Breu

– Espia, espia só. – disse ele, enquanto estendia as mãos em formato de concha na minha direção. Era tarde da noite, era interior de Minas Gerais e eu tinha certeza de que havia dormido, mas de repente me encontrava ali, no meio do mato, com aquele gurizinho pardo me estendendo as mãos em concha.
– Vai, espia só! Não machuca! – ele insistiu.
Foi então que me passou as mãos, como naquelas brincadeiras de passa anel, e me entregou o que quer que tenha sido. Não sabia o que sentir, afinal de contas, nem deveria estar acordada. Olhava em minha volta e só tinha um mato desses ralos, muitas flores, as montanhas em volta, tudo devidamente clareado pela lua cheia amarela, tão amarela que parecia fictícia. Os olhos de jabuticaba do guri pardo refletiam a lua e ficavam amarelos também, assim como seu sorriso de dentes tortos e avantajados. Pés sujos, roupas rasgadas. Pensei que fosse índio, ou pelo menos descendente, tinha os olhos de jabuticaba puxados e nariz de negro. Como chamavam mesmo? Aprendi na escola e achei que nunca falaria essa palavra um dia: cafuzo. Confusa. Que diabos estava eu fazendo naquele breu iluminado por uma lua amarela, com um cafuzinho me passando anel?
Insistiu que eu abrisse uma brechinha só da minha mão. Não sentia nada dentro delas, nem cócegas. Também não tinha medo. Os olhos do menino brilhavam como se aquilo fosse coisa especial, não coisa de dar medo.
Abri uma brecha entre os dedos e olhei por eles. Não vi nada.
– Se tu não acreditar, não vai ver mesmo. Tem que ter fé na escuridão.
Aquelas palavras ecoavam na minha mente de uma forma muito louca, será que eu tinha bebido? Será que eu estava dopada, ou era tudo um sonho? Eu tinha que ter fé na escuridão e isso me fazia muito sentido, mas aquele cenário todo? E foi então que eu encontrei o momento, porque a gente sempre encontra o momento em que deve deixar de relutar e apenas ir sendo com as coisas, e deixar as coisas acontecerem. E foi nesse momento, quando ele me pediu pra ter fé na escuridão, que eu me deixei ir e parei de questionar. Já não importava mais o porque de estar ali, já não importavam mais os meios. Desisti de entender e fechei os olhos. Senti o cheiro de mato da noite, uma leve brisa de dama-da-noite soprava de algum lugar. O guri pardo cheirava a terra, terra molhada, como se tivesse brotado dali naquele instante. Ele sorria o sorriso mais lindo que tinha pra me dar, e eu – eu não tinha percebido, mas mesmo com a lua amarela, podia-se ver um milhão de estrelas. E por alguns instantes ficamos ali, eu e o guri, agachados e olhando e céu. Eu com a mão fechada em concha, guardando a mais preciosa coisa que não sabia.
E então ele me olhou de novo, desta vez sereno, com um sorriso leve e um olhar cheio.
– Agora é a hora. Vai. Acredita.
E eu então abri a mão bem devagarinho e, no começo, não havia nada. Depois foi surgindo um raio de luz verde, quase falha, relutante. E foi só quando abri a mão por inteiro que a luz se acendeu. Tão forte, perto daquele breu. Uma luz verde dessas raras, sabe. E eu não mais me perguntei o que havia de ser, pois que não havia mais sentido pra nada. Eu segurava a luz do mundo e era simples assim.
Foi só quando a luz voou da minha mão e sumiu no breu do mato que o menino se levantou. Segurou meus ombros com mãos pesadas de quem já viveu por demais e me disse:
– A luz só existe pra quem acredita na escuridão. Se tu não aceitar que tá escuro, como é que vai enxergar a luz?
Então ele se levantou, o menino pardo de sorriso torto e olho de lua amarela. Saiu caminhando por entre o mato e por cada fiapo de mato que ele passava, milhares de luzinhas subiam pro ar. Foi a cena mais linda que já na vida.
– E então? Vai ficar aí plantada feito mandioca, ou vai querer encontrar mais luz?
Eu não hesitei por um segundo, era muito óbvio, era muito simples. Estava escuro, e eu tinha que encontrar mais luz.

Anúncios

3 comentários sobre “Breu

  1. Brunno Lopez disse:

    Encontrar a luz, encontrar mais luz.
    Eu desafio aos pobres de sensibilidade e prepotentes de conhecimento realizar esse exercício.
    Enquanto lia, imaginava esse brilho nos seus dedos. Esse otimismo deslumbrado que foi galgando as montanhas do texto.
    Quisera eu poder conseguir criar uma história assim, com contexto e reflexão que ressoam depois da última linha.

    O mundo sempre anda faminto e temeroso da escuridão. Que essa luz seja poderosa pra fazer o planeta entender que esse breu pode ser o primeiro passo para uma vida sem noites.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s