Real

A única vez em que você me disse que não merece meu amor, ainda martela no meu ouvido. Acho que nunca tive tanta raiva de uma frase solta, dita sem pensar no meio de uma tempestade.
Porque foi por esse amor que viramos o mundo do avesso, foi nesse amor que investi a minha vida. E se me diz que sou forte, te digo ainda mais: que é mais forte do que imagina. Que somos fortes juntos. E tudo o que tem feito eu tenho visto de rabo de olho e só me faz crescer por dentro.
Que você é a coisa mais linda que já me aconteceu e a nossa história ainda inspira um mundo inteiro. Que hoje eu não acredito mais em parasempres, mas ainda acredito no amor. Ainda acredito em nós. E tenho acreditado através de você.
Ainda não sei exatamente que rumo tudo isso vai levar. Mas se antes eu era forte sozinha e tinha que suportar a Europa nos meus ombros, hoje divido a força contigo. E é tão mais fácil.
Que ainda somos a história mais bonita e você… você é a minha realidade nua e crua, sem lapidações de ilusão. Real.

Neva

Começou a nevar forte lá fora e ele:

– Iiiih, se continuar assim não vou trabalhar amanhã. Yaaaaay! 🙂
– Iiih, se continuar assim eu vou trabalhar afundando em neve. Humpf. :S
– Ah, pelo menos você testa suas galochas novas!!!
– Yay.

Morar no centro e trabalhar no centro é uma bosta em dia de neve. Só a gente “pode” se locomover.

Let it snow, let it snow, let it snow.

Passado em papel-presente

Quando você só queria que algumas coisas voltassem a ser como eram antes.
Mas, para isso, seria necessário modificar a lei da vida, seria preciso desenlatar passados em forma de presentes. E mais do que isso: seria imprescindível envolver pessoas. E quando se envolve pessoas, nada acontece do jeito que deveria, que gostaria, que poderia.
Para as coisas voltarem a ser como antes, precisaria me livrar das pessoas. O grande problema é que se me der o passado embrulhado em papel presente, sem as pessoas que existiam nele, não vai fazer sentido nenhum.
Então é necessário trazer as pessoas de volta.
As emoções de volta.
O que acontecia, de volta.
E isso não existe. Isso é invenção da minha cabeça.

Frag-mentos

Talvez ela fosse exatamente como eu. Ou não. Talvez dividíssemos apenas uma coisa em comum. Ou não.

***
Ela era bonitinha, interessantinha e todas essas outras coisas que todas nós podemos ser. Mas diziam que tinha um auto-controle invejável. E, para ele, isso a diferenciava de todo mundo; inclusive de mim, que sou louca, ciumenta, confusa e não controlo nem mesmo meu cabelo.

***

E ouso dizer que estou bem assim, tô numa boa assim. Me conheço melhor que qualquer outra pessoa no mundo e, hoje em dia, isso é uma vantagem para poucos. Toda essa loucura minha é meu não-muro, meu não-limite, meu não-rótulo. Não sei lidar com o medíocre, não sei me atar.
Não tenho meio-termo, diz-que-diz, não-me-toques. Comigo é simples assim: ou vicia ou bebe leite.

Passarinho

Encontrei um banco vazio no meio do parque e me sentei. Havia uma menininha lendo um livro ao meu lado, enquanto todas as outras crianças corriam para brincar. Eu, então, resolvi perguntar:
– Por que você não vai brincar com as outras crianças também?
– Ainda não terminei de ler meu livro… Por que você não vai brincar com os outros adultos?
– É que adultos são pessoas. E pessoas decepcionam.
E então a menina fechou o livro, colocou sua pequena mão sobre a minha perna e disse olhando fundo nos meus olhos:
– Não é verdade que as pessoas te decepcionam. É que você é quem espera demais delas. Você não aprendeu a ser passarinho.
E antes que eu voltasse a perguntar indignada alguma outra coisa, ela continuou:
– Você tem que deixar as pessoas serem passarinhos, cultivar uma casinha com bastante alpiste dentro de você e deixar que elas venham. Mas tem que saber deixar que elas voem também. E não adianta nada deixar os outros serem passarinhos se você não se permitir ser um também. Tem que aprender a voar, a ir e vir.
Ela deixou o livro sobre o banco e saiu correndo para brincar com as outras crianças. E o que eu posso dizer da menina é que talvez tenha sido o ser humano mais sábio que já sentou ao meu lado.

Ela tinha mania

Ela tinha mania de idealizar. Mas pior do que isso era sua imaginação, isso sim a levava para um abismo que não existe. Era como estar sob efeito de ópio, e talvez seja essa a sensação que a faz viciar em tudo o que idealiza e imagina.  Lá dentro,  todo mundo queria o que ela quisesse que quisessem.
O problema é que o que pulsava o sangue acontecia dentro da cabeça dela. A vida era dentro da cabeça dela. Você era dentro da cabeça dela.
E ela tem saudade do que nunca aconteceu, só que não sabe muito bem o que fazer com saudades.

Pedacinho

É que tenho um pedacinho muito especial para alguém, e queria que fosse um pedação, mas não pode, e esse alguém não quer, talvez por medo de tanta responsabilidade – essa de cuidar de corações machucados, e eu não sei fazer vontade de pedacinhos virarem pedacinhos ainda menores, porque tenho essa mania de grandeza e escuta aqui dentro do meu peito, você, não sei mais voltar atrás.

A tarde é vermelha

A tarde é vermelha. E o frio rasga a pele.
Quase todos os dias olho para o céu deste lugar e tenho um segundo de lucidez dentro da loucura, dentro da rotina. Meu Deus, estou do outro lado do mundo, olha. Olha como a grama é verde e o sol não esquenta. Olha o esquilo subindo a árvore, o falcão sobrevoando seu jardim. Olha as folhas secas em tons de fogo por todos os lados, anunciando a partida do outono. Olha os galhos secos que dão boas vindas à fase mais difícil do hemisfério norte. Meu Deus, estou do outro lado do mundo. E a tarde é vermelha. As cores são diferentes. O frio me rasga o rosto. E eu sorrio. Sorrio porque nem sempre me dou conta de onde estou. Home is not where you were born, but where you belong.


A loucura da lucidez da rotina. A rotina da lucidez da loucura. Creio que caminhamos demais olhando para a terra. E nos esquecemos do quanto o céu pode nos mostrar onde estamos.