O dia em que ele disse sim

Fazia tempo que ela falava em códigos e ele fingia não entender. Talvez não quisesse ou apenas não estivesse preparado, mas ainda assim gostava tanto dela que tudo aquilo até parecia fazer algum sentido.
Ela dizia que se davam tão bem, quase nunca brigavam por coisas banais, ela trabalhava, ele também. Por que não?
Ela morava com os pais, ele dividia um apartamento com três amigos. Considerava a vida de pizza fria, video game e cerveja no café da manhã uma prova de virilidade. Mas ele bem que gostava o suficiente dela e talvez até quisesse mudar.
Seus amigos foram contra, disseram que ele perderia a liberdade e que a vida sexual seria focada em datas comemorativas. As amigas dela acharam incrível, tinham um tiquinho de inveja e engoliam a dor de mudar a rotina de fofocas.
Um dia ele resolveu que sim, que se não estivesse preparado saberia logo no começo. Aceitou. Então alugaram um apartamento de um quarto juntos. E a primeira manhã acordando ao lado dela sem ter hora para acabar foi ensolarada.
De repente a escova de dentes rosa se juntou à azul no banheiro. O creme de barbear dividiu espaço fraternal com o creme anti-celulite. O armário abrigava gravatas discretas e sutiãs coloridos, na mais perfeita harmonia.
Ele não se importou em ter suas roupas cheirando a amaciante e suas meias enroladas em bolinhas. Ela não se importou em ter um cinzeiro na sala e poder assistir a novela enquanto ele cozinhava o melhor macarrão do mundo. Eles adoravam ir à loja de construção, escolheram juntos o papel de parede, pintaram de amarelo a parede da cozinha numa manhã de domingo.
Ele já entendia coisas como panela anti-aderente e o choro pré-menstrual. Ela já sabia o que era impedimento e  conhecia Kovalainen. Sex and The City disputava espaço com o Campeonato Brasileiro, a caixa de granola ficava ao lado do Sucrilhos. Ela fazia misto quente pra ele de manhã e ele preparava caipirinha para ela à noite.
O sexo foi como vinho. Talvez não tão constante quanto quando se encontravam no motel, mas havia melhorado em qualidade. Era intenso, e muito melhor que antes. E também imprevisível e previsível. Nas noites de sexta e sábado ou enquanto o jantar cozinhava.
Ele conhecia o cheiro de acetona e sabia qual lingerie ela usava até mesmo quando iam ao mercado. Sabia que ela ficava linda com aquele vestido vermelho, mas que ficava ainda mais bonita quando acordava. Ela conhecia todos os olhares e sorrisos secretos dele, sabia que ele odiava samba-canção e usava hidratante no rosto.
Ele roubava o travesseiro dela à noite e ela falava até ele adormecer. Eles conversavam por horas, faziam guerra de cócegas, riam do arroz queimado e confessavam segredos. Eram melhores amigos.
Algumas coisas continuavam imutáveis, porém. Banho juntos, tudo bem, mas outras coisas dignas de banheiro pediam  porta fechada. Gases também eram educadamente despejados quando o outro não estava por perto, e o aromatizador de ambiente era amigo dos dois. Hálito de cabo de guarda chuva de manhã era perdoável, mas pular banho, não. Existem coisas que a intimidade destrói mesmo. Intimidade é uma merda. Você sabe que o ilusionista não levita, mas não precisa aprender o truque, porque perde a graça. E a magia e o encantamento têm sempre que continuar. Afinal de contas o que todo mundo quer mesmo é era uma vez e foram felizes para sempre.

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