Um dia…

… frio, um bom lugar pra ler um livro…

Um dia triste, toda fragilidade incide….

Devaneio

Sinto o sabor do mamão no meu café da manhã, suco de maracujá. Posso morder um caju fresco e não há nada nesse mundo que possa comparar.  
Meus pés anseiam pela areia branca e fina, meus lábios pedem o salgado da água do mar. O sal que fica no corpo, a brisa que só é de lá. Abro a minha canga, já é hora de ficar e não pensar em nada. É hora de sentir o sol na pele.
Peço a Deus um barulhinho de panela de pressão no vizinho, cozinhando o feijão do dia. Páro um minuto querendo sentir o cheiro do alho e da cebola fritando. Um caldo de cana, uma água de côco.
Ouço os passarinhos, os bem-te-vis, que saudades dos bem-te-vis. Abro a janela e tem uma cidade inteira me esperando, de dia e de noite. 
Quase que escuto os peões na obra ouvindo um pagodinho, quase que escuto as crianças brincando e os cachorros latindo. E de longe, há sempre um rádio tocando um samba. Se der sorte, passará um trio na minha rua agora. E eu escuto o samba chegando.
Eu me entrego, canto, grito, danço. Saio atrás dele. E no meio do caminho, me rendo a um chopp gelado ou um café de verdade. O samba daqui não é o samba de lá.
O vento morno do verão, o ar entrando pelo meu vestido. A pele queimada de sol, os pés pedindo havaianas. As unhas feitas, o cabelo solto. Inspiro e expiro brasilidade.
Me pego dirigindo meu carro, do lado direito da rua. Escuto Ivete no rádio, assisto Faustão aos domingos. Tem  feijoada no quilo de quarta-feira. Mas hoje é dia de ir a feira e pedir pastel e guaraná. E hoje será de palmito.
E chego em casa pra assistir a novela, pra falar besteira em português, pra não pensar se terei mamão no café da manhã do dia seguinte.
É saudade, é apego, é conforto. É um pedaço de mim que ainda grita.

“Filho de sol poente que quando teima em passear, desce de sal nos olhos, da falta que sente do mar”.
(Maria Rita, “A despedida”)

Confidências

Adaptação é uma palavra simples, mas que de simplicidade não traz absolutamente nada. Com ela vem um medo gigantesco do novo, a angústia do desapego, a frustração de não chegar assim tão rápido no resultado. Já dizia Nando Reis, não vou me adaptar. É como uma barreira psicológica, basta pensar em se adaptar para ir contra.
Pode ser o medo da mudança, o medo de começar do zero, o medo de  refazer uma vida inteira pela frente. Vinte e oito anos parece-me não tão cedo mais para tudo isso. Já não tenho a gana dos meus dezoito, já não sei se ainda é tempo de usar aquele velho jargão “se não der certo, a gente recomeça”.
Dez meses se passaram desde o momento em que minha vida toda mudou. O momento em que eu fechei um livro para abrir outro, uma página nova, um recomeço, tudo novo. E bem que me perguntaram ainda em terras de Cabral, “você vai começar a vida do zero?” Foi aí que caiu a ficha.
E eu, que nunca tive medo do novo, sempre preferi arriscar, tanto fui a favor do incerto pelo certo, porque o incerto poderia ser melhor, amarelei.
E naquele aeroporto de Guarulhos eu achei que ficaria todo o meu passado, toda a página virada.
Mas a vida não é bem assim. A gente não “deleta” o que passou. A gente tem memória, e eu tenho memória de elefante. A gente é saudosista, e eu sou a pessoa mais saudosista que já conheci na vida. E é óbvio que toda aquela carga, toda a energia, a pressão, vieram todas nas minhas malas.
E quando eu cheguei aqui, sozinha, com somente um grande amor na mochila, as coisas não foram tão fáceis quanto pareciam nos meus sonhos.
Pra falar a verdade, não foram nada fáceis. Talvez eu nunca tenha contado pra vocês das nossas dificuldades financeiras, do perrengue que é construir crédito num país novo, da aventura de se colocar no mapa como uma pessoa que existe de verdade. Pensa que é só chegar no país e querer um cartão de crédito? Seu nome nunca existiu por aqui, leva-se anos para construir crédito financeiro e pensar em começar alguma coisa. Empréstimo de banco, cartão de débito, conta corrente, documentação, aluguel, emprego, nada é fácil para um cidadão do mundo que começou a existir agora.
Os três primeiros meses deste lado foram os mais difíceis da minha vida. Entre chorar todos os dias e aproveitar o recém casamento, sempre há a primeira opção. Sempre existem as dificuldades e o fantasma da solidão. Todos os dias inteiros, sozinha. Sem ninguém pra conversar.
Mas dizem que o tempo cura tudo e, realmente, o tempo traz a adaptação. A gente é forçado a se adaptar porque já passou tempo suficiente pra isso. E é hora de crescer e encarar as coisas de verdade. É hora de virar adulto.
E pela primeira vez aqui, eu me sinto quase que me adaptando. Tento mais me desgarrar do passado, do Brasil, das coisas que ficaram e planejar mais o futuro. Dói, e isso não quer dizer que o passado signifique menos pra mim hoje. Só diz que é hora de mudar, mais uma vez. Pensar pra frente. Levantar, sacodir a poeira e dar a volta por cima. Entender de vez que essa foi a opção e não dá pra ter tudo ao mesmo tempo.
Se eu tenho quase trinta anos pra recomeçar, sim, eu tenho. Se dá medo começar do zero e não ser mais tão jovem, sim dá, e muito. Mas entre Nando Reis e Lenny Kravitz, hoje eu fico com o segundo. “I´m old enough to see behind me, but young enough to feel my soul*”…

 

road 

* “Eu sou velho o suficiente para olhar pra trás, mas jovem o bastante  para sentir minha alma”

Prêmio

Fala se eu não mereço um!!! Um frio do cão e eu caminhando vinte minutos sob uma temperatura de três graus, só pra chegar aonde: na academia!!! Achei que fosse congelar no meio do caminho e ficar por lá!
E o meu prêmio de agora vai ser… nada de chocolate! Uma bela e quentinha sopa de legumes! E não me desanimem, preciso eliminar as bordas recheadas!!!!!!

Terra gelada

E o frio chegou com tudo desse lado da bolinha. Hoje, em Reading, a máxima foi de DOIS GRAUS POSITIVOS.
Trabalhei das 9 às 17 hoje, fiz treinamento em Reservas. Quando estava a caminho do ônibus, só black ice no chão (é uma camada de gelo que não aparece, e pode te dar um tombo daqueles!). Os carros todos cheios de gelo.
Daquele frio que dá dor de cabeça, arde o rosto, e você quer virar um avestruz e enfiar o nariz em algum lugar.
A salvação do dia? Tem umas panelas no fogão me esperando: feijão preto com paio, arroz branco e couve!!! Nada como comfort food pra espantar o frio!!!!

Uma noite de futebol

Ontem teve futebol no estádio. Dezesseis mil hooligans (hohoho)!!! Sério, dezesseis mil pessoas.
Considerando que o hotel é praticamente o puxadinho do estádio dá pra imaginar a minha noite né! Busy!
Fiz check in de três portugueses, o que foi bacana. Pra dizer a verdade, a noite foi bem engraçada.
Chegou um hóspede, um tal de Mr. Harding, gatinho até, meio calvo. Fiz o check in do cara, e ele todo cheio de graça. Começou a flertar e eu queria um botãozinho que destarrachasse as bochechas que já estavam roxas. Ele me olhava com um olhar profundo, tipo “vou ser sexy”, um sorrisinho malicioso, e dava umas piscadinhas entre as minhas perguntas que eu quis me virar do avesso! Até me desconcentrei!!!
Aí, até hoje de manhã foi assim, até ele fazer o check out… só nas piscadinhas!
Como se não bastasse tem um cidadão que se hospeda lá toda semana. Ele já sabe meu nome e eu o dele, é Mr. Parmar e pronto. Ele chega eu digo “bom dia Mr. Parmar, boa noite Mr. Parmar, como foi seu dia, blablablablabla”.
Ontem eu fiz o check in dele. Ele subiu e depois de um tempo ligou perguntando alguma coisa. Eu atendi “Hello Mr. Parmar!”. Eu disse que mandaria o que ele queria para o quarto dele (um kit de shampoo). Aí ele solta a pérola: “Milena, sabe quando você me chama de Mr. Parmar? (Hmhum…) Então, meu nome é Nitaish, mas pode me chamar de TASHA. (kkkkkkkkkkkk). O queeeeeeee!!!!! Tasha????
Bom dia Tasha, boa noite Tasha?????? Imagina se o gerente do hotel me pega chamando o hóspede de TASHA!!! Vai ser no mínimo duvidoso. Eu não conseguia parar de rir. Ah, vai, alguém diz pra ele que Mr. Parmar é mais bonitinho!!!!!!

Susto

1238717_us_incendio_brasil_300_400

 

Essa foi uma das fotos que eu recebi com um dos links de websites. E isso me abalou de um modo que vocês nem podem imaginar. A princípio é mais um incêndio, em mais um prédio, em São Paulo. Mas agora considere que naquele mesmo andar, aquela janelinha diretamente oposta à que está em chama, do lado esquerdo da foto, é meu quarto no Brasil.
Esse incêndio foi no apartamento da minha vizinha, sexta feira à noite. Levou três horas pra ser controlado.
Minha mãe me contou no sábado, ela estava pra sair em dez minutos de casa e meu cachorro teria ficado sozinho. Minha mãe, que até este momento estava na sala, a janela do meio à esquerda, foi literalmente evacuada de casa.
E graças ao meu bom Deus, por algum motivo ela não saiu antes. Depois de horas de incêndio, meu apartamento estava negro. Cheio de fuligem, fumaça e enxarcado de água.
E eu só penso no que teria sido do meu cachorro se tivesse ficado sozinho lá, sem ninguém pra tirá-lo de dentro.
O susto passou, ninguém ficou ferido… mas sinceramente, esse não é o tipo de foto que você quer ver em links como globo.com, ig, ou no plantão do SPTV.

E as minhas paixões de adolescente…

… envelheceram. Brutalmente. E pararam no tempo.

Que dóóóóóóóóóó!!!!!!
E eu tinha posters de todos eles na minha parede!

Começando pelo que ressurgiu das cinzas essa semana, e eu achei que ele ainda tava todo esticado da plástica… não sei se vocês viram, mas ele teve um momento Michael Jackson!! Um HORROR! Agora sim, ele tá com cara de roqueiro porra louca. Sem aquela carinha linda que ele tinha! Ô dó.

AXL ROSE

axl11axl1
O guitarrista de Extreme, que tinha o cabelo mais lindo de todos os anos noventa… NUNO BETTENCOURT virou isso aí à direita!!

nuno1nuno

Lindo que era, BRET MICHAELS, do Poison! Era um dos posteres mais perto da minha cara, na parede do lado da minha cama! Como era lindo!!!!! Ainda não tá um caco… mas depois do reality show que ele fez pra escolher uma namorada…. ai, não. E esse tanquinho já há muito tempo virou uma poça!!!!!!!

bret1bret

O mais bichinha de todos, o com mais cara de menina e o que continua mais bichinha de todos. É impagável vê-lo atuar em Gilmore Girls!!! Continua uma mocinha velha!!! Mas eu adoraaaaaaava Skid Row, então aí vai SEBASTIAN BACH

sebastian1sebastian3

 

Ele já era gato. Agora então, o moço nadou contra a correnteza. Acabei de achar no Google e tô babando… Uma banda que passou tão rápido, com sucessos estrondosos e que desapareceu do mapa. Com vocês, o surfista mais gato dos anos 90, WHITFIELD CRANE, do Ugly Kid Joe. Cada dia melhor…

whit1whitfield
E o meu sonho de consumo, amor da minha vida, com quem eu JURAVA que ia casar quando tinha onze anos. E acreditava nisso profundamente. Tinha até um plano de fuga pra New Jersey com a minha prima, tudo esquematizado! Já fiz loucuras, perdi muitos anos, incontáveis lágrimas. Ele era o poster do lado do meu rosto na parede. E ele é como vinho, quanto mais coroa, melhor. JON BON JOVI!!!! E não falem muito que eu morro de ciúmes! Hahahahaha!

jon1jon