Memorável

Eu tenho memória de elefante, e isso é fato. Se é que elefante tem memória boa. Mas eu tenho. Não consigo esquecer nomes, nem rostos, nem números, nem roupas, nem detalhes. E olha que já tentei piamente! Tenho memória não-seletiva, visual, auditiva, sensorial em todos níveis.
E isso me deu um problemão a vida toda. Eu disse, eu já lutei para esquecer, não prestar atenção, adoro quando uma vez na vida eu pergunto “como é teu nome mesmo?”. E às vezes eu pergunto mesmo já sabendo a resposta.
Por uns dez anos isso foi um problema de relacionamento na minha vida. Eu não esquecia o nome de nenhum menino, assim como não esquecia o de nenhuma menina, adulto ou idoso. Mas as pessoas juravam que o fato de eu lembrar o nome do cara que tinha visto uma vez por dois minutos há três anos, lembrar a roupa que ele usava, o que ele falava e até o endereço significava que eu estava apaixonada. Ou pelo menos interessada. E nem sempre era assim.
Meu último momento revival me deixou traumatizada. Faz uns sete, oito anos e eu fui na Anzu, uma baladinha em Itu, interior de São Paulo. Eu vi um menino que eu jurava que conhecia. E lembrava o nome dele, porque o nome dele tinha marcado a minha vida por ter sido o mais difícil de pronunciar: Iberê. Só que eu não contei ainda que era tão difícil assim porque eu estava no jardim da infância quando estudei com ele. E, feliz e contente em rever meu amiguinho de infância, fui lá falar com ele. Pra que… Cheguei no menino e disse “seu nome é Iberê, né?”, ele respondeu que sim entusiasmado em saber se a gente se conhecia. Eu disse que tínhamos estudado juntos, na escola Núcleo. Ele olhou desconfiado e disse que nunca tinha estudado em nenhuma escola com esse nome. Eu afirmei que sim, mas que talvez ele não estivesse lembrado. Até que ele disse “ah sim, eu estudei em uma escola Núcleo, mas eu era bebê!”. Eu disse “pois é, é de lá mesmo, eu estudei com você no jardim da infância”. A reação do menino foi o meu trauma. Ele fechou a cara, me mandou catar coquinho e me chamou de louca. No fundo acho que ele pensou que eu o estava seguindo a vida inteira, para ele era impossível eu me lembrar da fisionomia dele, muito menos do nome. Mas eu lembrei, e vou fazer o que???
Com isso passei a dar uns truques na minha memória. Finjo que não sei, que não lembro, ou pelo menos que não lembro o nome, o endereço e o telefone. Como no fim de semana passado, casamento da minha amiga, que vi um cara que conheci há cinco anos no meio do carnaval de Salvador – não fiquei com ele, só conheci mesmo. Tive que fingir que não sabia o nome dele. As pessoas acham mais natural, já que quase nunca se lembram de nada.
É duro ser humano com memória de elefante. É quase que socialmente inaceitável.

Domingo

Post mega longo. Só pra quem tem paciência.

Domingo é dia de ficar com a família, isso sempre foi. Não é só tradição brasileira, mas principalmente tradição da minha casa. Só que parece que há alguns anos todas as tradições perderam o sentido.
Desde que me lembro por menina, almoçava aos domingos com os meus avós. Eles moravam em um sobrado de dois quartos em Pinheiros, a mesma casa por mais de cinquenta anos. E aquela casa tinha um cheiro de infância que arde o nariz.
As minhas memórias são de almoços compridos, destes com a família toda reunida. Avós, filhos, netos, três gerações ao redor da mesa farta, todo mundo falando ao mesmo tempo. Meu avô começava sempre com o aperitivo, disso não posso esquecer. Por volta das onze, enquanto eu e as outras crianças estávamos assistindo à televisão, ele se levantava e dizia estupefado “agora é hora do meu aperitivozinho”. E então preparava caipirinha de cachaça e mandioca frita. Quase sempre foi igual, e mesmo quando eu já não me amontoava mais na frente da televisão com a minha irmã e meus primos.
Vovô tinha uma criança por dentro que era completamente visível aos olhos. Aos oitenta e pouco, era com ele que assistìamos ao “Pica-pau” comendo amendoins e balas. O pote de amendoins ficava ao lado da televisão, às vezes com outro pote de bolacha champagne, para acompanhar os desenhos. E vovô rolava de rir com o pica-pau.
Eu sempre tive mais carinho por ele, não sei bem se foi isso. Acho que era mesmo afinidade, e todo mundo sabe que ele sentia o mesmo por mim. Éramos como avô e neta perfeitos. O meu único problema com a minha avó era que eu não concordava com a rígida educação grega que ela teve e queria me transmitir. Eu a amava profundamente, mas nossos conceitos eram diferentes, e como ela mesma dizia, eu sempre fui muito bocuda, levantava pelos meus direitos. E isso causava alguns atritos, o que me fez achar que ela não gostava de mim até uma idade quase adolescente. Pura ilusão minha. Vovó era a pessoa mais amável do mundo, do jeito que ela tinha aprendido.
Vovô me ensinava sobre a vida. Eu chegava na casa dele e ele corria a me chamar no jardim. Passava longos minutos me mostrando as novas rosas que abriam, a hortelã que tinha plantado, o manjericão que crescia e atraía vespas, o limoeiro lotado, o pé de acerola vermelhinho. Ele amava as plantas e dividia a vida delas com a gente, os netos.
Lembro que o vizinho tinha uma pitangueira e um pessegueiro. E se a gente pendurasse no beiral do terraço de cima, conseguia alcançá-la. Quantas tardes eu passei com o meu avô, debruçada na mureta comendo pitangas vermelhinhas e cuspindo seus caroços. E quando ficávamos extasiados e abarrotados de pitanga, colhíamos as maduras e levávamos para a cozinha, onde minha avó inventaria um desfecho: geléia ou suco.
Meu avô era daqueles que vivem sorrindo. Quando menina eu cantava para ele a música do Balão Mágico “o meu avô é doce como caramelo, o meu avô é fofo como algodão, o meu avô tem muitas coisas e um castelo, de mentirinha mas é um bruta castelão”. Ele era assim, sonhava um mundo e deixava a gente sonhar nele também.
Ele consertava geladeiras. Já tinha sido frentista e barbeiro, até hoje guardo sua foto envelhicida no preto e branco, na barbearia. E no fundo da casa ele tinha montado uma oficina, era assim que ele a chamava. Na verdade era um quartinho cheio de ferramentas, com uma bancada de ferro que parecia até medieval e a coisa que mais me inspirava e amedrontava: o amassador de dedos. Na vida real aquilo era uma ferramenta que até hoje não sei o nome. Ficava presa na bancada e girava uma manivela para fechar duas partes, provavelmente para segurar alguma coisa. Mas no mundo do vovô aquilo era o amassador de dedos, então ele será sempre isso para mim e eu nem preciso saber o nome de verdade.
Eu precisaria de muitas linhas para contar do meu avô e, na verdade, quero falar sobre domingos. Os longos domingos com eles. Todos os almoços de domingo tinham que ter massa, como uma boa casa italiana. E o que variava era o tipo da massa, fusilli, nhoque, penne, raviolli. Sempre ao sugo, com molho de tomates frescos e muito manjericão, feito em casa. E para acompanhar, sempre frango assado. E na minha memória de menina, o refrigerante – porque era só lá, e só aos domingos que podíamos tomar refrigerante.
Quantas vezes vovó fez nhoque de batatas em casa e nós, pequeninos, passávamos correndo pela mesa da cozinha e roubávamos as bolinhas cruas. Elas eram tão boas de se comer! E tinha também os antepastos, a cebolinha curtida no vinagre que meu avô fazia, a pimenta verde, a sardella e alichella. E não podia faltar em nenhum domingo os filões de pão italiano, receita exclusiva da antiga padaria Pinheirense, até onde meu avô caminhava só para comprar os melhores de São Paulo, como ele dizia. Ninguém fazia pão italiano como a Pinheirense!
O tempo passou e muita coisa mudou, as crianças foram crescendo, os filhos tiveram muitas responsabilidades, alguns casaram, descasaram, mudaram-se para outras cidades, viraram grandes empresários. Mas eu, minha mãe e minha irmã nunca saímos de lá. Morávamos a um quarteirão e não conseguíamos deixar de passar um dia na casa deles.
Vovô e vovó foram ficando velhinhos.Vovó não enxergava tão bem e já não cozinhava, nem copiava receitas da televisão. Vovô estava quase cego de um olho e não fazia mais seus passeios matinais para visitar seus amigos da vizinhança. E a sensação de abandono era um sentimento que não queríamos em nossos corações.
Vovô tinha uma alegria na vida: receber a gente e o meu cachorro em casa. Nada o deixava mais feliz. Vovó já tinha tido três esquemias e ficava mais quietinha do que falante. Ainda era lúcida, mas já se dizia “cansada da vida”. Nós três e meu cachorro continuávamos a tradição do almoço de domingo. Agora quem cozinhava era a Graça, a empregada.
Eu ainda tive o privilégio de trabalhar por anos na minha rua, e almoçava com eles quase todos os dias. Era o momento esperado. Vovô ia á feira e comprava manga para a sobremesa, porque sabia que eu gostava. Vovó pedia para a Graça fazer couve-flor gratinado por minha causa.
Os domingos foram ficando com cara de lembrança, sabe. Chegou o tempo em que tudo o que eu fazia com os meus avós eu pensava, meu Deus um dia sentirei tanta falta disso. Da minha avó comendo melancia de sobremesa todo santo dia, do meu avô bebendo vinho tinto com massa e pão italiano, do barulho da casa, do radinho de pilha, do cheiro de infância.
O primeiro dia chegou e foi o pior dia da minha vida. Foi quando, ainda em estado de choque, eu quase desmaiei ao ver o nome do meu avô na placa do velório. Como doeu, meu Deus, como dói até hoje até mesmo falar sobre isso…
Vovó não aguentou de solidão, coitadinha. Sessenta anos de casamento não poderiam terminar assim para ela. Ela se entregou à uma cama e esperou vovô vir chamá-la, como no meu sonho. Minha avó morreu dois anos depois dele, em 2005. Justamente o ano em que eu estava morando na Inglaterra. Engraçado porque do mesmo jeito que no Natal de 2002 meu avô me disse que seria seu último, no de 2004 eu senti como se estivesse vendo minha avó pela última vez.
E eu me lembro bem desse dia. Eu tinha sonhado que meu avô dirigia seu velho monza, encostava o carro perto de mim dizia “vim buscar a vovó pra pescar”. Ele adorava pescar. E então os dois entravam no carro e iam pescar no morro do Maluf, no Guarujá. Lembro da vovó feliz, das varas no porta-malas, do pote de minhocas. Achei o sonho bonito, mas não me preocupei com ele.
Neste dia, cinco dias depois dela ter completado 90 anos, eu passei o dia todo cozinhando para um jantar de aniversário de uma amiga minha. Voltei pra casa, me arrumei, saí com o David de carro, pegamos outro casal de amigos no caminho e fomos ao jantar. Eu estava feliz, estava na Inglaterra com meu amor, com meus amigos, num dia de festa. E meu celular tocou três vezes, com a minha irmã meio que não dizendo nada. Até a hora que eu achei estranho ela ligar para o outro lado do mundo e não dizer nada. E foi no elevador, no andar do apartamento da minha amiga, que ela me deu a notícia pelo telefone. Minha avó havia falecido, dormindo, e longe de mim. E eu chorei tanto por estar longe, chorei por ter falado com ela no seu aniversário e ela ter juntado tanta força pra dizer que me amava, chorei por ter tido certeza de que aquela realmente tinha sido a última vez que eu a tinha visto. Mas chorei mais por não estar perto. E foi muito difícil me manter normal naquele jantar.
Hoje eu sei que os dois estão juntos, pescando ou sentadinhos um ao lado do outro, mas sempre de mãos dadas. Sei que a lembrança que eu tenho nunca vai morrer, assim como a dor que tenho no coração. A saudade o tempo ainda não curou porque não enxuga minhas lágrimas em nenhum momento que me lembro dos dois.
Hoje a casa está vazia, à venda, e o cheiro de infância parece que foi embora com os meus avôs. Tanta vida tinha naquele lugar e hoje não passa de um conjunto de paredes. A roseira foi a única que resistiu no jardim. E desabrocha rosas, de vez em quando, que deixariam meu avô apaixonado.
O que ficou comigo foi a memória. De tempos felizes que não voltam, de pessoas que não voltam, nem que eu faça força. Nem que eu brigue com Deus. E a parte triste dessa memória é que parece que muito mais coisa se foi com eles. Os domingos não têm mais tanto sentido. Às vezes eu me perco neles, cozinhando meu próprio molho de tomates, tentando manter a tradição pelo menos entre minha mãe, minha irmã e eu. E nem o Natal, que antes era tão lindo e vermelho para mim, é tão especial assim. Parece automático, uma reunião como outra qualquer. E a família… a família perdeu o alicerce. Faz de tudo para se manter em pé, mas balança com qualquer onda. Anda à deriva, levando a vida como está. Sem âncora para dar a sensação de chão.

Modernidade

Acho que tenho que comprar um caderno. Teclas me emburrecem.

Conversa

Post longo. 

Oi Deus… será que posso te chamar assim? Já não sou mais menina pra dizer “Papai do céu”… Se bem que aos teus olhos talvez sejamos sempre meninos. Mas vou te chamar de Deus, simplesmente, nada de Senhor ou qualquer outra coisa. E nada de vós porque não me sinto mais tão distante.
Pois é Deus, essa talvez seja nossa primeira conversa depois de muito tempo.
Não sei como foi acontecer, nem quando, mas acho que briguei com você algumas vezes. Acho que foi quando meu avô morreu e eu não queria, apesar dos seus 89 anos. Como diria Clarice Lispector, que deve estar aí ao seu lado falando de seus devaneios: desculpem, mas se morre. E eu já entendi isso, Deus, entendi que essa é a única lei da vida e ponto.
Sabe, Deus, eu olho para trás e vejo todos os momentos onde eu achei que você não estaria. E exatamente nestes momentos foi onde você se fez mais presente. Não sei se preciso conversar com você todos os dias, mas estou me sentindo um tanto distante. E talvez queira me desculpar.
Antes de continuar, quero pedir perdão se eu adormecer. Mania essa que eu tenho desde menina!! Até no catecismo eu cantava uma música que dizia algo como “me desculpe se eu dormir enquanto estiver rezando”. Acho que vai ser assim pra sempre, vou acabar dormindo.  Então, me perdoe se isto acontecer.
Deus… quando eu era menina sentia sua presença infinita. Talvez discordasse um pouco das coisas, talvez não entendesse porque tinha tirado meu pai de mim tão cedo. Mas hoje só tenho lembranças boas, então sei que você esteve presente. Depois, com uns quinze anos, passei a ter contato com os anjos. Tudo na minha vida girava em função do meu anjo da guarda, a quem eu chamava de Sealiah. Até o dia em que sonhei com ele e descobri que se chamava Elliot, ou talvez tenha sido um desses meus momentos de loucura. Mas eu conseguia sentir a presença dos anjos, os sinais, o cheiro de rosas. Minha espiritualidade estava no auge da iluminação. Aí aconteceram tantas coisas, Deus, como bem deve saber, já que sabe de tudo.
A vida aqui embaixo é dura, sabe. A gente se esquece das coisas mais importantes porque passa a vida fazendo as menos importantes. Às vezes eu me sinto no meio de um grande formigueiro, com um milhão de formigas operárias andando de um lado para o outro, cumprindo tarefas que não têm sentido. Só que a gente passa reto um do outro, nem ao menos pára para encostar as anteninhas.
A gente aqui embaixo dá duro no trabalho pra ter o que comer em casa, e não cuida da família. Cuida do corpo, e não cuida do espírito. Sabe, Deus, ser adulto no século vinte e um não foi uma escolha boa pra se acreditar em você. Muito menos para conversar com você todo o tempo. Se eu tivesse nascido nos anos 30 eu passaria boa parte do meu tempo indo à igreja, conversando com você, acendendo velas, lendo salmos. Os salmos, eu só lembro deles quando preciso, e são tão mais bonitos que as orações. Desculpe-me Deus, mas estou sendo honesta, de nada me adiantaria mentir se consegue ler meu coração.
Não queria que fosse assim, sabe. Mas esta estória de morar dentro de cubos empilhados dentro de um retângulo, e viver em função de coisas que a gente nem ao menos sabe o que são, tiram a gente do caminho. E acho que foi por isso que acabei me afastando. Pode parecer clichê, mas deve ter sido por falta de tempo.
Me lembro de você quando estou na natureza, Deus, isso sim! Quando vejo o mar infinito e seu poder de não acabar nunca depois do horizonte. Quando sinto a energia do vento de uma tempestade, e abro os braços para recebê-la. Quando piso na grama e sinto o magnetismo do sol puxando a minha energia pela terra. Sim, já senti isso, Deus, e você sabe. Naquela vez que tomei chá de cogumelos. Foi real, eu tenho certeza, senti a força magnética do sol nascendo no horizonte. E foi incrível. Também penso em você quando vejo a lua, as flores, a perfeição exata e matemática da natureza, as estrelas brilhando no céu, num distante tão distante que dá até medo. Esse distante que eu tinha tanto medo de cair pra cima, lembra Deus? Eu achava que a qualquer minuto a gravidade acabaria e a gente cairia pra cima, pro céu… mas isso foi só depois que eu descobri que a gente morava em volta do mundo, e não dentro dele.
Às vezes penso em você quando penso em outras coisas também, como o nascimento, a morte, a metafísica, o amor. Ah, o amor só pode ser coisa de Deus. E todos os obstáculos que a gente tem que enfrentar para chegar ao amor são coisas de Deus, também.
Sabe Deus, na verdade, agora sinto que não estou mais tão distante de você. Se eu, ao menos, olhar para o céu todos os dias e me lembrar que ele não é humano, já estarei te louvando. Se eu prestar atenção em um canto de passarinhos, em uma borboleta voando, ou no cheiro da terra molhada, já estarei perto de você. Se eu tomar banho de mar e banho de chuva, essas águas serão mais bentas que as da igreja. Pra que água benta por padre, se posso ter a água que cai diretamente do céu?
Vou fazer assim então. Me comprometer a ficar mais perto da natureza, porque assim estarei mais perto de você. Vou comer mais verduras e legumes. Vou saborear mais frutas. Vou tocar a terra com as mãos, nem que seja a do vaso de azaléias, até ficar com as unhas sujas. E nem vou ligar. Vou tomar banho de chuva, deixar a neve derreter no meu rosto, sentar na grama molhada e sentir o magnetismo do sol – sem precisar de cogumelos. Vou olhar nos olhos do meu cachorro e ver o amor incondicional das criaturas. Vou contar nuvens de carneirinhos de novo, procurar arco-íris, observar o mundo que acontece dentro da grama. Vou ter mais ar, água e terra na minha vida.
Acho que cheguei à uma conclusão com a nossa conversa, Deus. E, finalmente, não adormeci até o final. Pra falar a verdade foi muito melhor conversar assim com você do que em palavras já feitas, sinto como se tivesse me escutado. Agora vou te ter mais presente, porque também preciso eu fazer a minha parte. Tudo nesta vida é mão dupla. Tudo o que vai tem que voltar. Assim é comigo e com você, assim é com a perfeição matemática das coisas, assim é com as criaturas. Ah, e minha conclusão Deus? É que este mundo está humano demais hoje em dia. E isso está é matando a gente por dentro.
Amém.

Lula 3.0

Alguém aí ouviu o digníssimo falar em terceiro mandato????
Eu ouvi neste minuto no Jornal da Globo. E saiu da boca do próprio.

E isso aqui foi escrito em Fevereiro, quando tudo ainda era mera especulação:

Eles não podem afirmar que a reeleição indefinida é ditadura são distintas. Existiam eleições no regime militar no Brasil. Existia oposição, inclusive. Em Cuba são realizadas eleições. Ter o Quarto Poder nas mãos é garantia de poder nos países considerados democráticos. Logo, qualquer controle da mídia é vital. Sem a mídia Berlusconni não duraria muito. Que diga a RCTV, canal de oposição a Chávez que pode sair do ar para que a revolução bolivariana prevaleça. É a força do povo desempregado para manter os camaradas nos cargos de confiança. A força do povo miserável para manter ricos que fingem ser pobres no poder. E deixem o homem descansar!Vão tentar convencê-lo que a Venezuela não é aqui. Que Lula não é Hugo Chávez e que o Nosso Guia é contra o terceiro mandato. Ok. Lula também era contra a reeleição e é o atual presidente reeleito. O segundo na “história deste país” e o primeiro presidente que precisou vencer as eleições no segundo turno para se reeleger.

Dizer que um prefeito sem projeção nacional ou senadores desconhecidos do grande público tem as mesmas chances que a estrela do PAC é subestimar a inteligência do leitor. Dizer que Lula não quer o terceiro mandato também. Um argumento fajuto e recorrente é escrever que os avisos são teorias conspiratórias. É uma forma de tirar o crédito de opiniões contrárias a voz oficial. As propagandas do governo estão por toda a parte. Em imagens e textos.

E como distinguir os jornalistas e articulistas que são apoiados pelo governo? Simples. Quem utiliza nos títulos “Fulano diz que…”, “Fulano isso”, “Fulano afirma…” está claramente apoiando ou é ligado a Fulano. Existe a possibilidade de determinado articulista querer agradar a um grupo ou a editoria. Eles se consideram articulistas “centrados”, que escrevem com a razão e suas análises não são superficiais (algumas vezes), mas são totalmente questionáveis.

A Venezuela não é aqui. Ainda.” (E eu colocaria um outro “ainda”, logo em seguida)

(escrito por Leonardo Silvino em Duplipensar)

Medo.


Osso duro de roer

Acabei de voltar do cinema, acho que sou uma das últimas brasileiras a assistir “Tropa de Elite”. Nem vou comentar muito o filme porque já virou assunto redundante de blog.
Na verdade queria firmar aqui o porque de eu ser uma das últimas brasileiras a ver o filme. Porque eu sou contra a pirataria. E pode parecer hipocrisia, mas sou mais ainda contra a pirataria nacional.
Várias vezes me ofereceram o dvd pirata do filme e eu me recuso. Esperei até conseguir ir ao cinema e pagar pelo que estou assistindo, devolver o dinheiro por uma mega produção.
Acho o fim apoiar a pirataria nacional. Não que eu faça apologia à pirataria de outros filmes, temos é que apoiar o cinema nacional para que continue com a qualidade que está, e para apoiar precisamos pagar por ele. Não somente assitir.
Tá certo. Piratas de Hollywood também são criminosos e também sustentam o crime e um sistema marginalizado. Mas, no Brasil, a cultura do cinema deveria ser estimulada, e isso não acontece quando uma entrada chega a custar R$ 22 . Acho sim é que o nosso digníssimo Sr. Ministro da Cultura deveria ter feito alguma coisa à respeito dos preços do cinema há muito tempo. É fácil querer o fim da pirataria. Difícil é fazer um casal ir ao cinema uma única vez por menos de 10% do salário mínimo.
Outro absurdo é a carteirinha de estudante. Acho o fim da picada quem não é estudante ter que bancar quem é – ou não. Sim, porque os preços subiram de um modo que a meia-entrada de hoje é a entrada inteira de antigamente, e inteira é o dobro. Como iludem a gente né! E isso para justificar a venda de meia-entrada, dizem que tem muita gente com carteirinha…
Aí entra o direito de desconto para estudante. Agora querem limitar a idade do desconto. Desculpa, mas estudante é estudante e independe da quantidade de rugas. É tanta apologia à voltar a estudar, mas se tiver mais de 30, nananinanão. Faça o favor de não se dar ao direito de ter carteirinha, estás velho demais para isso, meu amigo. Se tem mais de trinta é bom ter uma notinha de vinte na carteira… É como alguns tipos de curso. Em qualquer lugar do mundo qualquer curso “full time” (com uma determinada carga horária) dá direito à carteirinha ISIC. No Brasil não. Acho um abuso isso. Quando vim da Inglaterra com a minha carteirinha inglesa, da ISIC, igual à de todo mundo aqui, não pude pagar meia em lugar nenhum. Simplesmente porque o meu curso era de idiomas e, aqui no Brasil quem estuda idioma não é estudante, tá? É o fim.
Agora pensem bem. O Cinemark está nessa promoção de R$ 6 a inteira até amanhã. Vocês acham que eles acordaram de bom humor e resolveram bancar os direitos dos filmes? Claro que não, os seis reais pagam por isso. Agora quase 400% deste valor é simplesmente lucro. Sabem quanto um combo de pipoca pequena, refrigerante e sonho de valsa saiu hoje no Cinemark? R$ 3,50! E, mais uma vez, óbvio que eles não estão tendo prejuízo. Sabe quanto custa um saco de pipoca grande em dia normal? R$ 10. É por isso que eu vou em dias de promoção assim, e aproveito o quanto posso. Olha a margem de lucro dos caras, olha o desrespeito ao direito de Cultura.
Mas voltando ao “Tropa de Elite”, tenho algumas considerações. Não vou ficar aqui vendendo meu peixe ou não para o Capitão Nascimento. Concordo que se toda a polícia tivesse o treinamento do BOPE as coisas seriam diferentes. E concordo, acima de tudo, que pagando mal não dá pra ter honestidade em lugar nenhum do mundo.
Digo que saí do cinema com dor no peito, com vontade de chorar. Não que tudo seja uma uma verdade que ninguém conhecia, mas é diferente conversar à respeito e ver tudo exposto ali, nu e cru. É decepcionante viver num país como o nosso, é triste, é humilhante. Deve ser mais humilhante ainda querer ser policial correto num sistema completamente perdido. Tá tudo tão errado, e parece que a bola de neve só aumenta. Parece que nada melhora. Eu, pra ser bem sincera, não aguento mais noticiário. Menina presa com homens, advogado assassinado por delegado, leite do governo sendo vendido em padaria, drag-queen fazendo show em Assembléia…. Não dá mais. Não dá pra culpar só a globalização pela expansão das notícias, as notícias ruins estão aumentando sim. É fato.
As coisas realmente parecem ter fugido do controle. E, impressionante, mas a corrupção ficou banalizada, completamente banalizada desde o mensalão. Virou festa da mãe Joana e ninguém mais tá nem aí. Se alguém viu essa performance da drag de fio dental em plena Assembléia, sabe do que tô falando. E se alguém viu o próprio camarada que organizou isso dizer que vai fazer um projeto para que deputados possam entrar na Assembléia de bermuda e chinelo, sabe que a política virou palhaçada.
Tudo bem que essas coisas são assim desde 1500. Só que agora a corrupção e a falta de respeito são esculhambadas, pra quem quiser ver. E que se dane quem estiver vendo. Me desculpe Senhor “não vi nada”, mas toda essa escancaração tem uma estranha coincidência com o dia em que você virou vidraça, e não mais pedra.
Misturei um monte de assuntos mas desabafei.

Quantas crianças a gente vai ter que perder para o tráfico pra playboy enrolar baseado?

Pense, classe média, pense. Capitão Nascimento tem total razão: somos nós quem sustenta essa merda. Lembre disso quando fumar um beck ou comprar um pirata.

Olhinhos de bicho

Tenho um problema sério com animais. Sou extremamente apaixonada por qualquer bicho (excluindo uma boa parte de insetos). Sou fraca, tenho coração mole, e tenho certeza que, se tivesse uma casa grande, seria daquelas que saem pegando animal abandonado na rua…
Ontem assisti ao Globo Repórter  e, não dá, eu não posso ver cenas de maltrato que eu choro compulsivamente. Ontem foi de arrepiar ver um cara enfiando uma faca na cabeça de uma tartaruga, ver aquele Pintor Verdadeiro (um dos pássaros mais lindos que existem) agonizar até a morte por falta de ar, comida e água.
Outro dia vi um cachorrinho na rua, de coleira, todo estrupiado e, cara, se vocês olhassem nos olhinhos dele… Ele era puro desespero, com certeza estava perdido. E eu não pude fazer nada porque estava dirigindo e meu cachorro insandecido estava comigo. Mas eu chorei, chorei, até chegar em casa. E rezei para São Francisco de Assis para colocar um anjo no caminho dele.
Eu sou assim, me bate um desespero quando vejo cachorro ou gato atravessando a rua. Um dia, na praia, tinha um carro na minha frente com um cocker na janela. O trânsito estava fluindo e – juro – o cocker pulou a janela e foi parar no meio da avenida – com o carro andando!!! Eu virei meu carro de lado, parei o trânsito todo e quase tive um enfarte até tirarem aquele cocker do meio da rua…. Hedgehog então (os ouriços terrestres da Inglaterra) eu só vi morto e atropelado. Mas tudo isso não passa de acidente. O que me revolta é o tráfico de animais, o maltrato, a crueldade. Eu não entendo como uma pessoa pode olhar nos olhos imensamente expressivos de um bicho e lhes fazer mal. Eu abomino o tráfico de animais tanto quanto o de crianças.
O que eu não entendo é que neguinho que mata a família inteira de chimpanzé pra roubar filhote, ou rouba arara-azul – que é monogâmica, passa pela delegacia, recebe uma multa – que nem é paga – e fica por isso mesmo. Meeeu, os caras fazem rapel pra roubar ovo de arara-azul!!!! Isso eu não engulo… Tráfico é tráfico. O que é ilegal é ilegal e pronto. Se eu sair por aí vendendo cocaína eu vou ser presa e vou responder à Justiça. Agora se eu sair por aí vendendo filhote de pássaro silvestre, não acontece nada. Tem tanta coisa errada neste país que desanima até reclamar.

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Pintor-verdadeiro, um dos tesouros deste país.

Santa Rita do Riacho Longe

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Era uma cidadezinha dessas bem pequenas, que se resumem à rua principal e ao coreto da praça. Tinha ruas de paralelepípedos e casinhas brancas, cada qual com o beiral da janela de cor diferente. Tinha também uma capela que nem poderia ser chamada de igreja, pois não tinha tamanho para isso. E, claro, havia o sino da torre da capela.
Santa Rita do Riacho Longe era assim, longe do riacho. E a capela, claro, era Paróquia de Santa Rita. Atrevo-me a dizer que lá em Santa Rita tinha mais devotos da Santa do que em qualquer outro lugar do mundo. Toda casinha branca tinha um oratório onde a imagem central era dela.
A cidadezinha parecia outra qualquer, perdida na imensidão do Brasil. Ficava perto de São José do Rio Pequeno, onde o rio era pouquinho, e de São Sebastião do Rio Manso, onde o rio, claro, era calmo. calmo. Além disso, fazia divisa com Nossa Senhora do Riacho Pardo e Santa Terezinha do Ribeirão. E como qualquer outra cidadezinha, Santa Rita tinha a rua 7 de Setembro, a avenida Brasil (que nunca chegou a ser avenida, tão pequena era a cidade), e a praça da República, que era na rua 15 de Novembro – onde tinha o coreto.
As pessoinhas de Santa Rita pareciam-me todas iguais, de cabelinhos brancos e sorrisos vastos. Eram na maioria velhinhos que seguiam uma rotina extremamente entediante para uma pessoa da cidade grande, como eu.
O sino da igrejinha tocava todos os dias às 7 horas. E toda a Santa Rita do Riacho Longe assistia à missa, desde os de cabelinhos brancos, até os meninos que iam para a escola. E a escola, Doutor João Marino, era a única por lá.
Depois da missa, era sempre a mesma coisa. Seu Teobaldo e Seu Felício colocavam cadeiras na porta de suas casas para jogarem conversa fora. Dona Mariazinha, Dona Maria e Dona Maricota ficavam na igreja para rezar o terço. Dona Amélia, Dona Margarida e Dona Rutinha iam para a casa de Dona Filipina para fofocarem e comerem bolo de mandioca. Seu Romão, Seu Totonho e Seu Rubaldo sentavam na praça para jogar dominó. Seu Domingos, Seu Damião, Seu Zézinho e Seu Tonico se juntavam no coreto para tocar chorinho. E Dona Marta, Dona Carmela e as quatro irmãs que nunca se casaram – Lurdes, Ludimila, Luana e Luísa – assistiam ao chorinho e arranhavam a cantoria.
O resto fazia as coisas de sempre. A venda do Mathias abria e os cachorrinhos entravam, a quitanda do Seu Manoel exalava cheirinho de goiaba, o boteco do Seu Abreu já servia pinga pro Teodorinho, a floricultura da Carmem enfeitava a cidade, o padre Joaquim se retirava para um cochilo, Seu Moisés brigava com Dona Flora por causa do café fraco e Seu Terence visitava Dona Clotildinha que, na verdade, queria ser visitada por Seu Almeida, o farmacêutico.
Os meninos iam para a escola João Marino e passavam a tarde na praça fazendo lição de casa ou brincando de bola e bicicleta. Sonhavam um dia em sair de Santa Rita. Alguns até saíam, faziam universidade em São Sebastião do Rio Manso ou em São José do Rio Pequeno. Arthur, neto de Dona Filipina, foi o único na cidade toda que tomou coragem e se mudou para São Paulo, bem longe de lá. Falava-se com orgulho dele há muitos anos: “Foi pra São Paulo”. O resto acabava ficando pelas redondezas, com medo das cidades grandes. Mas o mais impressionante é que, cedo ou tarde, eles sempre voltavam.
E por isso que Santa Rita tinha tantos velhinhos e quase nenhum jovem. Porque eles iam embora ainda verdes e voltavam maduros. E eles diziam por lá que era por causa do riacho… Diziam que Santa Rita do Riacho Longe era tão longe do riacho,  que os meninos saíam pra procurá-lo e só voltavam de cabelinhos brancos.

* Todas as cidades são fictícias… eu acho!