Quando a gente se dá conta

Sabe, eu fiz faculdade em São Paulo. Me formei Publicitária, trabalho desde os 18 anos. Nessa longa caminhada chamada “carreira”, eu fiz estágio não -remunerado em uma grande agência, onde me fizeram de gato e sapato, onde chupinhavam minhas idéias, me colocavam pra servir cafézinho e passar rodo quando chovia demais. Nunca reclamei de nada, a não ser do dia em que me mandaram embora para dar espaço para o sobrinho da minha nova chefe, formado em ciências da computação.
Depois disso, passei meses procurando outra coisa e encontrei muito mais perto do que imaginava. Acabei trabalhando com moda, comecei de baixo, estágio em Assessoria de Imprensa, ganhando 500 reais por mês. Fui cavando meu espaço sem paternalismo nenhum, e qualquer um que trabalhou comigo sabe disso. Fui relocada pra marketing, fui crescendo, sabe.
Acabei não fazendo pós nenhuma, por causa de uma pedra no caminho chamada Amor. Não que me arrependa, mas amor e carreira não combinam, principalmente quando o amor está do outro lado do mundo e, consequentemente, sua nova vida.
Ainda assim fiz inúmeros projetos de marketing, roteiros, palestras, traduções, cursos, cursos, cursos. Fui chamada pra trabalhar em Paris durante a semana de moda e esse é o ápice do meu currículo, um currículo que me levou a entrevistas no marketing da Harrod´s e do London Fashion Week.
Quando vim para a Inglaterra, na primeira vez em que passei 1 ano aqui, em 2005, a situação era diferente. Tinha visto de estudante, não podia trabalhar, mas o mundo me prometia uma carreira espetacular quando as condições fossem propícias.
Finalmente cheguei no começo de 2008. E comigo veio a grande recessão da Europa. Cheguei aqui no pior momento que podia. Passei meses procurando emprego em marketing, como disse, fui em entrevistas na Harrod´s e na London Fashion Week, mas tive que ouvir que “por lei”, eles deveriam contratar o Inglês desempregado que concorria comigo.
Nunca tive medo de trabalhar e não sei ficar em casa assando bolo numa terça-feira à tarde, como um dia achei que soubesse. Fiz trials como garçonete, fui babysitter e acabei aceitando meu primeiro emprego aqui, na recepção de um hotel quatro estrelas. Trabalhei como um  camelo, em turnos que variavam das 6:30h às 23:30h, muitas vezes chegando em casa depois da meia noite e tendo que acordar no dia seguinte às 5:30h. Tudo isso por salário mínimo.
Quando não aguentei mais o hotel, procurei marketing de novo, no auge da recessão. Tive reuniões em Londres com marcas grandes, sempre a mesma desculpa. Como tenho contas pra pagar no fim do mês, acabei aceitando um emprego num quiosque de loja. Subi, fui promovida a subgerente e fiquei lá quase um ano. Recebi uma oferta numa grande joalheria onde o que eu menos fazia era vender, passava o dia limpando.
De lá pra cá passei pela loja que mais gostei de trabalhar e que, mais uma vez vítima da recessão, acabou fechando. De novo o desespero me fez apelar para um temporário de Natal, numa loja super conhecida daqui que vende chás, cafés e cerâmica.
Quem me vê pensa que não tenho muita paciência, que não existe o emprego ideal. Mas faça tudo o que fiz na vida e termine numa loja no outro lado do mundo passando o dia inteiro etiquetando preços, abrindo caixas de delivery e colocando em prateleiras. O dia inteiro.
Não tenho nada contra quem gosta desse tipo de emprego, muito pelo contrário. Estou lá exatamente porque não sei ficar sem trabalhar e não tenho medo de trabalho. Só que pra tudo existe um limite. Existe uma quantidade de passos que a gente dá para trás sem se dar conta. E um dia a gente se dá conta.
Por isso tenho pensado em muitas coisas. Inclusive em ir pro Brasil no verão por uns três meses. Preciso de um tempo para reanalisar a minha vida, sair da minha bolinha e olhar de cima. Nada major. Coisas que acontecem com todo mundo: tempo pra absorver.
Sexta feira volto ao quiosque de jóia pra ver se consigo um temporário que me paguem o que me pagavam.
E enquanto isso a neve vai caindo, as coisas vão mudando, as pessoas vão mudando. E não existe mais tanta coisa que existiu antes…. apenas essa fé quase autista na vida e no amor, apenas essa esperança vaga de que isso tudo é uma experiência corporal e emocional, e não existe nada além do objetivo de ser feliz. A tal da Pollyana que mora em mim.
E como diz Machado, “se eu não era feliz, vivia alegre”. Sempre assim. 🙂

Vamo-que-vamo!

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10 comentários sobre “Quando a gente se dá conta

  1. Taty disse:

    Mi, querida!

    Quando a gente se dá conta, chega o momento de plantar novos sonhos, avistar outros horizontes e descobrir a força dessa Pollyanna… uma força que vai além dos sorrisos e do simples “seguir adiante”!

    Você pode… você sabe que pode! E o camniho está só começando!

    Amei saber um pouco mais da sua história e, se antes já torcia por você, agora sou ainda mais fã!

    Beijos!!

  2. Vivi disse:

    Amiga tomara que vc consiga voltar pra sua área, fazer aquilo que vc realmente sabe e gosta de fazer. Estar infeliz com a nossa carreira não é nada bom(sei bem como é) e parece que essa bodega se espalha para outros cantos da sua vida.
    Se for preciso esse tempo seu, venha mesmo e coloque a cabeça em ordem.

    Bjokas

  3. Van disse:

    É isso ai, Mi! Vamo q vamo, sim! Vc escolheu seu caminho, mas a vida não é um destino traçado na maternidade. Pelo menos não para a maioria! E escolher sair do caminho q estavamos percorrendo não é problema nenhum, vamos vivendo e acertando o barco, sempre em busca da felicidade. Isso é o q importa! Uma paradinha é normal pra analisar. Ajuda a entender o “leito” do rio da vida…

    beijocas

  4. Priscila disse:

    Pra te dizer a verdade, sigo eu lendo seus tweets todo dia, e tava achando estranho, pelo pouquíssimo que te conheço, que você ainda não tinha escrito algo dessa maneira, de desabafo.
    Tenho quase certeza que esse post tirou um peso da consciência.. (ops e quem sou eu hein?)
    Força aí Mi! Fé, garra que você já passou por tantas nessa vida, e não vai ser essa pedra que vai te parar.
    Tem um bocado de gente que tá torcendo por você, algumas escondidinhas.
    GO! #tamocontigo 🙂

  5. Luka disse:

    Nossa,

    Lembro de tu falano do teu trabalho no saudoso Popcorn Bag, faz tempo isso… Mas olha, entendo o que é trabalhar em uma pá de coisas que nada tem haver com o que queremos, to nessa agora, trabalhando 10h por dia, terminando a faculdade e sem tempo de ver minha filha direito, mas sabe uma coisa que eu aprendi neste último ano de amor intenso que to vivendo com a Rosa é que tudo vai se acertando, que podemos sim fazer as coisas que gostamos, mas mediando espaço, intensidade e afins, dá espaço e tempo pra tudo.

    To louca pra sair dessa fase de trabalhar fora do que eu curto e voltar a ficar perto da pixote, mas eu sei que é fase e que uma hora as coisas melhoram, tenho fé nisso.

    Beijos

  6. Lia disse:

    já cogitou procurar no net a porter? eles estão procurando muita gente porque o negócio está crescendo demais. Dá uma olhada na parte de carreira. bjs

  7. Anna disse:

    Milena,

    Já trocamos alguns emails, e eu sempre me identifico MUUUITO com o que você escreve. Temos histórias bem parecidas Brasil=emprego UK = Amor. Em setembro eu voltei pro Brasil e deixei meu amor. Não me arrependo, pois voltei a trabalhar na minha área, mas continuo falando com meu amor e a saudade aumenta a cada dia. Sei muito bem as angustias que vc deve passar, em colocar na balança coisas diferentes mas que tem o mesmo peso. E as vezes é ainda mais difícil, como colocar SENTIMENTOS na balança? O que pesa mais AMOR ou SAUDADE? FÉ ou CERTEZA? Sentimentos não tem peso real, mas pesa muito dentro da gente, no nosso coração!
    Eu estou morando em São Paulo agora e iria adorar te conhecer pessoalmente, para quem sabe trocar experiências ou só discutir coisas bobas como qual é melhor um choop com as amigas ou um vinho com o marido?
    Te desejo um 2011 cheio de coragem e certezas.
    (Na minha opinião essas foram as duas coisas mais úteis/necessárias para mim em 2010, apesar de muitas vezes não ter nenhuma das duas)
    Grande beijo
    Anna

  8. Patricia disse:

    “Valeu a pena? Tudo vale a pena
    Se a alma não é pequena.
    Quem quer passar além do Bojador
    Tem que passar além da dor.
    Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
    Mas nele é que espelhou o céu.” (Fernando Pessoa)

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