A menina era um caracol

Sentada na beira de uma pequenina ponte de pedra, a menina me intrigava com aquelas pernas finas entrelaçadas em si mesma duas vezes. Ajeitava o  tricot verde musgo, tão grande em seu corpo mirrado que era um tanto de incoerência com a meia calça fina preta, bermuda jeans e botinhas de pele quando lá fora não fazia mais do que cinco graus celsius, quem dirá à beira do rio.
A menina me intrigava em suas pequenas manias, de fazer caracóis nas pernas, de enrolar a mecha de cabelo quase ruivo no dedo, de dobrar e desdobrar a barra da bermuda jeans enquanto olhava o rio quase sem piscar. Ela era um caracol.
Tinha os olhos cheios, como se pouco mais de duas décadas vividas se multiplicassem por quatro. No colo, segurava um caderno de desenhos de páginas amareladas – em época de tablet, eu me perguntava em que ano morava a menina.
Um dia ela me perguntou assim, de quantos sonhos são feitas as coisas morais. E antes que eu respondesse, começou a desenhar com um lápis preto um pequeno castelo de pedras. Eu não fazia ideia do turbilhão de pensamentos que devastavam sua mente aflita. E então continuou:
– Realizada? O que é uma pessoa realizada? Qual o critério, em que planilha ou estatística entra o nível de satisfação pessoal com a vida? Trabalho, amor correspondido, dinheiro? Eu sou feliz, mas também sou triste. Trago um bolso cheio de amargura, outro cheio de gargalhadas. Trago um coração remendado, com feridas expostas cobertas de band-aid – você sabe muito bem que band-aid não cura. Eu não tenho mais ingenuidade para produzir sorrisos incondicionais, a vida me maltrata. Mas a vida também me carrega no colo. E quando ela não dá conta, tenho que levantar por mim mesma e sabe quanto custa cada levantada? A tal da minha inocência e os meus sorrisos incondicionais. Às vezes levanto sozinha porque a vida é água corrente e se eu parar, eu me afogo. Eu sou um poço de perguntas retóricas, porque sei todas as respostas. Eu só não sei se a vida passa enquanto o mundo acontece ou se é o mundo que passa enquanto a vida acontece.
A menina ruiva morava em um tempo alheio à si mesma. Era como a encarnação de alguma mente conturbada, dessas mais geniais que o mundo já viu. Cada frase que saía doce da sua boca ecoava ardida dentro de mim. As frases doíam. As afirmações machucavam e as perguntas retóricas pediam respostas. Talvez eu também tenha quebrado no chão minha ideia de felicidade:
– Eu acho que também sou feliz e triste, mas acredito ter livre arbítrio para escolher.
– Quanto mais você se prende à ideia de liberdade, mais rotula o que deveria ser livre. O livre não tem limite, o livre não permite conceitos. O livre nem ao menos se reconhece livre. As pessoas falam de amor livre – quanta bobagem, todo amor é livre. Só é amor se for livre. Se não é livre, é desejo, é amizade, é paixãozinha. Se não é livre, é posse.
Passei a mastigar azedas as palavras da menina enquanto tentava entender sobre amor, sobre a vida, sobre o movimento natural das coisas, sobre como cruzava as pernas duas vezes. A menina me intrigava como se fosse uma pequena fração de uma consciência minha, como se ela morasse no meu ombro. Eu não sei de onde ela vem nem para onde vai, mas ela foi a resposta. Talvez eu também precisasse ser mais pragmático, as coisas são porque são.

Slides

Era no escuro da noite que o pensamento evaporava. Sua tragédia dormia sobre um travesseiro de espuma fria.
De que adiantava lutar o dia inteiro se a noite lhe atormentava? Talvez  por hábito, insistência ou magia, as lembranças lhe socavam o topo do estômago debaixo do edredom. Cada soco, um frame de memória. Um slide de retroprojetor. Cada frame, um vazio no peito.

O que sentia não era saudade do que havia passado, era saudade do que poderia ter sido. Talvez, quem sabe, se tivesse existido coragem, se tivesse existido vontade. Se tivesse existido amor.

Mas ainda que remoesse a vida dentro das pálpebras, nunca entenderia. Porque não há o que ser entendido. Há a vida, menina,  que é feita de idas e vindas, de amores e desamores. Há a vida, que nada mais é que o encontro do desencontro. É preciso uma porção desses frames de retroprojetor pra contar
uma história. E se você puder chegar lá no fim com uma coleção de slides de sorrisos, tudo fará sentido. Guarde os coloridos, apenas. Os cinzentos não mais farão sentido.

O choro congelado

A chuva escorrendo pelo seu rosto fazia dois cachos em sua franja. A maquiagem borrada escondia on choro que eu conseguia ver em seus olhos. Vermelhos. Tristes. Ela apertava uma mão na outra, mãos secas, judiadas pelo frio de muitos invernos intermináveis em Estocolmo, dava pra ver em suas mãos que este não era o primeiro. 
Sua pele  era morena, os cabelos pretos e o olhar latino. É fácil distinguir o olhar latino quando se mora tanto tempo fora. O olhar latino é vívido, o olhar latino pensa, julga, ele não apenas olha. São olhares humanos, adultos, cheios de cérebro e sentimentos. Quando você passa muitos anos no hemisfério norte, percebe que o olhar daqui somente olha. Como um bichinho inocente. O olhar latino, não. 
A menina olhava fixamente para algum ponto no horizonte, quase cabisbaixa, e andava de um modo que era possível jurar que arrastava malas. Entendi o peso da vida em seu caminhar. Talvez sentisse dores nos ossos, tão comuns nesse frio, mas eu a li como alguém que tinha dores de alma. Sabe Deus que motivo tinha a menina latina de estar em plena Gamla Stan em Dezembro. Andando sobre metros de neve e chorando uma chuva moída. Sabe Deus o quanto carregavam os olhos borrados de maquiagem.
A vida me dá tapas na cara quando encontro pessoas chorando na rua. A menina escondia o choro na chuva e o fardo no andar. Ninguém a notava. A não ser eu, que lhe ofereci um sorriso gélido, que nas ruas do inverno europeu é o máximo de essência que conseguimos carregar. A Europa endurece. O frio enrijece. Quem passa por aqui alguns invernos, congela pequenas partes de si mesmo.

Sobre o Seu João

Toda vez que passa um caminhão muito perto de mim na rua, eu me lembro do Seu João. O Seu João da Dona Maria e da interminável mesa de torresmos.
Talvez tenha sido um fim de semana ou feriado na casa dos compadres dos meus avós, que era como se chamavam uns aos outros, as pessoas nascidas antes da década de 20. Me lembro da Dona Maria velhinha e de uma casa muito simples em alguma estrada de Itu. Tinha um quarto nos fundos com paredes descascadas, cheio de mosquitos, onde não conseguimos dormir. Não me lembro da fisionomia do Seu João. Ele usava um chapéu; mas isso bem que poderia ser fruto de uma infância corrompida por histórias em quadrinhos ou dessa minha mania genética de contar e enfeitar causos. Sabe, quando mais de vinte anos te separam da tua infância fica difícil entender o que era verdade, o que era contado e o que de tão contado acabou virando verdade. Talvez nunca tenha existido chapéu.
Mas se tem uma coisa da qual eu não me esqueço é da mesa de torresmos. Era uma sala com portas enormes de madeira maciça, janelões e uma mesa retangular no centro com toalha florida. Uma mesa sem fim cheia de torresmos. Ou o que parecia sem fim no campo de visão de uma criança de cinco anos. Seu João tinha acabado de fritar os toucinhos e aquele cômodo cheirava a leitão à pururuca, e eu nunca mais vi torresmos crocantes e reluzentes como aqueles.
Algum tempo depois meu avô me contou que Seu João tinha falecido. Atropelado por um caminhão na estrada da frente da sua casa. E posso jurar que o chapéu tinha ficado ali no chão, mas não tenho certeza sobre o chapéu.
Toda vez que passa um caminhão muito perto de mim, eu me lembro do Seu João. E se o Seu João consegue, de alguma forma, saber que eu ainda me lembro dele, deve achar um pouco esquisito ser lembrado por uma mesa de torresmos, um caminhão e um chapéu que talvez nunca tenha exisitido.

Eu amo você

Eu amo você.
Em cada detalhe do teu rosto, pela curva do teu pescoço, dentro dos teus olhos de água.
Em cada lábio rasgado de lado, em cada som falado na emancipação das tuas mágoas.
Em cada gesto de afeto, meu amor procurando teto dentro do teu peito morno. Chama.
Em cada diálogo de olhar, em cada suor escorrido no lado direito da tua cama.
Eu amo você em época de carnaval, até quando acabar o sol nos dias cinzas de inverno.
Nas minhas dores mais profundas, no vazio da noite imunda, no teu abraço quase eterno.
Que és apenas o que nunca quis, que tens o lado errado do meu certo e os meus maiores clichês.
Que eu passaria dias beijando teus sorrisos, confiando o amor no teu espaço fechado.
Eu amo você.

Expectativas

O problema é quando desperdiçamos energia onde não devíamos. É como um pequeno buraco negro vazando alguma coisa de dentro de você. Sente esvair pelos dedos? Sente a energia sugada a cada minuto? Sente seu foco completamente distorcido?
É tudo uma questão de foco, um exercício prático de inverter prioridades. É preciso parar de esperar, e talvez essa seja a missão mais impossível do ser humano. Como não esperar nada se ao deixarmos de construir expectativas, a vida vegeta, a emoção some, o coração desacelera? Impossível ter adrenalina no corpo sem  expectativas. Quero as pernas bambas, o coração acelerado, quero o suor correndo no corpo e pingando na esquina do queixo. Quero a veia quente, os cinco sentidos ardendo, quero inventar cenários e diálogos dentro de mim.
Talvez algumas pessoas apenas adormeçam em um transe quase budista de focar a vida no momento presente e, aprendendo a desviar de passado e futuro, consigam – talvez – se concentrar no que existe agora.
Esperar é uma projeção, seja ela de um passado que você gostaria de reviver ou de um futuro que só existe na sua cabeça. Não projete, não espere, não crie. Não fantasie, não sonhe, não peça, não sinta, não lute, não vá atrás do que acredita. Não acredite.
Ah, então ensina-me a não esperar nada de alguém, porque de situações é possível que eu até consiga. Mas não sei viver pela metade, abdicar da emoção, da intensidade, não sei acreditar e não correr atrás, não sei projetar sem realizar. Talvez isso seja um defeito, ou talvez a minha melhor qualidade. Só sei que é essência, é alma, é intrínseco. É aquele ímpeto de querer viver o que se acredita, custe o que custar, desde que não machuque os outros. Ainda que machuque a nós mesmos.
Mergulhar de cabeça nas pessoas é entregar-se exposto e cru, é colocar o coração vivo, pulsando, na mão de alguém e esperar que cuide. É aceitar todos os riscos de mais um tombo e ainda assim escolher sentir.

 

Teu amor

Teus olhos cinzas guardam todo o amor do mundo. Neles você é menino. Sinto tua fragilidade, tuas duvidas, teus olhos respiram para que os meus continuem vivos. Se o segredo da vida é o amor, sou pura benção. E não pense que não tenho gratidão por cada piscar teu no canto esquerdo do sofá. Teu amor mora dentro dos pequenos gestos mais doces que já conheci.
Teus olhos cinzas guardam todo o melhor amor mundo (e o mapa da Austrália também).

Para você, com carinho

É claro que eu sinto saudade. Volta e meia alguma coisa me lembra você, nós dois, toda essa história mal contada que inventamos. Aquele amor quase adolescente, de pele, de intelecto, de sorriso. Claro que sinto a tua falta nos meus dias, dos quase mil dias que dividimos, das mil horas que experimentamos.
Você sempre será meu amor doído, impossível, aquele que desistimos sem ao menos tentar. Você sempre será um buraco vazio, um coração acelerado, a vontade de ter ido um pouco mais além e não ter tido coragem. E não ter tido futuro. Você me convenceu várias vezes de que não daríamos certo enquanto engolia suas verdades. Você me mostrou o quanto não queria remar mais o barco furado que construímos juntos, porque a minha bagagem era pesada demais. Algumas entrelinhas eu tive a sensibilidade de perceber, ou de me iludir, mas quando não há certeza, a ilusão aquece. Que talvez você tenha me amado, e muito. Que talvez o fardo de não existirmos tenha sido pesado demais. Que talvez continuar estivesse doendo mais em você do que em mim.
Quantas vezes senti um nó na sua garganta que não me disse nada que teus olhos sussurravam. Quantas vezes quis ouvir de você o que era implícito na nossa história, porque eu precisava vivo, eu precisava pulsando em mim, marcando a minha vida com as unhas.
Talvez minhas expectativas realmente tenham sido excessivas. Eu te queria como uma história bonita, eu tinha um enredo todo para você na minha vida. Eu construí começo, meio e fim. E o fim, te juro, era bem diferente do que é hoje. Queria você por perto.
Hoje eu olho tuas fotos e meu coração não acelera mais. Vejo alguém que resolveu tomar outro rumo para, quem sabe, não sofrer mais. Desculpa, ainda continuo roteirizando tudo o que não me disse, prefiro preservar a nossa história. Prefiro acreditar que essas portas fechadas, esses socos na boca do estômago, tenham sido todos eles uma tentativa de fugir do meu amor apenas por ser grande. Quanta tolice a gente inventa para ignorar a dor.
Olhar teus olhos de longe me dói um pouco. Saber que está feliz é um alívio e uma certa tortura. Já não bato o coração da mesma forma, já não tenho mais a esperança seca de ter algo de volta. Tudo muda. Nada nessa vida é eterno, muito menos os relacionamentos. O amor, por outro lado, pode ser. Ainda te carrego aqui dentro, amor doído, fardo leve. Ainda sinto falta, uma saudade breve e aguda, uma saudade gelada que bate na ponta do coração em ventos de fim de tarde.
Te vejo do outro lado dessa bifurcação. Teu caminho é tão cheio de possibilidades quanto o meu, existe muito mais mágica quando estamos separados. Você me olha e me sorri, eu estou sorrindo de volta. Você acena um adeus de longe, com a certeza de que sempre estaremos perto. Existe uma ligação muito maior que tudo isso, mas nossos caminhos são separados.
Desejo que esteja muito bem, que seja sempre fiel aos teus sentimentos e não te minta. Que tua vida esteja morna e que exista paz. E que em algum lugar do seu coração ainda tenha uma prateleira com o nosso roteiro empoeirado, algumas lembranças minhas, guardadas com o carinho de um suspiro, de uma saudade. Te guardo com carinho.
Nem sempre a vida é um desafio para ir além. Às vezes é preciso apenas alguém para saber parar.