Se amor for a coragem de ser bicho

Eu acho esse texto do Caio absolutamente foda. Presente meu, de fim de semana, pra vocês.

“E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também.”

Caio Fernando Abreu

O vestido mais bonito

Amanhã cedo, disse ela enquanto segurava uma xícara de café preto na mão e olhava fixamente o pão amanhecido em cima da mesa da cozinha. Amanhã cedo coloco meu vestido mais bonito e vou. Deu mais um gole no café, escovou os dentes e continuou. Continou aquela mesmice de todas as manhãs, de sair para trabalhar e ganhar um dinheiro que mal pagava suas contas. Havia de continuar ou então se matava, pensava ela. Dizia que o dia em que não tivesse mais vontade de continuar, tentaria morrer, como já havia tentado morrer algumas vezes e até nisso havia falhado. Ou então colocaria seu vestido mais bonito e iria.
Não tinha mais esperança em nada, pobrezinha. Quando se olhava no espelho via somente uma ruga grossa entre a testa. E olheiras que pareciam permanentes, há meses estavam ali demarcando território embaixo de suas pálpebras. Sua vida era apenas um emaranhado de dias e noites que se repetiam, sem ninguém pra dizer que merda de dia havia tido. Sem ninguém pra mostrar-lhe que a lua continuava a brilhar e que cada dia era uma nova oportunidade. Justo ela, que queria tanto uma nova chance. E não percebia que a cada nascer do sol lá vinha ela de novo: a nova chance. Mas não, ninguém lhe falava porque não tinha coisas boas por dentro pra dividir com ninguém. Porque de sua boca não saiam palavras bonitas, pensamentos otimistas, estava era farta de toda essa bobagem de tentar encontrar algo bom no dia. Não havia. E ninguém lhe falava.
E chegava em casa todos os dias às sete da noite, ligava a televisão e continuava. Continuava uma vida medíocre, sem esperança nenhuma. Ah, mas havia uma ponta de esperança. O vestido mais bonito. Era a única coisa que lhe fazia continuar, acordar e imaginar um dia novo. O vestido mais bonito e a porta da casa dele, ele que por tantos e tantos anos ocupava o lugar mais sagrado no seu coração. Amanhã cedo coloco meu vestido mais bonito e vou. Vou lá dizer tudo o que está cravado aqui dentro do peito. Repetia, assistindo ao telejornal.
Mas mal sabia ela, pobrezinha, que a esperança não podia estar num vestido porque a felicidade não podia estar em outra pessoa. E não havia ninguém para lhe dizer que a felicidade começava dentro dela, onde o vestido não podia vestir. Não havia ninguém que lhe dissesse nada e, por isso mesmo, ela apenas continuava.

Cause everybody hurts, sometimes.

Eu podia colocar a versão do Haiti, mas não quero desviar a atenção de vocês. Por isso vou de R.E.M. mesmo. Na versão pura e perfeita dessa música, quero que vocês entendam a letra. Porque todo mundo machuca e se machuca, às vezes.

When your day is long
And the night the night is yours alone
When you’re sure you’ve had enough of this life
Hang on

Don’t let yourself go
‘Cause everybody cries
And everybody hurts, sometimes

Sometimes everything is wrong
Now it’s time to sing along
When your day is night alone (Hold on, hold on)
If you feel like letting go (Hold on)
If you think you’ve had too much of this life
To hang on

‘Cause everybody hurts
Take comfort in your friends
Everybody hurts
Don’t throw your hand, oh no
Don’t throw your hand
If you feel like you’re alone
No, no, no, you’re not alone

If you’re on your own in this life
The days and nights are long
When you think you’ve had too much of this life
To hang on

Well, everybody hurts
Sometimes, everybody cries
And everybody hurts, sometimes
But everybody hurts, sometimes
So hold on…


(Tradução aqui: Terra)

Vai passar…

Por isso que eu amo esse cara. Porque cada palavra me dói lá dentro, onde deve doer e onde deve curar.


Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim – nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente – e não importa – essa coisa que chamarás com cuidado, de “uma ausência”. E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás – aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:- … mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca.

Caio Fernando Abreu

Cara… isso é tão eu que parece que arranquei um pedaço de mim pra fora. E mastigo, e mastigo, e mastigo.


Coração pequenininho

Pois é. Eu fui tentar consertar uma das cagadas e acabei com o coração partido.
Fui sincera, sabe, contei que havia inventado uma estória apenas por medo da pessoa ficar com raiva de mim, mas eu não sei mentir, gente. Nunca soube. E me corrói por dentro mentir pra alguém que eu gosto. Foi pura defesa, medo de perder a amizade, tentar enfeitar com estrelinha pra ver se melhorava. Não deu.
Expliquei, abri meu coração, assumi meu erro e pedi desculpas. Fiz tudo o que estava ao meu alcance. E não adiantou, pelo menos por enquanto.
Eu sei que eu não deveria deixar a angústia tomar conta de mim, mas tô mal, sabe. Não tive a menor intenção de machucar ou magoar ninguém, foi pura infantilidade minha. E eu tenho muito carinho por essa amizade que é tão especial pra mim.
Eu não tenho inimigos, nunca na minha vida perdi uma amizade. E dava tudo pra que essa não fosse a primeira.
Só posso dar tempo ao tempo agora e esperar que a raiva passe e que a amizade prevaleça. Eu já me arrependi, já prometi não fazer de novo, agora me perdoa, vai?

Hoje eu só quero que o dia termine bem…

Eu não sei o que tem acontecido comigo ultimamente, se é stress, ansiedade, sei que tenho dado umas patadas em gente que não merece e tenho feito algumas cagadas.
Juro que não sei porque. Odeio magoar quem quer que seja, quem dirá as pessoas que eu amo.
Mas a única coisa que eu posso fazer é pedir desculpas e esperar que me perdoem, e se não perdoarem, é porque talvez a amizade não tenha sido tão grande assim mesmo.
Prefiro ficar com a consciência limpa e saber que fiz a minha parte. E que nunca tive a intenção. E isso vale pra muita gente em volta de mim, sim, a lista é até grandinha…
Acho que meu inferno astral tá antecipado. Mas eu acordei, é um novo dia, e eu vou lá consertar as merdas que eu fiz. E esperar apenas o melhor.
Hoje eu só quero que o dia termine bem.

Conversa das seis da tarde

– Eu comprei uma coisa pra você. – Diz ele, me entregando um Kit Kat.
– Você é uma pessoa muito má.
– Mas só tem 138 calorias, eu olhei!
– Muito, muito má.
– E é em formato de coelhinho da Páscoa!

Eu abri e mordi.

– Você nem olhou direito, já deve ter mordido a cabeça do coelho.
– Você conhece a minha relação com chocolate.
– Não só com chocolate…

Daí ele saiu meio rindo e eu fiquei a ver navios. Ou coelhos.

“Carta Anônima” – Caio Fernando Abreu

Esse texto de Caio me faz viajar…

Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.

Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você – seria, seriam? Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudor de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, não tem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olívia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Win Wenders, mais Cecília Meireles que Nelson Rodrigues.

Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu toco na sua.

Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vezemquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo.

Caio Fernando Abreu
“Carta Anônima”