Eu tive uma fase de cartomante

Cartomante, cigana que lê mão, benzedeira que desce o santo, tarot, búzios, borra de café e testes da Capricho. Devia ter lá meus quase vinte anos, uma Universidade e um futuro incerto, casos mal resolvidos, paixões platônicas e nenhum relacionamento sério. Ninguém queria nada comigo que durasse um pouco mais que um feriado.
E eu era legal, bonita, inteligente, divertida. Cursava Publicidade numa das faculdades mais bacanas de São Paulo, tinha amigos interessantíssimos e professores deslumbrantes. Eu amava micareta, cerveja, teatro, cinema nacional, propaganda velha, tardes de sol, aulas de fotografia, jogos universitários, os puffs do Centro Acadêmico e mais um monte de carinhas de engenharia, administração e cinema. Mas era aí que morava o perigo.
O meu radar não falhava nunca e ele era especificamente programado para se apaixonar platonicamente por todos os seres masculinos mais bonitos. Os mais gatos. Os mais cobiçados. Os olhos azuis. Os que viviam ao redor de mulheres espalhafatosas e perfeitamente desenhadas.
E era aí que eu perdia. Porque não confiava tanto assim no meu taco. Não tinha malícia, apesar de muito hormônio. Não tinha muito sal, apesar de ter vários outros temperos. E os que se interessavam por mim geralmente eram baixinhos, esquisitinhos, cult demais ou japoneses. E eu peguei um pavor de japonês que se atraía pelo oposto dos meus cachos loiros.
Um dia resolvi pagar alguém pra me dizer o que ia acontecer comigo. E digo que alguns deram certo, outros passaram bem longe. A cigana da mão foi em Águas de Lindóia, onde eu tinha o caso mal resolvido que não passava do feriado. Olhou pra mim, adolescente, e disse que eu procurava um grande amor, que gostava de um cara que não gostava de mim, mas que ainda apareceria um príncipe encantado. Ah vá. Qual adolescente não passa por isso? Adolescente que namora não vai ler a mão, só as encalhadas mesmo! Easy peasy.
Algumas outras cartomantes foram meio a meio. Teve uma que disse que eu casaria com o meu terapeuta, o que me gerou uma crise existencial muito grande porque minha terapeuta era mulher. Uma outra disse que eu casaria com um estrangeiro, seis anos mais velho, bem alto, cabelos castanhos, olhos verdes… pense no meu marido??? Mas na época eu não conhecia meu marido e conhecia sim um italiano muito gato, com todos esses quesitos, que hoje em dia se casou com uma cantora baiana. E eu tinha certeza de que era ele. Muita confusão quando se tem outro com as mesmas características já presentes. Mas não posso tirar os créditos dessa última, que não posso dar o endereço porque passou dessa para melhor.
A melhor de todas, no sentido mais sarcástico, foi uma indicação de uma amiga. Lá na conchinchina de São Paulo, nem sei mais chegar lá. Cobrou me cinquenta reais a charlatã. Subi no seu apartamento, me levou pra uma salinha com incenso, abriu umas cartas na mesa e começou:
– Você está em busca de um grande amor…
– Mmmm… (aprendi a falar muito menos porque essas pilantras tem ginga psicológica)
– Hoje em dia você gosta de um menino que você acha que não te dá muita bola, mas ele gosta de você. As cartas me dizem.
– Mmmm…
– Eu vejo que você tem um irmão.
– Não.
– Uma irmã?
– Mmmm…
– Mais velha.
– Não.
– Mais nova?
Ah colega, assim até o teste da Capricho acertava! Resolvi parar com essa palhaçada e começar a terapia. Aprendi a falar com os caras, a deixar bilhete no parabrisa, a tomar não, a tomar sim e continuei tomando cerveja e deixando a vida me levar do jeito que devia ser. Ninguém sabe do futuro. E, pra falar verdade, é muito mais interessante assim.

cartomante1

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2 comentários sobre “Eu tive uma fase de cartomante

  1. Adriana disse:

    hahaha, dei mta risada!! Tb fui a algumas cartomantes!!! Era tanto besteirol, né??
    A última que fui tb era muitoooo longe, lembro de ter ido com minha irmã mais velha, pegamos o busão, demoramos umas 2 horas p chegar lá…..

  2. Ka disse:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk lembrei muito disso! nossa, a cartomante do guaru era a mais trash…só vcs…e eu fiquei do lado morrendo de medo! rs

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