Julia

Chieveley, 10 de Março de 2016.

Julia,

Demorei um pouco para escrever a carta que te prometi, eu sei. Acredito que  tenha demorado demais porque uma parte minha talvez só se dê conta da sua chegada quando olhar nos teus olhos e me desdobrar em uma longa crise de choro.

Eu moro longe, Julia. Um dia vou te levar para colocar os pés no mar comigo, apontar lá para o infinito, onde moram todos os sonhos de criança, e dizer – é lá que a tia mora, pequena. E você então me olhará com esses seus olhos grandes, talvez verdes, talvez castanhos,mas definitivamente sedentos por descobertas e me pedirá para te contar como fui morar lá atrás da onda.

Eu sempre soube que o meu primeiro arrependimento de ter partido viria quando você fosse anunciada. Eu sempre soube. Porque nesses últimos oito anos eu chorei muitas vezes em silêncio imaginando como seria duro não te ver crescer, não te ver chutar a barriga da sua mãe, não acompanhar teus primeiros passos. E eu ainda não sei se tudo isso se aquietará no meu coração um dia porque, neste momento, às 15h12 de uma quinta feira, meu coração é apenas ansiedade em te ver.

Você ainda não sabe, mas você é um sopro de esperança na minha vida também. Eu te escrevo esta carta poucos dias antes de mais uma vez ouvir alguém decidir por mim se um dia poderei ser mãe, e olha, minha querida, os últimos anos não têm sido fáceis. Entretanto, desde que você chegou, ainda que eu não possa gerar ou parir, ainda que não me deixem adotar, eu tenho uma esperança. Eu tenho uma sobrinha! Metade da minha outra metade, de quem eu cuidei e ainda cuido como se fosse um pequeno bibelot encantado. Eu sei que você já vai nascer amando tudo sobre a sua mãe, mas um dia ainda quero que aprenda cada centímetro desse amor. E quero que aprenda o amor da sua avó e se orgulhe de ser neta dela, da mesma maneira que me orgulho de ser sua filha.

Julia, eu não vejo a hora de ver o teu sorriso e o brilho assustado dos teus olhos enquanto te conto uma história. Eu não vejo a hora de te ensinar algumas coisinhas simples da vida e outras tantas de imensa importância. Um dia te mostrarei meus discos e te ensinarei a cantar Beatles e Chico. Um dia te darei os livros que eram do teu avô e te contarei algumas coisas sobre ele. Falaremos sobre os meus escritores prediletos e então você descobrirá que eu também escrevo, assim como seu avô também escrevia. Eu farei bolinhos de chuva numa tarde cinzenta com a receita da bisa e descreverei tudo sobre os lugares onde você nunca esteve. Um dia, quando passarmos de mãos dadas por uma roseira, eu te contarei um pouco sobre o biso e o quanto ele gostava de rosas, cachaça e mandioca frita.  Eu te contarei até sobre a fazenda de café, do jeitinho que ele fazia comigo, com você deitada no meu colo me pedindo pra repetir de novo e de novo e de novo.

Em pouco menos de um mês você estará nos meus braços e torço para que me espere chegar. Em pouco menos de um mês, você mudará a vida de muita gente. E eu não vejo a hora de poder te ajudar a expandir, de possibilitar que você inunde o mundo inteiro e seja grande. Que você seja uma criança alegre, cheia de vida e tenha sede de conhecimento. Que se torne uma adolescente brilhante, inteligente, sagaz, sensata, mas que saiba a hora de cruzar os limites e aproveite toda a sua juventude. Que você seja uma mulher forte, inspiradora, decidida e consciente de que a humanidade ainda tem muito a evoluir.
Essa época em que você chega anda meio sombria, Julia. A gente caminha para trás ou para frente, só o tempo poderá dizer. Mas eu te garanto que ainda existe um bocado de pessoas incríveis por aqui  e que a vida vale a pena, principalmente quando existe amor e gentileza – portanto, seja sempre gentil e amável. E, quem sabe, você tenha esse desejo louco, jovem e faminto de mudar o mundo, e que o mude, e que transcenda, e que seja um ser humano admirável.

Quanto a mim, minha pequena Julia, prometo estar contigo em todos os dias das nossas vidas, ainda que longe. Prometo ser o braço sempre aberto quando precisar de um refúgio, o colo quentinho quando precisar desabafar. Prometo ser teus conselhos e guardar todos os teus segredos. Prometo virar o mundo de cabeça pra baixo só pra te ver gargalhar. Prometo te fazer amar todos os bichos – terei sempre bichos, e desafiar a física e diminuir essa distância tola entre a gente. E terei sempre presentes e um bom e velho punhado de histórias pra te contar.

 

Com todo amor que me transborda,

 Dinda

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