Você nasce no meio de uma ditadura militar, logo depois da queda de Geisel e entrada de João Figueiredo. Desta época, não se lembra de muita coisa, embora não seja preciso vasculhar tanto a memória em busca de pequenas confusões mentais na vida de uma criança. Poxa vida, o pacote de figurinhas hoje está cinco vezes mais caro do que ontem. Mãe, esse dinheiro não deu para o pão, custa o dobro hoje. Para quem foi criança no começo da década de 80, dias como estes foram constantes. Um zilhão de mudanças de planos: cruzado, cruzeiros, cruzados novos, cruzeiros novos, um zilhão de coisas que não se podia fazer.
Tancredo Neves foi eleito Presidente, festas nas ruas, e tudo então começou a ser normal para você. Ou pelo menos o mais parecido com o mundo de hoje.
Você cresce, olha a implementação do Real – obra de Fernando Henrique Cardoso – com vistas grossas, afinal, como é possível uma criança dos anos 80 acreditar em moeda estável? Você faz trabalhos na escola sobre a queda da didatura, sobre a Eco 92, sobre o Plano Real. Você nasceu dentro de uma constante mudança e só havia uma certeza em meio a tudo isso: o Brasil é o país do futuro. Acredita, um dia não haverá dívida externa, um dia o Brasil será uma das maiores potências econômicas do mundo, um dia o mundo precisará da gente. Porque aqui estão os recursos naturais, renováveis, a mão de obra especializada. Um dia. Um dia que não chegava nunca e só parecia conversa fiada.
Na adolescência estuda política, filosofia, sociologia, é cara-pintada e membro da UNE. Você faz parte do Impeachment do Collor. Você assiste a tudo isso de muito perto e com um entendimento ainda mais afiado. É difícil querer olhar para trás, mais difícil ainda ver o Brasil no futuro.
O tempo passa, a vida vai tomando conta e Lula, aquele cara da oposição, figurinha presente em todos os debates que você já assistiu, vira Presidente da República. Mais uma vez, o início da década de oitenta volta aos seus olhos, 1994, Collor, e agora, o que vai acontecer com este país? Oito anos se passaram e Lula elevou o Brasil à uma posição antes considerada utópica. Teve corrupção? Teve. Teve coisa errada? Muita. E logicamente, isso não foi só mérito dele, mas de uma evolução de re-estruturações econômicas que ocorreram desde a ditadura militar. Eu nunca votei no Lula, vou ser sincera com vocês. Nunca fui petista. Mas não sou hipócrita a ponto de não assumí-lo como o Presidente que esteve no poder durante uma das maiores ascenções econômicas do Brasil. Não farei nunca isso, porque mais do que manter as minhas opiniões, eu prefiro mudá-las após analisar a situação com os olhos de quem está em constante aprendizado e amadurecimento.
Você passa a vida inteira esperando por um país do futuro até que um dia, deitada na sua cama feita no hemisfério norte do planeta, a notícia que antes parecia utopia: Brasil ultrapassa o Reino Unido e entra na sexta posição de maior potência econômica do planeta. Os olhos lacrimejam. Porque melhor do que ninguém, você é residente do país ultrapassado há quatro anos, você vai ao Brasil todo ano e sabe o quanto isso é verdade. Sabe o quanto consegue comparar.
E o orgulho de ser Brasileiro, em todos os sentidos – principalmente de ter a alma brasileira, te leva até a escrever o nome do país no teu corpo. Mas algo te entristece. Te entristece ter passado por tudo isso desde a ditadura militar, te entristece ter visto tantas mudanças e evolução dentro de um povo que tem tudo pra ser o melhor do mundo. O Brasil só não é primeiro nessa grande lista, pelo que ele tem de melhor e de pior: um povo incrível e alienado. Um povo que não se leva à sério e não acredita que para se construir um país é necessário todas as mãos. Somos formados pelo melhor povo do mundo, mas nos deixamos fazer de palhaços. Porque é muito fácil e engraçado projetar piadinhas na internet por dias e dias seguidos, é muito fácil querer conquistar os quinze minutos de fama, gastar umas horinhas no Corel fazendo banner de meme de internet, ganhar quinhentos followers, e é isso que importa. Que se dane não jogar lixo no chão, brigar com quem estaciona em vaga de deficiente, que se dane reclamar do serviço público, assistir a um debate político antes de votar.
Me choca o jeito com que Brasileiro consegue pegar um comercial imobiliário da Paraíba e transformar uma pobre coitada em celebridade, por causa de uma frase. Pior. A mídia – que deveria estar focada em tantas outras coisas – entra na onda, a Publicidade apela para a total falta de talento sanguessuga e multiplica. Tudo se multiplica. O arsenal de besteira se projeta de uma forma que uma questão política jamais se projetará. Os focos estão todos errados.
Eu aqui do outro lado do mundo, sem assitir à TV Brasileira, já não aguento mais ouvir falar em Michel Teló, Pe Lanza, Luiza, Big Brother. Nunca assisti à um episódio desse Big Brother, nem li nenhum artigo, mas sei que existe um tal de Daniel que, teoricamente, estuprou uma menina bêbada. Sei que Pe Lanza é o vocalista de uma banda chamada Restart que ninguém suporta e usa calças coloridas. Mas olha que engraçado, não saberia nunca o que tem acontecido com o Ministério da Dilma, se não entrasse em algum site de jornal digno, que fale de política.
Algumas coisas no Brasil nunca darão certo. Porque Brasileiro não se leva à sério e, meu amigo, quando a gente não se leva à sério, não tem como esperar isso dos outros. Mídias sociais servem para marcar marcha da gente diferenciada, das prostitutas, dos zumbis, marcha do diabo a quatro, mas não servem pra aumentar o número de participantes de uma passeata a favor do aumento de salário para professores públicos.
A verdade é que a parcela de gente que acredita que o Brasil é muito mais que uma Luíza ainda é muito pequena. A parcela de gente que ainda acredita que é preciso muita coisa para mudar – e que é muito fácil se mobilizar para isso – já perdeu as esperanças; quando abre um portal de notícias online e só lê sobre entretenimento. É isso. O Brasil é um país com problemas psicológicos. A gente se droga com babaquices para fugir da obrigação de encarar a realidade, levantar a bunda da cadeira e fazer alguma coisa que realmente preste. Porque é muito mais fácil ser patético do que cidadão. E meu caro Carlos Nascimento, você se enganou, nós não fomos mais inteligentes. O Brasil foi e continua sendo um grande país de deslumbrados. O Brasil do futuro ainda não é presente.
As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo de que as coisas nunca mudem.
Chico Buarque