Noite de tempestade

Você sabia que eu viria. Você tinha certeza. Eu só queria dizer que senti arrepios na pele e meu estômago se encheu de um vazio atormentador. Eu senti meu coração bater e não estou acostumada com isso. Nunca havia sentido meu coração bater antes. As pernas tremiam, entrelaçadas, e quase que descontroladas. Sim, eu não tinha mais controle sobre nada. Não me sinto confortável sem o controle, mas naquele dia tudo fez sentido.
As gotas de chuva gelada me comiam o corpo. O escuro da noite escondia minhas sensações. O vento levou-me todos os sentidos e você apenas aproveitou para usá-los. Todos os meus sentidos. Você e esses olhos. Que ainda eram mais bonitos debaixo d´água.
Talvez eu apareça na próxima tempestade. Sou assim, forte e passageira. Deixe a porta encostada. E esteja molhado de chuva.

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Perdi um post

Perdi um post do mesmo jeito que perdi o  dente de alho. Olhei pro lado, sumiu.

08 de Setembro

É dia de estréia. É dia de cortar a faixinha!

É com muito orgulho que eu anuncio aos meus leitores a minha colaboração na revista digital “Mundo Mundano“.
A Mundo Mundano é um espaço para o debate de diversos temas, de forma contemporânea, através de crônicas, críticas e poesias de observadores e escritores mundanos. “Ela é feita pelo público para o público”.
Os mundanos se reúnem também em questões sociais, arrecadando livros para entidades carentes! E a revista impressa está prestes a ser lançada.

E é com muito orgulho que hoje anuncio a minha participação como Mundana. Entrem lá, naveguem e esperem pelo dia 08 de Setembro, com a abertura oficial com o texto “Você twitta como eu twitto?”
Sengundo texto agendado para 15 de Setembro, “Ela”. E sim, a revista terá crônicas inéditas minhas! Como a primeira!

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Raimunda

Disse achar estranho o nome Raimunda,  a portuguesa. “Que já vi Raimundos até a cantar, pois nunca Raimunda”. Como assim, portuguesa? Raimunda é uma das minhas personagens almodovariana preferidas! Raimunda era a bedel da escola, que gritava comigo só porque eu queria me esconder na hora em que tocava o sinal. Raimunda é a faxineira do dentista, que fala da vida toda da Cida,  do moço da padaria, das filhas da Meire. Como fala essa Raimunda.
Há ainda a Dona Raimunda, que lavava roupa pra fora e fazia salgadinhos pra vender. Trabalhadora que só, Dona Raimunda.
Tem também a Raimunda lá do Maranhão, que devolveu o bolsa-família porque a filha ia ganhar outro benefício, viu essa, portuguesa?  E a Raimunda da Rua Maria Firmina. Tem a Raimunda que veio lá de Pernambuco pra tentar a vida mió. E a Professora Raimunda do Piauí, que tomou posse na Academia de Letras do Médio Parnaíba. Tem a Raimunda que é dona daquele ponto na boca do lixo. E tem a Raimunda cearense, que chama todo mundo de égua. Ah, sim, e como não esquecer da Raimunda Quebradeira, que cata côco de babaçu lá na Amazônia! No Brasil tá cheio de Raimunda, portuguesa. Vai ver que é isto que você não entende. Que Raimunda é Brasileira.

God save the Queen

Repostando, pra frisar mesmo.

Especial para quem mora desses lados da Terra, ou para quem quiser se inteirar com a vida por aqui…

Você percebe que está definitivamente morando na Inglaterra quando:

– Coloca vinagre na batata frita;
– Sabe que crisps, chips e fries são coisas completamente diferentes;
– Não reclama mais do tempo;
– Se mata de rir com os programas de humor,
– Faz picnic ou churrasco no primeiro dia de verão e toma sol de roupa no parque;
– Anda na neve de guarda-chuva;
– Não fala com os seus vizinhos, ou melhor, nem sabe quem são;
– Come weetabix, shreddies ou porridge;
– Sente falta de banheira quando não tem, mesmo se você nunca teve uma no Brasil;
– Acha estranho cumprimentar alguém com beijo…
– Usa mais sua  bicicleta do que quando era criança;
– Já se acostumou com as teias de aranha nas janelas, e o barulho dos corvos e megpies;
– Tem cheddar na geladeira;
– Não tira mais fotos de patos;
– Sonha em inglês;
– Toma “tea” no tea break do trabalho, ou na escola. E com leite.
– Toma suco de laranja Tropicana e acha ótimo;
– Põe a “kettle on” quando chega alguém em casa (chaleira elétrica);
– Diz palavras como “fab” e “fantastic”;
– Chama alguém de mate e diz cheers ao invés de obrigado;
– Fala “ta-da” ou “toodieloo” ao invés de tchau;
– Convive bem com os poloneses, mas reclama dos “asians”.
– Compra feijão enlatado;
– Entende sotaques de Liverpool, Manchester, Escócia e Irlanda;
– Vai em praia de pedra sem reclamar;
– Anda de trem;
– Half a pint não faz mais efeito;

… to be continued…

A lata

Foi então que abri uma lata de Sprite, que deve ter aparecido na geladeira depois de alguma visita do marido à loja de conveniências. Enchi meio copo, pois raramente nessa vida consigo beber uma lata toda.
Com a lata meio cheia à minha frente, abri a gaveta de talheres e, sem hesitar por um segundo que fosse, peguei uma colherinha. Taquei-lhe o cabo na lata, como fazia minha avó. Se preserva o gás não sei, mas naquele momento parecia-me a coisa mais óbvia e certa a se fazer. Me acabei de rir com tamanho resquício do passado… eu que tenho ipod touch colocando uma colherinha dentro da lata! Mas que descabimento!
Me acabei de rir, mas não tive coragem de tirar a colherinha. Seria como renegar a imaculada sabedoria de minha avó.

Passou o Natal

Passou o Natal e eu fui embora. Determinadamente embora. Arrumei duas malas grandes, pesei-as na balança que dividiu meus segredos de menina. Caberia mais alguma coisa? Teria de caber o mundo naquelas malas, o meu mundo inteiro.
Era 2004, nada de mágico. O milênio havia mudado, o mundo continuava vivo, a guerra já tinha começado no Iraque. Tudo parecia perfeitamente igual depois do Natal, na vida de todo mundo no mundo tudo. Menos na minha.
No dia 26 à noite eu iria embora  forte como a Tsunami, que nem vi na televisão porque já morria de amor.
Fechei minhas malas com o mesmo gosto amargo que ainda sinto na boca toda vez que fecho minhas malas. Me despedi do meu cachorro, do meu travesseiro, do meu caderno de poemas e dos meus amigos. Os Cds e alguns livros haviam encontrado espaço para irem comigo, junto com alguns presentes, algumas fotos e cartas de boa sorte. Naquele dia todo o meu futuro mudaria, ou entraria na linha do destino, seja qual for a sua crença.
Eu tinha uma passagem de volta, o que deixava tudo mais excitante. Não seria para sempre, seria como uma experiência. Uma viagem. Um teste. A passagem de volta, caros amigos, vocês têm de entender que faz toda a diferença do mundo. O quarto intocado, deixado à minha maneira. O azul na parede, a escrivaninha do meu avô, tudo estaria ali, me desejando que voltasse em breve. Volte, logo. Sim, a passagem de volta faz toda a diferença. Como se você se agarrasse às suas raízes com toda a força das mãos e gritasse, vou até ali tentar e já volto. Espere por mim.
E fui. Deixei lágrimas no aeroporto de Guarulhos, ainda sinto o cheiro seco do aeroporto de Guarulhos. Entrei na fila virando-me de costas algumas vezes, mas estava feliz, como se fosse viajar e voltasse. Mais uma vez um longo vôo sozinha, e achei que seria o último sozinha. Um coração inteiro ia comigo, sonhos de uma adolescência tardia, uma mensagem no celular, te vejo amanhã, meu amor. Sim, eu o veria amanhã. Depois de longos três meses sem vê-lo, tentaríamos uma viagem juntos.
O vôo durou coisa de doze horas e não havia quem me fizesse dormir. Imaginava o cheiro da casa, a pintura descascada da parede, a cama de casal. Qual seria o meu café da manhã, que cor teria minha toalha, qual jornal eu leria? Pensava em tudo o que conhecia daquele lugar, a luz amarela à noite, o silêncio frio, o verde mais verde que já havia visto. Lembrava-me do sabor do chá com leite, do inverno que estremecia os ossos, da ponte vista da beira do rio, do calor de Londres. Meu coração se enchia quando pensava em Londres, em toda sua história de rei e rainha, em castelo de princesa, em Jack, o estripador. Em Oliver Twist. Amava Londres como ainda amo seu gosto, seu cheiro.
Olhando o mundo pela janela do avião ficava mais fácil deixar as coisas para trás. Tudo parecia pequeno perto do imenso amor que havia à frente. De todas as promessas ficava apenas uma, a de ter a certeza de ser feliz.
Foi apenas um ano, com férias no Brasil no meio. Com data para voltar ao meu mundo. Um ano maravilhoso, uma página colorida do meu livro, um acerto. Uma viagem que terminou com outra viagem para Barcelona. Um pedido de casamento que só eu e a estátua de Colombo ouvimos nas Las Ramblas, naquele final de tarde fria de Dezembro.
Eu não sabia, mas ali mudava toda a minha vida. O começo de um destino, ou a mudança de um futuro. Não sabia que palavras fariam parte de uma nova página, mas a certeza é de que seria a mais branca de todas, e isso me dava um certo medo.  Três anos depois, uma passagem só de ida, outro longo vôo sozinha. Uma coragem vicking e quase boba de desbravar o mundo com apenas uma arma: o amor.

O dia em que ele disse sim

Fazia tempo que ela falava em códigos e ele fingia não entender. Talvez não quisesse ou apenas não estivesse preparado, mas ainda assim gostava tanto dela que tudo aquilo até parecia fazer algum sentido.
Ela dizia que se davam tão bem, quase nunca brigavam por coisas banais, ela trabalhava, ele também. Por que não?
Ela morava com os pais, ele dividia um apartamento com três amigos. Considerava a vida de pizza fria, video game e cerveja no café da manhã uma prova de virilidade. Mas ele bem que gostava o suficiente dela e talvez até quisesse mudar.
Seus amigos foram contra, disseram que ele perderia a liberdade e que a vida sexual seria focada em datas comemorativas. As amigas dela acharam incrível, tinham um tiquinho de inveja e engoliam a dor de mudar a rotina de fofocas.
Um dia ele resolveu que sim, que se não estivesse preparado saberia logo no começo. Aceitou. Então alugaram um apartamento de um quarto juntos. E a primeira manhã acordando ao lado dela sem ter hora para acabar foi ensolarada.
De repente a escova de dentes rosa se juntou à azul no banheiro. O creme de barbear dividiu espaço fraternal com o creme anti-celulite. O armário abrigava gravatas discretas e sutiãs coloridos, na mais perfeita harmonia.
Ele não se importou em ter suas roupas cheirando a amaciante e suas meias enroladas em bolinhas. Ela não se importou em ter um cinzeiro na sala e poder assistir a novela enquanto ele cozinhava o melhor macarrão do mundo. Eles adoravam ir à loja de construção, escolheram juntos o papel de parede, pintaram de amarelo a parede da cozinha numa manhã de domingo.
Ele já entendia coisas como panela anti-aderente e o choro pré-menstrual. Ela já sabia o que era impedimento e  conhecia Kovalainen. Sex and The City disputava espaço com o Campeonato Brasileiro, a caixa de granola ficava ao lado do Sucrilhos. Ela fazia misto quente pra ele de manhã e ele preparava caipirinha para ela à noite.
O sexo foi como vinho. Talvez não tão constante quanto quando se encontravam no motel, mas havia melhorado em qualidade. Era intenso, e muito melhor que antes. E também imprevisível e previsível. Nas noites de sexta e sábado ou enquanto o jantar cozinhava.
Ele conhecia o cheiro de acetona e sabia qual lingerie ela usava até mesmo quando iam ao mercado. Sabia que ela ficava linda com aquele vestido vermelho, mas que ficava ainda mais bonita quando acordava. Ela conhecia todos os olhares e sorrisos secretos dele, sabia que ele odiava samba-canção e usava hidratante no rosto.
Ele roubava o travesseiro dela à noite e ela falava até ele adormecer. Eles conversavam por horas, faziam guerra de cócegas, riam do arroz queimado e confessavam segredos. Eram melhores amigos.
Algumas coisas continuavam imutáveis, porém. Banho juntos, tudo bem, mas outras coisas dignas de banheiro pediam  porta fechada. Gases também eram educadamente despejados quando o outro não estava por perto, e o aromatizador de ambiente era amigo dos dois. Hálito de cabo de guarda chuva de manhã era perdoável, mas pular banho, não. Existem coisas que a intimidade destrói mesmo. Intimidade é uma merda. Você sabe que o ilusionista não levita, mas não precisa aprender o truque, porque perde a graça. E a magia e o encantamento têm sempre que continuar. Afinal de contas o que todo mundo quer mesmo é era uma vez e foram felizes para sempre.

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