Sentir

Ele tinha tantas coisas na cabeça, nada no coração. Era frio, ríspido, grosseiro e indiferente. Tratava as pessoas de modo hostil e rude, não somente os subordinados. Para ele, as pessoas não tinham valor. Seres humanos eram robôs estúpidos que viviam para morrer. Passavam a vida trabalhando e reclamando da falta de tempo. Desprendiam uma infinidade de horas fazendo dinheiro, para gastá-lo. Engraçado, ele reclamava, mas era absolutamente assim. Sem tirar nem por.
Não tinha namorada, resolvia seus problemas em bordéis urbanos, com prostitutas baratas – dizia não valer a pena gastar com mulher bonita, uma vez que todas fariam a mesma coisa. Não tinha amigos, muito menos animais de estimação. Sua convivência social se resumia aos pedidos na padaria, farmácia e afins. Muito de vez em quando ele trocava um bom dia com alguém qualquer, mas era extremamente raro.
Seu nome era João, apesar de ele odiar ter nome tão comum. Tinha um bom emprego, alto salário, mas como eu disse, ele contradizia todos os seus valores. Da família, não sabia mais. O pai falecera quando era criança, a mãe tinha enlouquecido e morava em asilo psiquiátrico. Era filho único.
Nunca aprendeu a dividir ou dar nada à alguém, nem amor, nem brinquedo. Nem dinheiro. Por isso nunca se casou. Até o dia em que Manuela passou pela rua com aquele vestido branco de pequenas flores azuis, cachos cor de mel soltos ao vento. Até o dia em que Manuela olhou em câmera lenta no elo mais profundo de seus olhos e sorriu aquele sorriso secreto. Até o dia em que Manuela passou e trouxe todos os sentidos humanos para ele. E ele aprendera a dar a lua.

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