O quartinho

Ultimamente eu ando apaixonada por qualquer entrelinha que me faça flutuar sobre o desconhecido, acordar de um medo, acreditar que o ser humano tem muito mais na parte de dentro. Como me fazia sentir Fernando Pessoa quando eu era criança.
Pessoa nasceu em mim por volta dos meus onze anos quando achei  páginas soltas e amareladas no quartinho de guardar tralhas da vovó. Lembro também das páginas comidas por traças de Olavo Bilac e Oscar Wilde, mas não havia nada que me prendesse mais como Pessoa. Não sei de quem eram os livros, aquele quartinho guardava memórias de sete vidas e outras que eu não havia nem ao menos conhecido. Guardava memórias da minha infância mais perdida, um arranjo de bolo dentro do armário devorado por cupins. Misturava caixas de livros empoeirados, quadros pintados pela minha mãe, a máquina de costura que não funcionava mais e meus brinquedos, minha bicicleta. Era como um baú de tesouros, o quartinho.
Foi lá que descobri pedaços da vida do meu pai, os livros da São Francisco, alguns poemas perdidos. Era de lá que vinham os sonhos da vovó de me fazer advogada, como ele. Mas por mais que os livros me prendessem, vó, minha mente tem asas demais para advogar. Prefiro flutuar. Não se prende quem tem asas.
O quartinho era de tamanho razoável. Tinha paredes que pediam por tinta nova e um cheiro de mofo que me lembro até hoje. Vovô sempre tentou acabar com o  mofo, mas ele teimava em permanecer lá, como se quisesse dar a alguém uma lembrança olfativa – aquela que dura para sempre. Havia um armário de madeira maciça escuro e robusto, devia ser da década de 30. Eu sempre achei aquele armário lindo, mas morria de medo dele e do mofo escondido na parede de trás. Quase nunca abria suas portas, a não ser que alguém estivesse junto.
Em outra parede ficava outro armário de madeira mais clara, com traços dos anos 50. Este não escondia o mofo então quase sempre eu remexia o que suas gavetas e prateleiras escondiam.
Pelo chão haviam caixas de papelão. Daquelas que quando se abrem exalam uma nuvem de pó como mecanismo de defesa. Ou como lembrança de criança, que é sempre mais dramática. Lembro também da máquina de costura, era uma caixa enorme de madeira, uma obra da engenharia na minha concepção. Parecia uma caixa, mas a tampa rodava de cima pra baixo e então ela surgia do nada! Havia uma portinha na frente que, quando aberta, revelava um mundo de pedais. Para mim, ela fazia o mesmo barulho que deveria fazer a máquina que furou o dedo da Bela Adormecida.
Mas antes que eu me perca em mim, eram as caixas que me interessavam. E foi Pessoa o único resquício daquele quartinho que ficou comigo. O poema era Mar Português, de onde saiu uma das frases mais famosas do escritor. Porém não foi ela que me chamou a atenção, felizmente eu ainda não tinha maus hábitos. Lembro- me de pegar as folhas soltas e sentar-me embaixo da pitangueira do quintal. Meus olhos degustavam palavra por palavra. Minha alma deglutia pela primeira vez na vida as palavras de um adulto. “Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu”. E talvez eu tenha entendido toda uma vida naquele momento. Que nem sempre o que se vê é a realidade. Tudo tem dualidade. Tudo depende de um ponto de vista, seja você adulto ou criança. O lado da moeda, abismo ou céu, é só uma questão de estado de espírito.

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