O homem da nuvem de pó negra

A primeira vez que o vi, ele andava curvado, suas pernas eram tortas e seu rosto trazia vincos sofridos perto da boca, como se tivesse passado a vida beijando o ar. Seus olhos eram turvos de lágrimas corridas, caíam aos cantos como quem morre de amores e olhavam apenas para baixo.
Todas as outras vezes que o vi, ele caminhava da mesma maneira. O peso sórdido e negro de uma nuvem de poeira sobre as costas. E não é exagero. As costas curvadas carregavam uma nuvem de pó preto que o envolvia dos pés ao pescoço. Raramente eu conseguia ver qualquer pedaço do corpo dele que não fosse o rosto, em algumas ocasiões consegui ver suas mãos. Dedos finos, magros, as rugas muito nítidas pela foligem preta, as mãos sempre abertas como se estivessem sempre à entrega.
Não sei por quantos anos o vi caminhar do outro lado da rua, sempre na direção oposta. Suspeito que ele nunca tenha me visto, sequer tenha visto outro transeunte, ou árvore, ou pássaro que tenham respirado o mesmo ar que ele. O que me incomodava é que ninguém parecia lhe notar, ninguém que cruzasse a rua se importava em perguntar se precisava de ajuda com aquele peso todo, ninguém se interessava por onde ia, de onde vinha. Nem eu.
Por muitos anos cruzei com o homem da nuvem de pó negra e sequer parei. O mistério da sua vida me bastava. A sujeira, a maneira como o pó, sempre tão denso, pairava sobre ele e se locomovia junto, como um cachorrinho que abana o rabo seguindo o dono. Não era uma simples sujeira de quem não toma banho, era uma nuvem de pó. Cheia, negra, como  tempestade tropical, como se tivessem derrubado um barril de grafite sobre ele e o grafite pairasse no ar por magnetismo. Aquilo me perturbava, mas me bastava.
Fazia sol naquela manhã de quinta feira, deve ser muito quente embaixo da nuvem negra. Porém, hoje, havia um fato inédito. Uma moça de vestido azul e cabelo trançado conversava com o homem. Pegava em sua mão e sorria. Devia ter uns vinte e poucos anos e era tão bonita. Percebi, no entanto, que sempre que a moça pegava em sua mão, o rosto do homem clareava. Eu conseguia ver sua pele avermelhada, havia um brilho nos olhos, um esboço de sorriso. Não tinha mais que 35 anos, o homem da nuvem negra, embora eu tenha especulado uns 170 anos em algumas ocasiões.
Comecei a voltar no mesmo horário e todos os dias a moça dos cabelos trançados aparecia. Ele vinha dela. Quando caminhava de volta, voltava dela. Ela era seu ponto de partida. E ela sorria, dançava, tocava-lhe o rosto, segurava-lhe a mão, falava, falava, sorria, dançava. E quanto mais lhe tocava, mais ele brilhava. Seus olhos se abriam (eram castanhos), seu rosto dissipava a poeira cinzenta, havia um rubro em suas bochechas e ele sorria sorrisos curtos. Entretanto, depois de alguns encontros, comecei a perceber algo muito inusitado. Sempre que ela ia embora, a poeira do homem aumentava. Toda vez que ela se afastava sorrindo e mandando beijos com as mãos, um chumaço de pó negro se transferia das suas mãos e calmamente se fundia à sua nuvem de poeira. Ele então curvava as costas mais um pouco para distribuir melhor o peso. Seu semblante voltava a ser exatamente como eu conhecia: triste.

Aquele pó era pó de amor. A nuvem negra que o homem carregava era pó de amor! Eram pequenas partículas de paixão não correspondida, amor não dado, amor doído. Eram minúsculas migalhas do amor de alguém, migalhas de atenção quando convém. Grãos de pura entrega, de doação, de coração aberto. A nuvem negra eram os beijos no ar, as mãos sempre estendidas, a nuvem negra era tudo aquilo que o homem dava e não recebia. Meu Deus! O fardo que carregava era cheio de não-amor, do ego de outrém, da mão que segurava a sua para se sentir amada quando não queria amar. A nuvem negra que curvava as costas daquele homem era pó de desamor.

 

Pequenos devaneios de fim de ano

Vai ano, vem ano e os discursos desta época são sempre iguais. Cheios de  imperativos, faça isso, mude isso, seja aquilo. Já faz um tempo que descobri que nem mesmo eu tenho controle sobre os meus imperativos, quem dirá os outros.

Há alguns anos venho tentando lidar exatamente com essa falta de controle sobre a minha vida. De certo, tenho decisões a tomar todos os dias e isto, invariavelmente, me coloca as rédeas nas mãos. Porém, de sopetão – e é sempre de sopetão – algo acaba acontecendo e arrancando todas as suas raízes do chão, chacoalhando todas as suas folhas secas, te colocando para sentir o hálito quente da vida bem pertinho do seu nariz. Respira, o hálito quente da vida é o que mais te faz sentir vivo.
Eu não tenho controle sobre nada. E este texto, muito menos. Este texto sequer remete a qualquer controle espiritual. Tenho cada vez mais focado no tangível, não é fácil ser realista (mas a vida faz essas coisas com a gente). E como eu ia dizendo, eu não tenho controle sobre nada. E o dia em que você perceber isso, caro leitor (deixe-me fingir ser escritora), eu te prometo que doerá. Dói pra caralho perceber a falta de controle total e absoluta que temos perante nossos maiores acontecimentos. Seja pela ânsia da vida, pela morte, pela doença, a verdade é que os sopetões vêm como granadas. Chegam desconstruindo tudo o que conhecemos como “nosso”, chegam arrancando o ultimo fiapo de ar do peito. E dói, porque dói desconstruir. Dói ver a nossa realidade desmoronando com tudo o que tem dentro. Dói ver todos os nossos sonhos rasgados no chão, dói uma dor tão pungente imaginar um futuro – aquele que imaginamos a vida inteira – destruído. Não existe nada, não sobra nada, não tem mais praticamente nada nosso. Sobram apenas esse corpo já não tão saudável, essa mente perturbada, essa enorme falta de fé em tudo, sobra esse emocional já tão abalado. E é exatamente tudo isso que é preciso recolher do chão, caco por caco, pedaço por pedaço de fracasso, de insegurança, de medo, de tristeza profunda, de revolta. É preciso recolher todos os nossos cacos estragados.
Eu não sei como é o amanhã. Eu não sei se vai ser tempestade ou bonança. O que aprendi nesses últimos anos é que a vida é um eterno ciclo entre os dois.

Talvez você tenha pensado que este texto fosse terminar de uma maneira otimista, desculpe desapontá-lo. Eu disse que não sei como é o amanhã. Mas posso te presentear com alguns imperativos, se assim desejar. Então faça mais por você mesmo. Levante. Recolha todos os teus cacos do chão, o que sobrou de você é imprescindível para continuar. Chore quando tiver que chorar, choro engolido faz mal. Permita-se doer, mas procure as coisas leves. Procure incansavelmente a risada e aquele abraço que te acalenta. Procure as coisas que te lembram sempre quem você é e quem você foi – isso é a única coisa que sobra depois de um sopetão. E não tenha medo de doer, de fracassar, a vida é isso mesmo: um tombo, uma dança, um tombo, uma dança. Talvez a gente só precise saber incorporar os tombos de uma maneira mais leve à coreografia.

 

Que 2016 seja um tango bem bonito.

 

Quiçá

No dia em que te encontrei acabei me perdendo. Meus olhos, cegos em você, ainda não sabiam, mas eu me perdia um pouco a cada piscar seu. Meu peito, esse lugar tão conturbado, perdia todo o ar com todos os clichês que você dizia. Minhas pernas perdiam o controle dos músculos a cada vez que seus dedos tocavam minhas mãos. Você me cegava lentamente com esses teus sorrisos. 

Eu fui perdendo meus parâmetros, em apenas três horas eu perdi todos os meus pré conceitos, medos e verdades absolutas. Eu queria você pra mim é isso era o bastante. Você ali, nós dois, um bar inteiro que só serviu de cenário, aquela nossa mesa que de repente virou um mundo. Eu poderia morar a vida inteira naquele instante.

Já se passaram seis anos desde que eu me perdi em você. E em todo esse tempo, eu ainda não descobri como me encontrar. Somos areia movediça; quanto mais tentamos sair, mais nos afundamos em nós mesmos. 

Eu sei que você também se perdeu em mim em algum lugar dessa estrada torta. Eu sei que você também afunda. A única coisa que eu não sei é que gosto tem seu beijo na chuva ou como é o calor do teu abraço numa tarde de sofá. Com que cores você acorda ou como deve ser bonito passar uma manhã te vendo dormir. Eu não sei como é deitar na areia pra ver as estrelas contigo ou se você chora quando tem crise de gargalhadas. Não sei qual o cheiro da tua camisa ou o gosto do café que você faz. 

Quiçá um dia a gente possa continuar se perdendo um no outro, mas na mesma estrada. Quiçá um dia eu possa olhar lá dentro de você e desatar sem medo esse ‘eu te amo’ da garganta.

Amor no limbo

A verdade, no entanto, é que eu gosto muito de você. Mais do que deveria, mais do que poderia. Eu fantasio um pouco com a nossa história e é difícil. Difícil porque o nosso relacionamento existe num limbo entre os nossos paralelos e eu acabo me envolvendo e me perguntando até que ponto vale a pena ter você em mim por todos os minutos do dia, sem te ter de fato – e eu sei que valeria se toda essa importância fosse exatamente recíproca.

Amar no limbo é difícil. Porque não há o toque no rosto pra acalmar qualquer dúvida, não tem o abraço apertado pra sossegar o fim do dia, não traz o olhar que promete que a sua pele tem o gosto de mais ninguém. Amar no limbo não tem a fala leve na ponta do ombro depois do orgasmo, a risada boba que apaixona instantaneamente, não tem o prato preferido feito num domingo à tarde e nem o braço entrelaçado no sofá. Amar no limbo é triste porque você está sempre dividindo, se dividindo, tentando entender exatamente que lugar da prateleira teu amor ocupa. E se culpa. 

E a única certeza que tenho é que não há como assegurar o amor fora do limbo, mas pode-se contemplá-lo. Dá pra interpretá-lo no cheiro, no olhar, no som do riso. Fora do limbo, te prometo, é tudo diferente. 

Por enquanto, aqui dentro, a única coisa que tenho é o meu sentir. E te sinto por inteiro.

Receita para um 2015 mais feliz

Mude seus hábitos ruins. Um por um. Pense positivo. Faça o bem. Seja bom. Seja grato. Diminua o passo, a humanidade anda se movendo rápido demais. Pare para contemplar. Arrume tempo para investir em você mesmo, nunca se esqueça de você. Aprecie tudo e todos que estão contigo. Entenda que tudo tem um fim, a vida é cíclica. Faça um elogio, sorria para um desconhecido, diga algo bonito. Faça amigos. Seja gentil. Retribua gentileza. Pense no que você pode fazer para melhorar o mundo. Todo-santo-dia.

Feliz 2015!

Inexplicação

Eu já deixei de tentar entender. Já passei da fase em que repensava todos os nossos passos e analisava meticulosamente teus sentimentos por mim. Sabe, sempre fui muito de ponderar gostos e desgostos, apreço e desprezo. Sempre preferi analisar riscos e arcar com as consequências dos meus atos e, meu bem, meu coração sempre foi de vidro, embora bem vagabundo.
Não sei há quantos anos você está na minha vida; posso até parar alguns segundos para contá-los dedo a dedo, mas prefiro acreditar que desde sempre. Não entendo o motivo, não entendo tudo isso que nos une, mesmo quando estamos separados, mas não faço questão de entender. Foram anos sem contato e ainda assim – eu sei, você sabe – o pensamento ia e voltava. E quando você volta, eu sou pura inexplicação (inventei esta palavra para nos explicar).
A tua presença me faz bem, ainda que tua ausência tenha me rasgado o estômago e esmagado minhas entranhas com as mãos. Ainda que sua falta de amor tenha sido tão desertora comigo – mas o que não foi esta fase, senão apenas um aprendizado de nós dois, a exposição das nossas partes mais frágeis para que ainda continuássemos juntos? Tua presença me faz bem, isso basta. E sei que te faz bem também.
Estou feliz que tenha voltado. Que tenhamos entendido os desentendidos, embora ainda não faça a menor ideia de que lugar você ocupa em mim. Você é o meu melhor e o meu pior, você traz à tona todas as minhas facetas. Mas a diferença entre todos os outros é que nos piores momentos da minha vida, você sempre esteve ao meu lado. Segurando a minha mão e me lembrando que eu não sou esse poço de escuridão. Que minhas fases não me definem. E se isso não for amor eu juro que não sei mais o que é.

Desfecho

Tenho mania de desfechos, de começo-meio-fim. Tenho mania de me despedir e de dizer que amo como se fosse boa noite.
Costumava achar que essas manias estavam relacionadas ao fato de contar estórias, inventar enredos. Mas não. Minha mania de desfecho tem a ver com perdas.
Perdi pessoas e seus últimos suspiros. Não as vi indo embora, não previ partidas a tempo. Perdi o último adeus, perdi a última despedida, perdi o eu te amo engasgado em mim para sempre. A única coisa que disse é que eu voltaria amanhã; e o amanhã foi muito tarde.
Tenho pavor de que alguém vá embora sem saber o quanto é amado por mim. Tenho receio da dúvida, do coração angustiado sem entender claramente o significado de sua existência na minha vida. Tenho medo de que nunca saibam o quanto me mudaram, o quanto me inspiraram, o quanto me lapidaram com seus impactos.
Procuro sempre deixar um pedaço de mim em palavras, afinal, é o que de melhor tenho para oferecer. Então não se assuste se eu disser que amo cedo demais, se eu vomitar em versos tudo o que sinto, não se preocupe se eu for sempre tão coração, não me ache esquisita por nunca deixar conversas em aberto.
Eu aprendi na marra que é preciso deixar que a vida corra em seu ritmo. Eu não tenho expectativa nenhuma quando eu me despeço de alguém, nem ao menos espero que retribuam meu amor, que jorra líquido pelos meus poros. Mas, por favor, permita-me transbordar por todos os meus inteiros. Eu nunca soube aprisionar amores.
E gostaria muito que soubesse todas
as noites, quando coloca a cabeça no travesseiro, que meu amor está sempre contigo, todos os dias, até o nosso último adeus.

Mão no ombro

Hoje assisti à um super 8 de quando você era criança, acho que tinha uns seis anos. Teu olhar esvaziava a câmera, você sempre teve um dos olhares mais cheios que já vi. Havia nele aquele brilho teu, aquela esperança bruta de uma criança que acredita nas pessoas, que espera pelo que há de melhor, já que durante a infância o melhor está sempre por vir. Havia no fundo dos teus olhos escuros aquela ingenuidade leve, quase sorrindo pra mim, e me doeu tanto perceber que você ainda não fazia ideia do quanto se machucaria nos próximos vinte anos.
A vida nunca te foi branda. Durante teus próximos anos você armazenou fardos pesados demais para um ser humano. A vida te esmagou como a um pequeno inseto e eu nada pude fazer que não fosse observar como você reagiria e esperar teu melhor.
Você sempre foi meio fênix e independente do tombo, sempre se levantava por inteiro. Vez ou outra, embora desmoronando em pedaços, erguia-se ali, forte, esperando o próximo desafio, a próxima porrada. Continuava caminhando como um desses lendários guerreiros medievais que, com o peito cheio de flechas, ainda continuava em pé.
E eu sei que às vezes o dia em você morre cinza, teu corpo esfria como se nenhum abraço no mundo acalentasse. Eu sei que chora entrelaçando os joelhos de vez em quando, em um desejo quase idiota de voltar ao útero da tua mãe. Eu sei que o desespero escorre gelado sob o teu rosto noites adentro.
A tempestade não te dá muita trégua e a bonança é sempre breve. A vida testa tuas forças, teus limites, teu poder emocional. E eu te acho a pessoa mais forte do mundo, embora saiba que odeia ser forte o tempo todo e este é outro dos fardos que carrega.
Hoje eu só queria puxar esta criança que me olha a alma pelo vídeo e me sorri um sorriso torto, como se soubesse quem eu sou. Hoje eu queria puxar toda a tua ingenuidade em um abraço e acolher-te na minha imensidão. De onde eu te olho não existe dor, apenas admiração. Mas queria muito te colocar no colo e te dizer “minha criança, um dia suportará todas as dores do mundo e te prometo que estarei sempre contigo, chorando quando tiver que chorar, sorrindo quando tiver que sorrir. Serei sempre este peso leve no teu ombro direito, o peso da minha mão quando precisar de amor. Agora só te peço uma coisa: guarda esse brilho nos olhos. Não deixe que a vida endureça tuas esperanças no melhor, porque ainda há o melhor de ti. Guarda teu brilho para o futuro, criança, e acima de tudo, nunca perca essa profundidade abismal que você tem. Agora vai, levante. Seja forte e continue. This too shall pass.”