Mão no ombro

Hoje assisti à um super 8 de quando você era criança, acho que tinha uns seis anos. Teu olhar esvaziava a câmera, você sempre teve um dos olhares mais cheios que já vi. Havia nele aquele brilho teu, aquela esperança bruta de uma criança que acredita nas pessoas, que espera pelo que há de melhor, já que durante a infância o melhor está sempre por vir. Havia no fundo dos teus olhos escuros aquela ingenuidade leve, quase sorrindo pra mim, e me doeu tanto perceber que você ainda não fazia ideia do quanto se machucaria nos próximos vinte anos.
A vida nunca te foi branda. Durante teus próximos anos você armazenou fardos pesados demais para um ser humano. A vida te esmagou como a um pequeno inseto e eu nada pude fazer que não fosse observar como você reagiria e esperar teu melhor.
Você sempre foi meio fênix e independente do tombo, sempre se levantava por inteiro. Vez ou outra, embora desmoronando em pedaços, erguia-se ali, forte, esperando o próximo desafio, a próxima porrada. Continuava caminhando como um desses lendários guerreiros medievais que, com o peito cheio de flechas, ainda continuava em pé.
E eu sei que às vezes o dia em você morre cinza, teu corpo esfria como se nenhum abraço no mundo acalentasse. Eu sei que chora entrelaçando os joelhos de vez em quando, em um desejo quase idiota de voltar ao útero da tua mãe. Eu sei que o desespero escorre gelado sob o teu rosto noites adentro.
A tempestade não te dá muita trégua e a bonança é sempre breve. A vida testa tuas forças, teus limites, teu poder emocional. E eu te acho a pessoa mais forte do mundo, embora saiba que odeia ser forte o tempo todo e este é outro dos fardos que carrega.
Hoje eu só queria puxar esta criança que me olha a alma pelo vídeo e me sorri um sorriso torto, como se soubesse quem eu sou. Hoje eu queria puxar toda a tua ingenuidade em um abraço e acolher-te na minha imensidão. De onde eu te olho não existe dor, apenas admiração. Mas queria muito te colocar no colo e te dizer “minha criança, um dia suportará todas as dores do mundo e te prometo que estarei sempre contigo, chorando quando tiver que chorar, sorrindo quando tiver que sorrir. Serei sempre este peso leve no teu ombro direito, o peso da minha mão quando precisar de amor. Agora só te peço uma coisa: guarda esse brilho nos olhos. Não deixe que a vida endureça tuas esperanças no melhor, porque ainda há o melhor de ti. Guarda teu brilho para o futuro, criança, e acima de tudo, nunca perca essa profundidade abismal que você tem. Agora vai, levante. Seja forte e continue. This too shall pass.”

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2 comentários sobre “Mão no ombro

  1. Guilherme disse:

    Amo os seus textos, as suas palavras o modo como escreve…. Sempre me identifico, seja com o texto em si ou com alguma frase encravada nele!
    Ainda acho que seus posts deveriam virar um livro, daqueles que a gente lê uma página por dia, seja pra animar o dia ou despertar a alegria, que tal!? risos

    Continue escrevendo pois é sempre bom visitar seu blog em busca de coisas novas, idéias boas……
    Boa sorte e felicidades na vida!

  2. Roseli disse:

    Suas crônicas e seus textos dariam um belo de um livro, aqueles bem modernos, com ilustrações, colorido talvez… nada daquela coisa monótona dos livros de poesia!
    Beijos e adoro o blog

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