Sou um contador de estórias; se me despe em poemas, me derramo em fonemas, vocabulário chinfrim. Meus versos não rimam, minhas palavras não ganham, atormento meu peito em devaneios mirins.
Mas se me faço prosa, me entrego aos socos na boca do estômago de próprio punho. A linguagem me transborda, as palavras escorrem líquidas entre os dedos: sou a sua dor pungente, coração pulsando quente, frases soltas exclamadas com a voz abafada pelo teu medo. Sou o que cutuca a tua ferida aberta e expõe o que existe de mais cru em ti.
Sou tua mente inquieta, teu coração maltratado, essa tua vida torta e todo esse nó na garganta. Sou essa folha em branco, teu vazio dolorido, teu pranto é minha epifania santa. Sou tudo o que existe de lírico dentro da tua paranóia mas, de verdade, sou apenas um contador de estórias.
Categoria: Crônicas, Contos & Ladainhas
A maior parte das minhas crônicas é fictícia. Quando for verdade, eu aviso!
Por favor, não volta
Eu já te pedi uma vez, não, não volta. Não coloque sobre mim seus clichês, sua meia dúzia de frases elaboradas há tanto tempo para essa ocasião. Quantas vezes ensaiei o que dizer, construí roteiros no meu travesseiro, porque o que eu queria que dissesse nunca foi dito pelos teus lábios e eu não sei mais se confio na linguagem dos olhos. Então não venha agora me pedir pra ficar, pra voltar, pra ser, pra não esquecer os golpes no estômago que sufocaram meus melhores sentimentos. Não derrame em mim toda a frustração dos seus quase amores e não, por favor, não descubra agora que sempre fui eu. Porque a gente sempre soube, a gente sempre sabe e, ainda assim, você preferiu esfaquear com muito zelo cada ferida aberta em mim.
Que te quero muito bem, mas seu coração é perigoso.
Fique onde está. É bonito assim, olhar de longe, quando a dor virou saudade, a mágoa, entendimento, quando o amor virou carinho. Deixe assim, encostando levemente a cabeça no ombro oco do meu coração; me deixa dormir nesse pesadelo compreendido que durou a brevidade de um amor pra sempre. Me deixa aqui para que continue amando o que era, o que fomos, pois já não sei se amaria o que está. Então, não volta, por favor, não volta, mas segura a minha mão e não me deixa escapar nunca mais.
O fim é apenas um recomeço
Você precisa encarar tuas crises por todos os lados. É fundamental entender que levar a porrada certa é parte do processo. Voltar atrás é fugir, e isso não condiz contigo.
Eu sei que a vida te esfriou, tirou muito de ti, exigiu uma força surreal das tuas emoções, da tua saúde, mas olha só – você arcou com as consequências como gente grande. Honrou todas as tuas escolhas e nunca desviou. Lembra: desviar é renegar tua própria evolução humana, é muito fácil e a maioria das pessoas faz isso. Mas você é dessas pessoas que não têm medo de errar, de cair. Você busca teus pontos fracos para construir a si mesmo, porque adora sentir que você é uma constante mudança. Aprendeu em biografias de gente incrível que crises são essenciais; a tempestade não dá lugar à bonança, ela dá lugar a ti mesmo, cru, vulnerável, exposto. Toda crise é uma oportunidade de se conhecer e se fazer melhor. E você o faz com a dignidade de uma criança amedrontada que encara monstros para que o medo vá embora. Medo não é real, menino, medo é apenas expectativa.
Quando uma estrada se afunila, não é preciso procurar uma saída. A gente tem uma mania muito pessimista de se obrigar a encontrar saída e tomar decisões quando as coisas chegam a um ponto crítico. Você só precisa sair da fortaleza, tirar a armadura de ferro e deixar a crise vir. A vida é uma constante renovação, o fim da estrada sempre acaba se afunilando em um milhão de atalhos.
Falta
Às vezes ela queria voltar atrás, quem sabe, aquela mesa de bar. O toque na mão direita com o polegar que parava o mundo em volta. Os olhos silenciosos que diziam tanta coisa, as risadas óbvias de quem era feliz. O frio no estômago, a primeira vista, o primeiro abraço. O calor do corpo que explodia em um desejo mútuo de largar tudo e deixar acontecer. A pergunta sussurrada no ouvido “você está feliz?”.
Ela está sentada sozinha na mesma mesa onde se conheceram. Já se passaram dois anos. Ela rodeia a borda do copo de cerveja com os dedos de uma maneira que qualquer um pode sentir sua saudade. Os olhos são de quem viveu histórias e nunca esqueceu. Ah, se pudesse voltar e consertar os erros, as lacunas. Se pudesse ter se controlado um pouco mais e não se envolvido tanto.
Deu um gole na cerveja, olhou para o lado, vazio, como se esperasse alguém chegar. Ninguém chegava. Encontra seus sorrisos em outros lábios, seu olhar em outros rostos, encontra datas em outras ocasiões e lugares que fizeram parte de sonhos mútuos. A falta é um peso vazio e árduo que ela arrasta todos os dias. Vai passar, vai passar. Na verdade, tudo passou. Mas vez ou outra, no meio da multidão, ele ainda sorri a cada vez que ela pisca os olhos.Ela já aprendeu que existem amores que não passam. Sabe que nada é melhor do que o que sobrou hoje. Ela é feliz, mas falta. Só queria que soubesse dessa falta e que, de alguma forma, trouxesse um sorriso de volta.
Gosto de gente
Eu gosto de gente livre, mas livre mesmo, não essa gente que se apega à um conceito pré-criado de liberdade. Gosto de gente que pertence ao mundo, de alma, de corpo, de coração. Eu prezo às pessoas que se apegam um pouco, sim, costumo achar o total desapego uma leve desculpa para não se comprometer com nada. Que exista o compromisso, mas com a gente mesmo: com os nossos sentimentos, os nossos valores, as nossas vontades.
Gosto de gente que tem vontade e diz o que é. Que não tem medo de pegar na mão e olhar nos olhos, gosto de gente que não tem medo de dizer o que sente, quando o que se sente é apenas o que se tem. Gosto de gente que não foge de abraço, que fecha os olhos, que se entrega. Gente que não tem nojo de sexo, de cheiro, de saliva e de suor. Gente disposta.
Gosto de gente que se interessa; por cultura, por música, por qualquer forma de arte que eleve o ser humano. Gosto de gente culta. Não precisa ter lido James Joyce, mas me intrigam as pessoas que se permitem ir um pouco além do que é direcionado à massa.
Gosto das pessoas que saem pelas beiradas, gente que contesta, que nunca aceita tudo da forma em que lhe é cuspida, gente que olha pra fora da sua própria bolha. Gente que pensa. Que idealiza. Que busca.
Gosto de gente que vai atrás do quer, seja lá o que for esse querer. Gosto de gente que se valoriza e, por isso mesmo, se permite ir. E vir. E voltar. E ir de novo. Gente que entende que a vida não passa de uma porção de experiências, e que experiências precisam ser naturalmente experimentadas.
Pessoas de mente e corações abertos. Nômades de alma. Que gostam de fincar o pé em um pedaço de terra, mas não têm medo de outros chãos. Gente que se pertence sob qualquer céu. Que se adapta. Que enxerga mudanças como oportunidades e as usa para crescimento próprio. Gosto de gente que foca em crescimento pessoal muito acima do profissional.
Gente que não se menospreza, não se desvaloriza. Gente que sabe o quanto custou para ser quem se é hoje e não se entrega tão fácil. Gente que não tem medo de parecer frágil, exatamente por saber sua própria força; gente que se testa. Que vai além dos seus limites. Que está sempre tentando algo novo. Gente que não se acomoda.
Gosto de gente que valoriza o que tem, que não tem auto piedade e nem se faz de vítima, porque não tem tempo pra isso. Gosto de pessoas que entendem os outros com suas bagagens emocionais e físicas, com suas feridas e cicatrizes. E que se entendem.
Gosto de pessoas que não têm medo da vida, do futuro, que usam o passado como alavanca. Gente interessada em um bem comum: o bem, apenas. Gente que se comove e tem compaixão, mas não precisa mostrar que é altruísta, porque o exibicionismo anula o altruísmo.
Gente que divide. Que compartilha experiências. Que conta histórias. Gente que têm as histórias mais interessantes, porque vive. E, se bobear, vive em vários lugares.
Gente que ama, que cuida, que preserva, que aprende, que defende, que contesta, que briga, que fala, que grita, que cai (inúmeras vezes), que compreende, que não tem medo, que questiona, que chora, que diz, que sussurra, que gargalha, que sabe, que procura, que pesquisa, que releva, que revela. Gosto de gente que se faz sozinha. Gente que se reinventa. Gente que não tem medo de mudar o mundo. Gente que não tem medo de mudar a si mesmo.
1250 dias de Ivy
Mil duzentos e cinquenta dias. Eu poderia ter construído uma vida. Eu poderia ter construído uma terceira vida entre nós dois. Mas tudo o que cresceu em mim foi você.
Como hera em tijolo, você foi cravando as unhas em mim tão delicadamente que eu quase não percebi. E você era linda e cresceu de um jeito tão incontrolável, que tudo o que eu podia ver era essa sua imensidão, esse seu abismo por dentro; foi como me envolver com um buraco negro, Ivy.
Eu nunca imaginei que 1250 dias seriam uma parte tão grande de mim. Eu sempre te disse; foi no nosso oi que eu soube que tudo isso nunca daria certo. Mas eu não tive coragem de te podar, de arrancar teus pequenos caules que começavam a me enrolar pelas pernas, eu não tive coragem porque você me fazia um bem tão grande, Ivy.
Você cresceu em mim de um jeito inesperado, eu achei que se podasse apenas um pouco por vez talvez poderia te controlar, mas você perdeu o controle, Ivy, nós dois perdemos o controle e, quando me dei conta, você já havia dominado meu corpo e experimentado meus delírios, e já chegava ao meu pescoço, eu comecei a perder o ar, e você me olhava com o maior brilho que eu já tinha visto em uma hera e por alguns meses eu jurei que você era todo esse brilho, toda essa imensidão que já quase me sufocava, e me apertava em beijos que perturbam meus sonhos, Ivy, e segurava o meu rosto e me dizia meia dúzia de coisas dúbias, e eu já não conseguia enxergar um palmo à minha frente, porque a um palmo de mim era apenas você. Você e seu buraco negro de problemas emocionais, de desvios de personalidade, de manias e manias de encontrar todos os defeitos em mim porque eu nunca, eu nunca pude ser perfeito para você. Você procurava e rodeava meus defeitos mais insignificantes para se proteger de mim; ainda que fosse sua presa, eu era perigo constante para esse seu coração frágil. E você me disse que eu seria feliz com qualquer escolha que eu fizesse, ainda que eu não tivesse escolhas com todas as suas garras presas.
Me deixou ir, Ivy. Depois aos poucos foi apodrecendo caule por caule e eu ainda sinto a dor de cada pedaço arrancando carne viva em mim, porque você não faz ideia, mas dói pra caralho ter hera arrancada.
Quatrocentos e quarenta dias com pedaços de hera sendo constantemente arrancados de mim. Dia a dia. 440 dias e eu ainda sinto falta da escuridão do teu abismo, da falta de controle, da força de deixar crescer algo inexplicável que te consuma. Ivy. Eu arranco sozinho teus pequenos caules apodrecidos, você me mantém distante o suficiente para que eu duvide de todo o teu brilho. De toda a imensidão que um dia acreditei. Ivy, pra mim você não passa de erva daninha. Que causa dano em tudo o que toca. E eu só queria acreditar que não.
440 dias e você continua me rodeando os dedos do pé e eu não entendo. O que te mantém é inexplicável, e eu bem queria que fosse explicável em mim. Porque em mil duzentos e cinquenta dias, Ivy, não teve um único dia que eu não tenha pensado em você. E tem algo que ainda te prende, eu sinto, eu vejo nesses caules novos rodeando meus pés toda hora: ainda tem algo que você se nega. E quanto mais nega, Ivy, mais me mostra que, na verdade, fui eu quem mais cresceu em você.
O presente
Eu sentei naquele banco com as mãos em concha escorrendo sangue, segurando um coração remendado com pequenos pedaços velhos de esparadrapo. Frágil, pulsando quente em puro medo.
Era o presente que você mais queria e temia, porque sabia que não seria fácil: é muita responsabilidade cuidar de corações quebrados na hora errada. E a nossa hora era perfeitamente errada.
– Toma. Leva contigo. Mas me devolve.
Me levantei do banco cego. Não havia mais um fiapo de luz a um palmo de distância que fosse. Escuta, eu não vejo nada e me dá um medo danado do escuro.
Caminhei por uma estrada torta sem saber onde colocar os pés. A estrada era morna e me sorria, mas eu continuava tropeçando. No dia em que caí, voltei ao mesmo banco para pegar meu coração de volta.
Suas mãos não estavam em concha. Meu coração pulsava cinza no chão. Os pedaços haviam se espalhado, todos os remendos que eu tinha feito estavam quebrados de novo. Por que? Se a gente sabia que a hora era perfeitamente errada? Se a gente sabia que não era a nossa história? Por que?
Mas você não sabia meu nome. Você tinha se esquecido de todo o passado. Meu coração te queimou as mãos calejadas, você tinha espinhos por todo o corpo. Não se lembrava de mim, não se lembrava dos meus cacos. Olhava meu coração no chão como se não soubesse o que fosse. Quem ele era, quem eu era. A nossa história.
Você apagou com precisão cirúrgica todos os meus pedaços de você, porque eu te doía demais. Não existiu conversa, não existiu carinho, não existiu amizade. Apenas um grande lapso de vida.Não foi a primeira vez e não será a última. Eu já remendei todos os cacos novamente, meu coração está muito bem, obrigado. Só nunca entenderei por que as pessoas fazem isso. Quem apaga pessoas, renuncia histórias. Quem apaga histórias, anula a própria vida. Quem apaga os corações dos outros, morre um tiquinho com eles.
Buracos negros
O tempo não cura todas as dores, nem todos os amores. As lembranças amareladas, borradas, quase invisíveis, ainda aparecem dentro das pálpebras dela como pequenos slides de uma época em que era preciso ser mais forte, e ela não o foi. As cenas são difíceis de distinguir a cada piscar de olhos, mas a memória te boicota, menina, te traz à tona o calor do corpo, o coração acelerado, ainda que não se lembre mais de rostos. Os olhos escuros feito duas jabuticabas gordas. Os olhos que nem ao menos podia chamar de estrelas, pois brilhavam sozinhos. Dois buracos negros que engoliram metade da sua vida com meia dúzia de clichês.
Queria guardar a imagem assim: duas jabuticabas sobre o sorriso mais bonito do mundo, só porque era dele. Queria deixar assim, arquivado no passado, indiferente, sem machucar, sem incomodar, sem magoar. Nada que atinja, apenas que brilhe. E que guarde todo o carinho do mundo entre duas pessoas que se amaram tão bonito um dia. Que seja assim.
Ou que seja do jeito que ele preferir, diminuindo-se aos poucos entre os dedos dela para que chegue, enfim, a esmagá-lo entre o dedão e indicador. Que não sobre nada, nenhuma porta aberta. Que os cacos de todos os sentimentos construídos sejam irrecuperáveis. Que a frieza supere todo o calor dividido entre dois corpos. Que seja assim: pequeno, insignificante, medíocre. Um grandessíssimo nada dentro de dois olhos de buracos negros.
O tempo não cura, apenas cicatriza. E algumas cicatrizes coçam só para lembrar que a dor ainda existe.
É que o efêmero parece que tenta, a todo custo, ser eterno.– Pequeno, menina, esmaga toda a pequenez entre os dedos até que suma com um último sopro de lembrança.
