Passou o Natal e eu fui embora. Determinadamente embora. Arrumei duas malas grandes, pesei-as na balança que dividiu meus segredos de menina. Caberia mais alguma coisa? Teria de caber o mundo naquelas malas, o meu mundo inteiro.
Era 2004, nada de mágico. O milênio havia mudado, o mundo continuava vivo, a guerra já tinha começado no Iraque. Tudo parecia perfeitamente igual depois do Natal, na vida de todo mundo no mundo tudo. Menos na minha.
No dia 26 à noite eu iria embora forte como a Tsunami, que nem vi na televisão porque já morria de amor.
Fechei minhas malas com o mesmo gosto amargo que ainda sinto na boca toda vez que fecho minhas malas. Me despedi do meu cachorro, do meu travesseiro, do meu caderno de poemas e dos meus amigos. Os Cds e alguns livros haviam encontrado espaço para irem comigo, junto com alguns presentes, algumas fotos e cartas de boa sorte. Naquele dia todo o meu futuro mudaria, ou entraria na linha do destino, seja qual for a sua crença.
Eu tinha uma passagem de volta, o que deixava tudo mais excitante. Não seria para sempre, seria como uma experiência. Uma viagem. Um teste. A passagem de volta, caros amigos, vocês têm de entender que faz toda a diferença do mundo. O quarto intocado, deixado à minha maneira. O azul na parede, a escrivaninha do meu avô, tudo estaria ali, me desejando que voltasse em breve. Volte, logo. Sim, a passagem de volta faz toda a diferença. Como se você se agarrasse às suas raízes com toda a força das mãos e gritasse, vou até ali tentar e já volto. Espere por mim.
E fui. Deixei lágrimas no aeroporto de Guarulhos, ainda sinto o cheiro seco do aeroporto de Guarulhos. Entrei na fila virando-me de costas algumas vezes, mas estava feliz, como se fosse viajar e voltasse. Mais uma vez um longo vôo sozinha, e achei que seria o último sozinha. Um coração inteiro ia comigo, sonhos de uma adolescência tardia, uma mensagem no celular, te vejo amanhã, meu amor. Sim, eu o veria amanhã. Depois de longos três meses sem vê-lo, tentaríamos uma viagem juntos.
O vôo durou coisa de doze horas e não havia quem me fizesse dormir. Imaginava o cheiro da casa, a pintura descascada da parede, a cama de casal. Qual seria o meu café da manhã, que cor teria minha toalha, qual jornal eu leria? Pensava em tudo o que conhecia daquele lugar, a luz amarela à noite, o silêncio frio, o verde mais verde que já havia visto. Lembrava-me do sabor do chá com leite, do inverno que estremecia os ossos, da ponte vista da beira do rio, do calor de Londres. Meu coração se enchia quando pensava em Londres, em toda sua história de rei e rainha, em castelo de princesa, em Jack, o estripador. Em Oliver Twist. Amava Londres como ainda amo seu gosto, seu cheiro.
Olhando o mundo pela janela do avião ficava mais fácil deixar as coisas para trás. Tudo parecia pequeno perto do imenso amor que havia à frente. De todas as promessas ficava apenas uma, a de ter a certeza de ser feliz.
Foi apenas um ano, com férias no Brasil no meio. Com data para voltar ao meu mundo. Um ano maravilhoso, uma página colorida do meu livro, um acerto. Uma viagem que terminou com outra viagem para Barcelona. Um pedido de casamento que só eu e a estátua de Colombo ouvimos nas Las Ramblas, naquele final de tarde fria de Dezembro.
Eu não sabia, mas ali mudava toda a minha vida. O começo de um destino, ou a mudança de um futuro. Não sabia que palavras fariam parte de uma nova página, mas a certeza é de que seria a mais branca de todas, e isso me dava um certo medo. Três anos depois, uma passagem só de ida, outro longo vôo sozinha. Uma coragem vicking e quase boba de desbravar o mundo com apenas uma arma: o amor.