O casamento, como ele é

Hoje faz oito anos que pensei, meu Deus, quando eu entrar neste carro de novo estarei casada. Uma vida inteira passou pela minha cabeça naquele momento em que minha mãe dirigia pela Faria Lima até chegar ao cartório. Nós dois no banco de trás, prontos para mudarmos tudo o que conhecíamos. Foram longos quatro anos de namoro à distância e uma burocracia sem fim para chegarmos àquele 3 de Março. Como é complicado casar com estrangeiro. Foi tão demorado que ironizamos no mesmo dia que jamais nos separarmos, já que a burocracia provavelmente seria a mesma. 

Aquele 3 de Março teve o céu mais azul e o sol mais morno dos meus dias. A sombra das figueiras do jardim do Museu da Casa Brasileira guardaram meus melhores abraços, votos de felicidade e brindes. 

Teve eclipse da lua à noite e nos debruçamos na janela do hotel para apreciá-lo, pedimos sanduíche com champagne e assistimos ao filme do Superman na TV. Deitamos naquela enorme cama sem saber o que viria pela frente, bêbados e cansados, projetamos um futuro perfeito. 

Mal sabia eu que ali começaria uma nova era da minha vida, uma mudança de país inacreditavelmente mais difícil do que eu idealizava, uma reviravolta de carreira conquistada com muita luta, orgulho engolido à seco, noites mal dormidas e uma vida que hoje, apenas hoje, começa a dar algum fruto. Eu vesti uniformes, descobri uma veia de vendedora em mim que desconhecia, trabalhei anos em pé rodando os turnos mais loucos para ganhar cinco libras por hora. Eu varri chãos, arrumei prateleiras, eu limpei vitrines, imprimi notas fiscais, entreguei milhares de chaves de quartos, aprendi a dobrar calcinhas e sutiã profissionalmente, estudei sobre cafés, chás e claridade de diamantes. Eu fiz tudo o que era possível para um imigrante recém chegado em um país com uma grave recessão econômica. E deste passado eu não tenho a menor vergonha, afinal de contas, ele me tornou um ser humano muito melhor e desenvolveu habilidades em mim que eu nem sabia que existiam. Hoje tenho uma carreira em ascenção e duas das maiores multinacionais do mundo na bagagem.

Engana-se quem pensa que casar resolve. Não resolve nada, muito pelo contrário. Casamento testa todos os seus limites. Casamento não ameniza, ele expõe. Casamento não assegura, ele desafia.

É preciso engolir muito sapo para ficar casado muito tempo, dizia minha avó. Ninguém vive só de amor e de cabana, também dizia ela. E, meu Deus, como ela tinha razão. 

Aprendi muito nesses oito anos. Aprendi a ser mais paciente e não esperar que as pessoas tenham as mesmas atitudes que eu teria. Aprendi a respeitar a individualidade de cada um, ainda que sejamos um único núcleo. Aprendi que nem todos os nossos sonhos se transformam em realidade – mesmo, mas que é preciso muito trabalho para se chegar ao menos um pouco perto deles. Aprendi a dar valor ao tempo e esperar que a vida flua no seu ritmo, tem horas em que não adianta espernear, a vida não vai acontecer como você quer. Aprendi que família construída é o que a gente quiser que ela seja, um monte de bichos, por exemplo. Aprendi que crises financeiras podem destruir todos os laços, que todas as crises podem ficar ainda piores e que nem sempre estou no controle de tudo. E que tudo bem se eu não der conta de tudo, se o fardo for pesado demais. 

Mas, acima de tudo, durante esses oito anos eu descobri o amor de verdade. Que é tão diferente da paixão que faz as pernas tremerem e o estômago gelar. O amor é essa paz morna dentro do peito. É a certeza de que alguém estará contigo, no matter what. É ter quem te cuide como a sua mãe te cuidava. É ter quem se importe como só família se importa. É ter quem te mime como os seus avós o fizeram. É torcer por todos os seus projetos como só teus melhores amigos torcem. É ter um pouco de todo mundo com você sempre.

O amor é o que eu vi quando você não saiu do meu lado um minuto durante as piores crises da minha doença crônica. Amor é o que você fez por mim quando fiquei semanas sem conseguir andar. Quando você decidiu ficar comigo mesmo sabendo que eu corria o risco de perder os ovários aos 24 anos. Amor é a sua mão na minha durante todos esses anos de diagnósticos.

Amor é quando você me pega no centro à pé pra me acompanhar pra casa, só para eu não andar sozinha à noite. Quando me cobre quando estou com frio. É aquele dia em que eu saí pra trabalhar, começou a chover e você veio de bicicleta me encontrar pra trazer meu guarda-chuva. 

Amor é chegar em casa e te ver todo sujo de molho de tomate, lendo Jamie Oliver só porque eu contei que os maridos das minhas amigas sabiam cozinhar. Amor é cada abraço que você me dá quando eu choro na consulta médica. É cada “vai ficar tudo bem, não fica triste”. Amor é cada palavra de incentivo e orgulho por tudo o que eu faço. 

Foram oito anos de altos e baixos mas somente o amor é que faz os baixos valerem a pena. Não somos perfeitos, aliás estamos bem longe disso. Só nós sabemos quantas vezes pensamos em desistir, quantas vezes nos perguntamos se ainda valia a pena. E sempre tem algo para nos empurrar para frente. Se em 2007 foi um eclipse lunar, em 2012 foi uma chuva de meteoros. E aqui estamos: superamos a crise dos sete e vamos nos fortalecendo cada dia mais, juntos. 

Meu melhor amigo, minha melhor companhia, meu maior amor, me dê a mão pois temos nossa maior decisão pra tomar a partir de agora. E ela é linda, cheia de pedaços brutos a serem lapidados, como somos nós. E que sejamos imensamente felizes enquanto for para sempre.

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