sabedoria. Pensou em suas mãos, ora macias, ora judiadas pelo sabão de côco. Queria suas mãos de novo. Depois veio o câncer, que judiou tanto dela. Justo ela que só merecia o que tinha de mais puro e bom desse mundo. E ela enfrentou tudo como um leão. Meu Deus, como sentia falta. Até do dia em que encontraram Mister pequenininho do lado de fora. E da alegria que ela sentia com o gato.
Ele então colocou sua xícara de lado. Chamou Mister para o seu colo e disse, você também quer vê-la, não quer? Mister aconchegou-se em seu colo cansado, cobriram-se com uma manta e ficaram, à beira da lareira.
Ele fechou os olhos, esperando que ela viesse buscá-los. E assim esperou. Não sabia se poderia fazer isso acontecer. Não sabia o que iria acontecer. Mas esperou. Ele só queria ir para onde todos que ele amava estavam, ele queria ir para casa. Ele não tinha mais nada.

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