Amor moderno

“Era um amor desses de livro, sabe? Daqueles que comecam cheios de defeitos, que enfrentam mil tempestades, que perduram e duram. E que sao tao constantes e ferozes como a agua que fura a pedra,  e tao quente como a lava que nao seca no mar. Era daqueles amores de novela, com gente dizendo que nao daria certo, com todos os contras cabiveis e por se caber, com os medos, os panicos, os naos. Era desses amores de filme agua com acucar, que te faz chorar e querer alguem pra amar naquele instante, naquele momento unico, como se o mundo acabasse ali… na pureza do que se sentia.
E eu digo era no passado pra deixar a prosa mais bonita, porque o que ha de vir ainda eh presente por demais  e ha de dar um bom futuro.
Eles se conheceram numa vida moderna, dessas que eu nao entendo muito bem nao. Sei que tinha a ver com computador, aquele bicho que parece televisao e fala e, sabe-se la como, com os outros lados do mundo. Mas se telefone que eh telefone se fala por um fio, porque nao ha de se falar atraves de uma tela, nao eh mesmo?
Nao sei bem como que tudo comecou, mas soube que ele morava la longe, la na Europa, onde Judas perdeu as botas. E ela aqui, nessa imensidao sem fim de concreto, com um coracao tao cheio de esperanca. Sei que eles se falaram pelo tal do computador por muito tempo, e houve telefone tambem, mas demoraram um bocado de tempo pra se ver frente a frente.
Foi o que aconteceu de mais bonito, porque o mundo todo foi contra, assim como Romeu e Julieta sabe? Mas ela dizia que havia de ser pra valer e que seu coracao batia num passo que nunca tinha batido antes, e que era como se as estrelas dissessem que ela tinha que seguir em frente. Essa menina nunca foi de deixar leite fervendo em fogo brando, nao! Dizia que preferia se arrepender de tentar do que de nao ter tentado. Ela foi e pagou pra ver. Viajou la pra longe pra conhecer o tal do estrangeiro do computador e, quando voltou, seus olhos se “alumiavam” mais que vaga lume depois de chuva. E seu sorriso, ai, seu sorriso era desses longos e varridos que refletiam qualquer clareza em volta.
E disse que era de verdade, vo, nao era de mentira nao. Era de verdade aquela maluquice toda que nem ela entendia, mas que duas semanas com ele foram como nos contos de fadas que eu contava pra ela.
E o tempo passou tanto que nem me lembro mais de quanta gente que tinha medo e preocupacao por ela. O moco veio pra ca e a familia toda que se encantou com ele.  E passou mais tempo ainda, nao que nao tenha tido mais pedras pra tirar do caminho. Mas como eu disse, era dessas aguas que furam as pedras…
E um dia eles casaram, no dia mais lindo, com o ceu mais lindo, o sol mais brilhante, e os sorrisos mais verdadeiros. E ela escolheu escolher uma vida, que nem sabia como seria, mas arriscou a sorte. E eles que, em seis anos, tinham ficado juntos coisa de no maximo seis meses corridos, depois de casados ficaram ano e meio, sem se separar um diazinho sequer.
E ela resolveu voltar pra ca porque a saudade daqui sufocava, soh que ele nao pode vir. Foram soh tres semaninhas de nada, mas o suficiente pra ela olhar uma foto dele no tal do computador por mais de dez minutos e dizer… “meus olhinhos de esquilo… a vida deu pedras, a gente construiu o mais bonito dos castelos”. 

E a estoria ainda nem que terminou e, Deus ha de querer que nao termine nem nessa vida. Porque ela ainda quer um dia chegar na minha idade. Ainda quer assar biscoitos, sentar na cadeira de balanco na frente da lareira com ele, e contar pra varios olhinhos brilhantes uma linda estoria de amor…. desses de livro.”

Sobre-viva

“Acho que devemos fazer coisa proibida, senão sufocamos. Mas sem sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres.”

Já disse Clarice Lispector… Mas eu vou um pouco mais além. Como aviso de que estamos vivos. Às vezes a gente cai num marasmo, numa rotina de dia-a-dia que simplesmente nos faz esquecer do fato mais simples de todos: a vida.
É todo dia acordando com o despertador, tomando banho, se arrumando pra ir pro trabalho. Trânsito, escritório, os mesmos cenários de sempre. As mesmas pessoas, o mesmo restaurante por quilo, a manicure na quinta-feira, a aula de spinning, o inglês, o trabalho pra casa. E no final da noite, a televisão, o computador, a cama. E quando você acorda de novo, tudo parece extremamente normal. Mediocre. Banal.
E é aí que é a hora de mudar. Porque ela já disse também que só o que é morto não muda. E você e eu estamos muito  vivos.
Mude o caminho pro trabalho. Caminhe muito mais do que faz hoje. Pegue atalhos diferentes, olhe para as árvores, explore seus tamanhos e cores. Deixe a ipod de lado por um tempo e preste atenção aos barulhos. Ouça os passarinhos. Eles estão sempre lá, e você nunca lhes dá ouvido.
Mude seu quarto. Improvise um feng shui e mude a cama de lugar. Melhor ainda, coloque a cama debaixo da janela. E se não tiver nada pra fazer esta noite, apenas olhe para o céu e sinta a presença de uma energia muito maior que a nossa. Quem sabe a noite esteja toda estrelada…
Mude o toque do seu celular, mude o toque do seu despertador. Ouça mais músicas que te fazem bem. Cante alto e dance, não tenha preconceitos contra você mesmo. Que se dane o que os outros pensam. Você está apenas vivendo.
Pise na grama descalço e sinta a vibração que vem da terra. É inexplicável. Prove sabores diferentes, vá além da mesquinharia da sua rotina. Mude o restaurante, chame alguém que você adore pra almoçar com você. Use sapato baixo se está todos os dias de salto. Coloque o seu vestido mais solto e saia no vento, sinta o vento percorrer todo o seu corpo. Não há nada que me faça sentir mais viva do que o vento no rosto.
Tome um banho de chuva, um banho de mar, um banho de cachoeira. Quem foi que disse que você não pode pegar o carro hoje e ir até a praia?
Desligue a tv, o computador e pegue aquele livro que quer ler há tanto tempo. Sente ao ar livre, abra uma canga na praça perto da sua casa. Sinta o sol, permita-se.
Se tudo deu errado hoje e não tem ninguém nem pra tomar uma cerveja no barzinho com você, vá sozinho, vá ao cinema, ao parque. Sozinho mesmo. Ou faça como uma amiga minha e viaje sozinho. Pra Salvador, no carnaval. Se dê oportunidades de conhecer pessoas que mudarão sua vida pra sempre.
Esteja atento. Respire fundo, lembre-se sempre de respirar. Pare e respire. Deixe o oxigênio te desintoxicar. Faça yoga, medite. Feche os olhos e deixe os pensamentos fluirem. E aqueles que te fazem mal, coloque-os numa lata de lixo imaginária e feche a tampa. Ou permita que eles sejam levados por aquele vento.
Não se preocupe com o seu corpo, use-o. Tire um dia pra você, marque uma massagem, faça uma exfoliação em casa, tome um banho de banheira com pétalas de flores e velas acesas. Acenda um incenso e brinque com os aromas. Teste aromas em casa todos os dias. Coloque canela e cravo numa frigideira e deixe queimar devagarinho.
Encha a casa de lírios, encha a casa de flores. Pinte a parede daquela cor que você sempre quis.
Se estiver a fim de não fazer nada hoje, tome um banho, coloque sua melhor maquiagem, aquela roupa infalível, e saia pra qualquer lugar. Nem que seja para um café na esquina da sua rua.
Se estiver com a agenda cheia, desmarque tudo e não faça nada. Fique de pijamas e pantufas, alugue aquele filme água-com-açúcar que você adora. E não se culpe por isso.
Encontre seus amigos numa terça-feira à noite. Porque não?? Invente um queijo e vinho em casa esta noite. Festeje sempre, qualquer ocasião. Nunca deixe nada passar em branco. Toda oportunidade é uma porta para outras.
Surpreenda a sua mãe com um buquê de flores, seu cachorro com um passeio no fim do dia, seu namorado ou namorada com aquela sobremesa que só você sabe fazer.
Compre tickets para aquele show, compre dois, antes mesmo de ter alguém pra ir. Não dependa das pessoas. A vida é agora e só você pode fazer algo por você mesmo.
Se quiser experimentar coisas novas. experimente. Com consciência, mas faça. Não corra o risco do “e se”… “e se eu tivesse feito, e se eu tivesse ido, e se eu tivesse falado…”
Salte de paraquedas, faça um curso de mergulho em alto mar, voe de balão, vá ao Maracanã num dia de FlaFlu, vá a uma rave, vire uma tequila, sei lá. Sem fazer apologia a nada, afinal, cada cabeça – uma sentença. Somente lembre-se de se permitir. Depois de um tempo a gente aprende que é preciso muito pouco para que a gente se sinta vivo.

free

Senhorinhas no ponto de ônibus

Às vezes eu me sinto a própria mosca ouvindo conversa alheia. Hoje estava no ponto de ônibus esperando o dito cujo pra ir pro trabalho.
Havia duas senhorinhas por lá, cada qual com seus cento e vinte anos, esperando o ônibus também. Uma parecia meio louca, usava um chapéu, saia, e estava de mochila. A outra, sentadinha, de boina vermelha e bengala.
Vira a do chapéu pra da boina vermelha e pergunta que horas são. A senhorinha diz “espera só um minuto que eu tenho um relógio que fala”. Eu pensei, nossa, que povo evoluído….
Aí a senhorinha da boina vermelha aperta um botão e o relógio diz com um sotaque irlandês “eleven, o-eight (11:08)”. As duas se abaixam e inclinam os respectivos ouvidos sobre o relógio da uma (essa cena foi impagável). As duas com os ouvidos grudados no relógio, que estava no braço da de boina vermelha.
A de chapéu diz “ah, eleven o´clock”. A outra diz “não, eleven fourteen”. “Vamos ouvir de novo”. Apertam o botão, grudam o ouvido no relógio, que diz “eleven o-nine”, que nada mais é que 11:09. “Ah, eleven two nine”. “Acho que disse eleven to nine”. Tive que intervir: “minha senhora, são onze e nove”. “Aaaaaaaah” disseram as duas.
Deviam inventar um relógio que desenhe….

Complementando:

Pra formar a patota, chega uma outra velhinha de duzentos e trinta anos, de casaco roxo e bengala combinando – roxa de bolinha rosa. Juro. Começa uma conversa de que o ônibus número nove não vai pro centro, vai pra Caversham. Eu, defensora dos oprimidos, intervenho de novo. “Não, senhorinhas loucas. Pra Caversham é no caminho de volta. Daqui, vai pro centro da cidade”. Vira a do chapéu e diz “que cidade???”. Eu tive vontade de responder Veneza, mas fiquei quieta. Como que esse povo anda na rua sozinho?????

Um dia…

… frio, um bom lugar pra ler um livro…

Um dia triste, toda fragilidade incide….

Devaneio

Sinto o sabor do mamão no meu café da manhã, suco de maracujá. Posso morder um caju fresco e não há nada nesse mundo que possa comparar.  
Meus pés anseiam pela areia branca e fina, meus lábios pedem o salgado da água do mar. O sal que fica no corpo, a brisa que só é de lá. Abro a minha canga, já é hora de ficar e não pensar em nada. É hora de sentir o sol na pele.
Peço a Deus um barulhinho de panela de pressão no vizinho, cozinhando o feijão do dia. Páro um minuto querendo sentir o cheiro do alho e da cebola fritando. Um caldo de cana, uma água de côco.
Ouço os passarinhos, os bem-te-vis, que saudades dos bem-te-vis. Abro a janela e tem uma cidade inteira me esperando, de dia e de noite. 
Quase que escuto os peões na obra ouvindo um pagodinho, quase que escuto as crianças brincando e os cachorros latindo. E de longe, há sempre um rádio tocando um samba. Se der sorte, passará um trio na minha rua agora. E eu escuto o samba chegando.
Eu me entrego, canto, grito, danço. Saio atrás dele. E no meio do caminho, me rendo a um chopp gelado ou um café de verdade. O samba daqui não é o samba de lá.
O vento morno do verão, o ar entrando pelo meu vestido. A pele queimada de sol, os pés pedindo havaianas. As unhas feitas, o cabelo solto. Inspiro e expiro brasilidade.
Me pego dirigindo meu carro, do lado direito da rua. Escuto Ivete no rádio, assisto Faustão aos domingos. Tem  feijoada no quilo de quarta-feira. Mas hoje é dia de ir a feira e pedir pastel e guaraná. E hoje será de palmito.
E chego em casa pra assistir a novela, pra falar besteira em português, pra não pensar se terei mamão no café da manhã do dia seguinte.
É saudade, é apego, é conforto. É um pedaço de mim que ainda grita.

“Filho de sol poente que quando teima em passear, desce de sal nos olhos, da falta que sente do mar”.
(Maria Rita, “A despedida”)

O sol cansado

São quase onze da manhã. O sol tá escondido como se ainda fosse sete horas. Mesmo que não houvesse nenhuma nuvem no céu, o brilho dele seria fraco, como um fim de mundo.
A grama no jardim ainda está congelada, branca de geada, resultado dos três graus negativos da noite passada.
Nas árvores, poucas folhas resistem agarrando-se aos galhos como se não admitissem o fatídico destino.
Os pássaros estão calados, os esquilos eu não vejo há semanas. O sol, o sol está querendo hibernar.
Se você não entende o que eu estou tentando dizer, imagine um dia de chuva no Brasil. Um pedacinho de sol atrás das nuvens cinzentas, esse é o máximo de brilho do sol de hoje.
Um quase escuro para uma manhã, dá pra jurar que tem alguma coisa errada. É, ele chegou.

No inverno daqui o sol nunca chega a pico. Ele caminha numa linha horizontal, na posição onde no Brasil estaria às cinco da tarde.  O sol está sempre do lado, fraco, cansado.

Diferenças

Ele é da geração setenta e eu sou geração oitenta. Ele cresceu ouvindo Jimmi Hendrix, já eu, cresci ouvindo Balão Mágico.
Ele tinha computador quando eu ainda nem sonhava com o meu Pense-Bem, e quando eu ganhei um Odissey ele já tinha o Atari novo.
Ele ia pra escola de gravata e sapato e eu ia de tênis, regata e uma peça de vestimenta que cismavam em chamar de saia-calça.
Ele perdeu a virgindade com catorze anos, eu bem mais tarde que isso. E quando ele tinha catorze anos eu tinha apenas oito. Ele já foi garoto-problema, eu já fui a melhor aluna. A segunda língua que ele aprendeu foi francês, já eu, foi armênio.
Ele nunca viu inflação brutal, nunca pensou em ter outra moeda, e eu já passei por cruzados, cruzeiros novos, cruzados novos, em tão pouco tempo. Ele só sabe de golpes de Estado pelo livro de história, e eu nasci no final de um. Ele nunca guardou dinheiro embaixo do colchão.
Ele se lembra do dia em que John Lennon morreu, e eu me lembro do dia em que Cazuza morreu.
Ele tinha neve no Natal, eu de neve só via as artificiais nos shoppings, porque Natal era um calor danado. Ele nunca tinha passado o Reveillon de branco, na praia.
Ele não sabe quem é a Xuxa, nunca assistiu “Os trapalhões”, não tem idéia do que seja a novela das oito.
Ele nasceu no hemisfério Norte, eu nasci no hemisfério Sul. Ele é velho mundo, eu sou novo mundo. Ele fica do lado direito do mapa mundi, eu do lado esquerdo. Tem um oceano inteirinho, com nome e tudo, entre as nossas casas.
Mas quando a gente conversa sobre a infância, logo as coisas mudam. Porque mesmo tão separados, em mundos tão diferentes, a gente estava mais perto do que se imaginava.
Ele chamava pogobol de spaceball, ele jogava Monopoly e eu Banco Imobiliário, aqueles hipopótamos que eu amava do jogo Papão, pra ele eram Hungry Hippos. Ele teve aquaplay, ele chamava Traço Mágico de Etch a Sketch. Ele também teve Genius, Mr Potato Head, assistia He-Man, Smurfs, Thundercats. Ele também fez fila no cinema para assistir Tartarugas Ninjas.
E a tal da difrença de cultura aparece tão sutil, que eu nem ao menos percebo que estou falando outra língua.

O esquilo na cerca

Hoje um esquilo me seguiu até a academia. Eu na calçada, ele em cima da cerca, do meu lado.
No começo ele passou a andar na minha frente, e eu só via a bundinha e o rabo levantado através daqueles pulinhos em direção sabe-se lá de onde.
Até que ele começou a me esperar. Quando eu ia mais devagar, ele parava na cerca e me olhava. Eu chegava perto, e ele acelerava. Sinistro.
Quando tinha alguma árvore no meio do caminho dele, eu tinha uma sensação estranha. Parecia que ele estava pra dar o bote em mim. Ainda mais que a cerca era – óbviamente – acima da minha altura. Freaking me out!
Quando ele parava e me olhava, eu via o significado perfeito do “lobo em pele de cordeiro”. Fofo, mas acima da minha cabeça, não!!!! Ainda mais com esses olhos de esquilo me olhando!
Acho que tudo isso tem uma explicação. Esse meu pânico de bicho que pula nunca vai acabar….