Mudaram as estações

É um misto de amor e desgosto esse meu sentimento pela Inglaterra. Faz um dia bonito e eu amo até o inglês carregado  da BBC, faz dia feio e eu xingo até Henrique oitavo.
Mas nem tudo depende do sol, vocês sabem que meu humor é totalmente influenciável pela luz solar, então seria injusto julgar a ilha de acordo com o meu humor.
A Inglaterra é linda na primavera. Linda de perder o fôlego, aliás, se perde o fôlego quando passam aquelas bumble bees, abelhas peludas, gigantescas e extremamente barulhentas, voando pela sua cabeça. Isso sim é de perder o fôlego. E as flores, ah as flores. Cada uma com sua cor mais inimaginável, um formato indefinido, como as bluebells. Procura no google, elas são obras divinas essas bluebells. As berries também. É cerejeira carregada de cereja, amora preta pra tudo quanto é lado, blueberry, cranberry, strawberry… tudo quanto é berry! O último, o morango, chega a ficar de um tamanho que você jura que teve modificação genética.
Passear pelo interior da Inglaterra na primavera é divino. Nunca na tua vida verá cores como as daqui, principalmente o tom de verde das plantas, que tudo tem a ver com o grau de incidência do sol. Também no outono é a coisa mais linda do mundo. As folhas começam a secar nas árvores, de fora pra dentro. Ficam com uma borda amarela, o centro vermelho e a parte presa ao tronco ainda verde. É um milagre.
Caem tantas folhas no chão no outono que eu fico me perguntando o que acontecem com elas depois. Já faz semanas que por onde eu passo meu pé afunda em infinitos edredons de folhas secas. Que eu só odeio quando chove, porque aí fica uma nojeira só. Fiquei pensando esses dias “quem limpa essas folhas, porque elas não estão aqui no inverno!”. Sim, na grama elas viram adubo. No concreto eu já não sei.
Até que chega o inverno. As árvores pelam por inteiro, ficam só os troncos. Os bichos hibernam, meus esquilos somem, os pássaros somem, ficam só os corvos e a má fama deles. E tudo parece morto, sem vida, cinza, branco. O céu é sempre branco no inverno. E quando neva é lindo, se nevar só um pouco e você estiver dentro de casa.
Se te pegar desprevinido, abra o guarda chuva, porque essa eu já aprendi: neve molha. E molha bem. E queima também se quiser dar uma de brasileiro desavisado e fazer guerra de snow ball. Tudo bem, mas não tire a luva. Essa eu também aprendi da pior maneira.
E com o inverno vem a mais odiada das manifestações: o sol também hiberna. Por isso que eu odeio o inverno daqui. Eu gosto de frio é de São Paulo, que se resolve com uma bela taça de vinho, um casaco elegante e um foundue. Ou então com uma fogueira de festa junina. Inverno daqui não se resolve com nada.
E aí começa a palhaçada. Agora é Novembro e sete horas da manhã é que começa a clarear. E quando anoitece e você acha que são sete da noite, olha no relógio e são quatro e meia. Dá sono, dá tédio, dá dor no coração. É a saudades que o sol gosta de deixar. Ou pelo menos a claridade…
E ainda que nem chegou o inverno todo, as árvores nem se pelaram e os esquilos estão frenéticos escondendo todos os amendoins que eu joguei no jardim. No inverno mesmo, coisa de Fevereiro, a coisa fica preta. Literalmente. Claridade só entre oito e pouco da manhã e três da tarde. E já tá bom, e agradece aos orixás por não ser polo norte.
E eu que ansiava Fevereiro por causa de carnaval, agora penso… ah meu Deus, Fevereiro.
Um dia hei de ser muito rica e desfrutarei apenas das estações que eu gosto nos lugares que eu gosto. Em Dezembro embarcaria para o Brasil e ficaria por lá até Março, torrando no sol de alguma praia do litoral. Depois voltaria em Abril para a primavera inglesa. Em Julho trocaria facilmente o verão tolo daqui pelo inverninho gostoso de Campos de Jordão, e voltaria para o Outono. E em Novembro, cantaria de novo “Dois de Fevereiro, é dia de Iemanjá, levo ao dia oferendas, para lhe ofertar!!”
E passaria o Reveillon vestida de branco, na praia, todo mundo junto. E não encapotada de casaco.

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Um comentário sobre “Mudaram as estações

  1. Silvia disse:

    Essa sensacao eu conheco bem… As vezes eu amo estar aqui, as vezes odeio! A sensacao é q mesmo conquistando meu espaco aqui nesta terra linda, mas terrivelmente fria, nunca estarei 100% feliz! Serao eternamente altos e baixos!
    Silvia, antes de Curitiba, hoje do norte da Holanda

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