Domingos

Domingo. Acordo cedo na parte de cima do beliche, minha irmã só levanta da parte debaixo com leite quente com Nescau. Mamãe arruma uma mala pra gente ir pro clube, faz sol e é tão bom. Vamos de parati com adesivo do cachorrinho da TKTS no vidro de trás, ouvindo qualquer música na Transamérica. O dia está perfeito e um mergulho na piscina do clube parece extremamente convidativo, depois de uma partida de vôlei com o pessoal do nosso time.
Mamãe passa Sundown 30 no meu rosto, ainda sinto o gosto. Seu Zé, traz dois guaranás aqui, por favor! Sem abelhas, mãe. Ainda me lembro de molhar os pés no lava-pés da piscina pra tirar a sujeira, morria de nojo daquela água.
Hora de ir embora, vovó liga. Entramos no carro mais uma vez e mamãe dirige até a casa da vovó. Cheiro de frango assado, domingo é típico e tem macarrão. É a nossa lei, a nossa tradição.
Vovô espera sentado na garagem, com um copo de caipirinha na mão. “Aperitivo”, diz ele. E então deixa minha mãe guardar o carro lá dentro, e a gente resmunga um pouco, porque com dois carros na garagem não dá pra jogar futebol. Vovô me leva pra ver as rosas que brotaram da roseira, o alecrim que cresce livre na horta e os limões que começam a nascer do limoeiro. Subimos no quintal que fica lá em cima e vovô colhe umas pitangas pra mim, ele sabe que eu adoro.
Antes disso havia ido ao Seasa e, como sempre, tinha comprado manga pra mim, abacate pra minha irmã. Sempre assim.
Passo pela cozinha, vovó faz nhoque caseiro. A mesa está toda enfarinhada e várias minhoquinhas de massa deitadas horizontalmente. Atacamos um nhoque cru, porque só gosto de nhoque cru. E por isso tem spaghetti pra mim, só pra mim.
Eu e minha irmã abrimos o armário da cozinha e pegamos duas xícaras de pirex marrom. A garrafa térmica de café tá quentinha, a gente aperta algumas vezes e bebe até acabar.
A TV, na sala de televisão, passa alguma coisa como “A família Dinossauro”, e vovô assiste comendo amendoins e mandioca frita. “Aperitivo”, diz ele.
Vovó grita – e me lembro tanto deste grito: “Kariiiina, Mileeena, vêm almoçar”. E nos sentamos à mesa, com nhoque e frango assado. Com vinho tinto com guaraná pra nós duas, porque é assim que é, é a nossa tradição italiana. Com frutas de sobremesa.
Mas a gente é criança e não desiste de caçar um chocolate, e abre o armário de gostosuras do vovô, e tá sempre cheio, porque ele sabia que a gente viria. Bis.
Vovô e vovó sobem para uma cochilada depois do almoço. Mamãe lava louça, eu e Karina brigamos pra ver quem guarda, porque é melhor que enxugar. As panelas no armário de ferro, o que a gente não alcança deixa em cima da mesa.
Subimos no escritório do vovô, que tinha a escrivaninha dos anos 30, que hoje é minha e me lembra tanto ele. Tem muitos livros nossos ali. Pegamos alguns e descemos pra sala de TV, pra assistir qualquer coisa dessas da sessão da tarde.
Depois que vovô e vovó acordam, podemos andar de bicicleta no quarteirão. Mais tarde vovô vai fazer pizza e a gente volta pra casa. Tem que dormir cedo, amanhã tem escola, mamãe trabalha. “Deus ajuda quem cedo madruga”, vovó repetiria inúmeras vezes.


Que saudade que eu tenho disso.
Se eu pudesse, ao menos uma vez, ter outro domingo desses na minha vida. :S

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