E um pouco de samba rock em altos decibéis e passou como um assopro de machucado. Tô pronta pra ir pro parque. Aí sabe o que aconteceu? Choveu. Chove.
Não sei quem anda mais indeciso, se sou eu ou Deus.
La Solitudine
Abri os olhos às cinco e meia da manhã, acordada por um trovão que entrou pela janela. Voltei a dormir até o despertador do marido tocar, quinze minutos depois. Ele se foi e eu fiquei, estirada na cama como carne de sol. Fiquei e fiquei e fiquei. Imaginando que a chuva lá fora cairia por mais um dia inteiro e o meu pequeno apartamento seria minha caverna de novo. Mais um dia.
Abri os olhos às dez e meia da manhã com o barulho da minha amiga, vizinha de cima. Mandou um sms, disse que tá trocando de sofá. Pensei, será que chove ainda? Um pedaço de mim queria que chovesse, outro queria que fizesse sol. Outro não tava nem aí. Fazia sol.
Já é meio dia e eu ainda não fiz nada a não ser um suco de couve com laranja. Mas não lavei a louça, ainda nem arrumei a cama. Ontem, nesse horário, eu ouvia Madonna em alto e bom som enquanto cantarolava Holiday e arrumava a casa. Ontem, nesse horário eu estava a caminho da academia, feliz por nada. Sorri pra passarinho e flor e dei oi pro gato de pata branca.
Ontem eu fiz cheesecake de framboesas frescas, salmão grelhado com gengibre e chilli, batatas assadas com alecrim do Jamie Oliver e mais suco de couve.
Meus planos hoje eram andar no parque que descobri aqui perto de casa. Ir na academia com uma amiga à noite, mas ainda espero a resposta da amiga. Acho que vou lutar contra um eu interior e ir pro parque. Vou arrumar a cama e lavar a louça.
Um outro eu interior grita. Diz “que saco, sozinha de novo!”. “Que saco, meio dia e você ainda não abriu a boca pra falar um A pra ninguém”. Muda por conta própria. Tagarela emudecida.
Tô cansada de fazer coisas sozinhas. Tô cansada de passar o dia todo sem falar com ninguém. Quero trabalho, ninguém me dá. Quero dinheiro, ninguém me dá. Quero amigos, ninguém me dá.
Passo o dia fazendo coisas sozinha, tentando ser social na academia, no supermercado. Mal respondem meus ois, será que sou quase invisível?
Espero o dia todo o marido chegar. Quando ele chega, a gente nem se dá conta, quando vê já é hora de começar a se arrumar pra dormir. As sete horas que ele passa em casa voam em proporção geométrica. As outras sete, oito, sabe-se lá quantas que eu passo sozinha, penam pra passar.
Às vezes é bom ficar sozinha. Mas é que hoje me enchi por completo de mim mesma. Amanhã passa.
La solitudine fra noi,
Questo silenzio dentro me
E l’inquietudine di vivere
Papo das dez da noite
Há alguns minutos, na cozinha, eu digo pro marido:
– Babe, tem um inseto verde na parede.
(Babe dá um peteleco e deixa o bicho no mesmo recinto, em outro lugar).
– Você matou?
– Não.
– Então tira…
– Por que você não pega? É só um bichinho verde…
– Porque da última vez que eu peguei um bicho verde ele voou pro meu cabelo e soltou um cheiro de repolho que nunca mais esqueci.
– Hahahahaha.
– A gente chama de “Stinky Mary”.
– Só você pra ter um bicho no cabelo chamado Stinky Mary…
– Não ri, não… o cheiro não saiu nem depois do banho!
– Hahahaha…
– E já tive morcego e macaco no cabelo também….
– What???
A conversa rendeu.
Se a vida fosse perfeita
Se a vida fosse perfeita, você teria comemorado ontem seus sessenta e seis anos ao lado da gente. Teria me dito que não queria que eu morasse longe, que estudasse Direito, que não parasse de escrever.
Se a vida fosse perfeita, você acordaria tarde nesta manhã de sábado e tomaria café com a gente na padaria. Eu faria macarrão com brócolis e alho para o almoço, porque soube que você gostava. Quem sabe a casa estivesse cheia, com muitas histórias, risadas, queijos e vinhos. E eu estaria ao seu lado brindando sem o nó na garganta que me dá agora.
Eu compararia minhas mãos com as tuas, tão iguais, mas que eu só posso comparar por fotos. Eu me veria em você ao invés de ouvir dos outros o quanto somos parecidos.
Se a vida fosse perfeita, você ficaria tão orgulhoso de nós! De quando entramos na faculdade, de quando moramos fora do país e nos viramos muito bem. Teria o coração na mão nos dias das nossas formaturas.
Se nada tivesse mudado, você seria meu Papai Noel, meu super herói, meu melhor amigo. E eu nunca inventaria estórias na escola de que você estava apenas viajando. Seriam para você os meus presentes do segundo domingo de Agosto, e este dia talvez não fosse tão desconfortável assim.
Eu sei que me daria bons conselhos e um colo para os momentos difíceis. Eu sei que estaria com o coração na mão naquele meu “sim” em um três de Março. E que choraria, diria pra todo mundo o quanto estava orgulhoso e pediria que me cuidasse bem.
Se a vida fosse perfeita, você esperaria ansioso pelos meus trinta anos. Me contaria histórias da minha infância, coisas que eu não consigo lembrar. Contaria-me as tuas histórias. Que eu só conheço através de outras bocas.
E quando eu achasse teus textos e poemas perdidos em alguma caixa, correria para te mostrar. A gente daria muita risada, que substituiríam as lágrimas que acompanham teus papéis. E você então não seria apenas lembrança. Não seria apenas a foto três por quatro que eu carrego na minha carteira.
Se a vida fosse perfeita, pai, aquela pinta nunca teria existido. Não teria mudado todo um destino. E você não se culparia por ter de deixar a mulher que amava e seus dois bebês. Não se frustaria tanto e entenderia, pai, que a vida não é perfeita.
Sei que onde quer que esteja, está lendo esse texto agora. E talvez teu coração, tão puro e em uma paz tão incondicional, saiba como evitar as lágrimas que despencam no meu rosto. Não, você não teria lágrimas. Teria apenas amor e saudade.
Se a vida fosse perfeita, pai, eu também teria apenas amor e saudade. Mas eu ainda faço parte deste plano onde o coração dói e o egoísmo humano me faz querer puxar você da minha foto e começar tudo de novo. Tenho tanta coisa pra dizer, mas as lágrimas me sufocam. Sei que olha por nós, meu Anjo Maior. Sinto-te em mim todos os dias.

Finalmente…
… gente com um pouco de bom senso no Brasil.
Cliquem AQUI.
O Teatro Mágico
Alguém aí já ouviu “O Teatro Mágico”? Eu conhecia por nome, até que minha irmã me fez ouvir…. é tão bom!!! São músicas deliciosas, cheias de poesia, muito diferente do que se vê por aí! Eu estou apaixonada!
Uma das minhas músicas preferidas é “Cuida de mim”. Coloquei um video meio tosco do youtube pra vocês, mas ouçam a música. E se quiserem, naveguem pelas músicas deles… cada uma tem frases que você até pára de respirar.
Momento ocioso
Eu tô louca pra preencher meu ócio de criatividade. E estou esperando ansiosamente o marido tirar o violão espanhol do sótão da casa do pai pra eu testar uns acordes. Sempre tive vontade de tocar violão, é muito mais prático do que piano!! E eu posso levar onde quiser, fazer lual na praia (cof, cof… muda pra Austrália, amiga!), cantar MPB! Enfim, algo pra espantar os males… espero que ele traga logo pra casa!
Além disso tenho tentado escrever um pouco mais, mas minha imaginação anda meio bloqueada. Queria sentar na Starbucks e escrever um Harry Potter. Mas não consigo me desviar do fato de que quero um emprego logo, então no meio do caos imaginário a realidade vem e estraga tudo! Talvez por isso minha fase mais criativa tenha sido minha adolescência… falta de problemas, mente livre!!! Quem sabe mais alguns dias de tentativas rendam alguma coisa mais séria!
Sinto falta do meu carro. Das aulas de dança. Do Parque Villa Lobos. Falta de ter o que fazer, mesmo quando não se tem muito planejamento. Aqui a cidade é pequena, não tem muita opção, não dá pra ir no centro (entenda-se pela High Street unicamente) toda hora. Fora que tem chovido todo santo dia, em doses homeopáticas. Faz duas horas que tento sair de casa pra ir à academia. Quando pego a bolsa, pronto, água na janela. Meu guarda-chuva quebrou no último “chuvento”, não vou arriscar um “não sou de açúcar” depois da bela gripe… Chove cinco minutos, pára por dois, chove mais cinco, e por aí vai. Como uma boa e velha ilha…
Verão, que verão?
16 graus Celsius em Reading. 19 em São Paulo….
