Consciência racial

Ai gente… preciso falar um pouco sobre este feriado, mas espero que as pessoas não me entendam errado. Por isso peço que, se for ler, preste muita atenção para não vir com patadas sem motivo.

Bom, antes de mais nada, tenho que esclarecer que não sou absolutamente nada racista ou preconceituosa, muito pelo contrário. Acredito piamente no ser humano como Homo Sapiens e não com subdivisões. Além disso, sou como muitos brasileiros, fruto de uma miscigenação maravilhosa de povos, o que me faria ir contra mim mesma se fosse preconceituosa. E é exatamente essa miscigenação  que eu mais amo neste país e o que mais faz de nós, brasileiros, especiais em tudo.
Mas juro que não entendo este feriado da Consciência Negra. Eu, particularmente, acho muito mais preconceituoso decretar um feriado em razão disso do que se não houvesse. Tanto que o feriado se chama “Consciência Negra” e não “Dia do negro”, porque isso sim pegaria muito mal – e pelo jeito, alguém pensou nisso. Sendo “Consciência”, a gente cai na desculpa de que o feriado é para nos fazer refletir sobre a raça negra. Mera ilusão.
Eu acho esse feriado, assim como o dia do Índio, o fim da picada. Tenho a sensação de que decretar feriados para homenagear outras raças faz o “branco” parecer ainda mais superior. Afinal, quem somos nós para homenagear outros absolutamente iguais à nós???
É isso que eu não entendo… O fato de um “branco” designar um dia para homenagear o “negro” ou o “índio” tem muito preconceito enrustido. Porque não existe o “dia do branco”??? Porque é o branco quem determina quem vai ser homenageado? Para remediar os erros do passado e deixarem os negros e índios um pouco mais felizes? Para que eles se sintam importantes e nivelados aos próprios brancos? Isso sim é racismo, por isso que não concordo com este feriado.
Vocês podem estar pensando “ah, mas tem o Dia do Índio há tanto tempo”… Mas gente, para que serve o Dia do Índio? Só para lembrarmos quem foram os índios que foram exterminados por nós mesmos? Eu acho que o dia do Índio surgiu com a idéia de jogar nossos erros do passado debaixo do tapete e dizer “bom, a gente massacrou com os índios, vamos eleger um dia para nos lembrarmos deles”. É a velha estória do Dia dos Pais e das Mães. Não tem que ter UM dia para isso.
Não quero instigar nenhum tipo de preconceito, mas acho infeliz a idéia de quem inventou isso. Simplesmente não entendo. Acho pior ainda os negros se sentirem honrados por isso como se tivessem ganhado um presente. Gente, nós não temos o direito de dar um presente que determine ainda mais uma diferença, porque somos todos iguais!!! Não entendo o sentido de tudo isso…. Se é para homenagear os povos que fizeram o nosso país, teríamos que ter o dia do Japonês, do Judeu, do  Chinês, do Holandês, do Francês. Agora se é para homenagear as raças, tenhamos então um dia para todas elas. Ficaria muito mais bonito… Façamos um “Dia da Consciência Racial”, onde as pessoas possam refletir na diversidade que este país tem, e em toda a contribuição de cada uma das delas! Sem distinção e pensando no ser humano como um todo.

Por isso aproveito este post e o dia de hoje para convocar uma conscientização sobre todas as raças que fizeram este país. Negros, brancos, índios e amarelos. Com todas as suas heranças, erros, acertos, cultura, arte, linguagem… Façamos uma homenagem pela contribuição do ser humano no país, com temperos únicos e imprescindíveis de cada raça. Temperos estes que nos transformaram  em um único povo, cheio de riquezas e tradições: o brasileiro. Esta mistura sim, é que é a nossa herança mais bonita.

Espero que tenham entendido meu ponto de vista.

Revolta que volta o tempo

Hoje eu só queria deitar numa rede e ouvir o barulho do mar. Não quero pensar em nada, absolutamente nada, muito menos quero que me perguntem qualquer coisa.
Queria que o tempo voltasse e meus problemas se resumissem à prova de matemática, ao banho das 5 da tarde, à lição de casa. Ou até mesmo ao próximo encontro com aquele adolescente cheio de espinha que eu jurava ser lindo e por quem minhas pernas ficavam bambas.
Queria simplesmente fazer parte de uma rotina. Acordar quase que de noite, beber leite quentinho com Nescau, ir para a escola com a mamãe dirigindo, ler livros de história e geografia, ansiar pelo sinal. Queria esperar somente pela aula de educação física, ou melhor, pelo recreio!!! Pegar a minha lancheira, ver a surpresa que teria dentro, ah sim, e essa seria absolutamente a única surpresa do dia. E meu dia seria mais feliz se tivesse somente um Toddynho, ou sanduíche de bolacha de água e sal, que eu amava!
Queria me sujar sem frescura, brincar de esconde-esconde, ter aulas de ciência no laboratório!!! Fazer experiência!!! Aí, queria voltar à pé para casa à tarde, ou melhor, para a casa dos meus avós. Eu e minha irmã, à pé, sozinhas, sem medo de nada. Com toda a coragem do mundo para enfrentar qualquer monstro.
E então preferiria mil vezes deitar no sofá da sala com meu avô e assistir aos filmes de bang-bang. Ou colher pitangas no quintal, ou quem sabe até brincar de bola com a minha irmã. Melhor ainda, queria que fosse o dia da vovó fazer bolinhos de chuva e do vovô deixar a gente dar uma volta no quarteirão de bicicleta! Aí, de repente eu pararia na banca e compraria algumas figurinhas para os meus álbuns, com as moedas do meu cofrinho.
Queria que vovô nos levasse à natação ou aos treinos de vôlei. Aula de inglês e piano, hoje não. Disse que não quero pensar muito. E então, queria esperar unicamente pela hora em que minha mãe voltaria do trabalho. E essa seria a única espera, mas com a certeza de que aconteceria. E se eu estivesse na natação, teria ido para lá de roupão e touca, caminhando pela rua sem me preocupar com nada do que estivesse vestindo. E voltaria para a casa da vovó, que era bem pertinho.  Aí eu tomaria banho na banheira gelada com o sabonete Vinólia rosa, que a vovó gostava. E então esperaria a mamãe de pijamas, e voltaria assim mesmo para casa tarde da noite, lá pelas sete. E no meio do caminho, ela provavelmente daria um pulo na padaria e compraria pão fresquinho, de soltar fumacinha, e leite de saquinho, desses que precisa ferver e vigiar a leiteira no fogo. E se desse sorte, o leite não cairia no chão e não estouraria, e o pão chegaria intacto. Mas hoje não, hoje iríamos devorando todo o pão quentinho pelo caminho, a começar pelo miolo!
E então eu e minha irmã brincaríamos e brigaríamos até pegar no sono. E o maior dilema da minha vida seria decidir entre  Glub-Glub e Carrossel…. E não me façam perguntas, porque não quero que me perguntem nada, e muito menos quero ter que responder coisa alguma. Quero é deitar na minha cama e sonhar sonhos de criança, com monstros e fadas… e um mundo colorido, que se perde em algum ponto quando a gente cresce…

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Duas taças e um Shakespeare, por favor

Não há sentimento que eu sinta hoje que não possa ser traduzido por Shakespeare. E me inebria lembrar os ares de Stratford-upon-Avon ao caminhar pela velha casa da Henley Street, onde Shakespeare nasceu, com o chão torto e vidros embaçados. Cruzar o lindo jardim de tulipas e bluebells, atravessar a ponte sobre o rio Avon e, finalmente, sentar-me num dos bancos da Holy Trinity Church, imaginando quanta coisa aquela pequena igreja de pedra não havia testemunhado.
E eu digo que hoje só Shakespeare sente o que eu sinto, não que eu entenda muito do grande poeta, mas sim por ele entender muito de mim.

Soneto 116 

“De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora,
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou”

Sonnet 116

“Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:
O no! it is an ever-fixed mark
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth’s unknown, although his height be taken.
Love’s not Time’s fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle’s compass come:
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
If this be error and upon me proved,
I never writ, nor no man ever loved.”

E me dou pleno direito de repetir quantas vezes quiser: amor não é amor, se quando encontra obstáculos se altera, ou se vacila ao mínimo temor. Porque disso eu sei mais do que ninguém. Porque por tantas vezes poderíamos ter alterado e vacilado, tantas – e tão fortes – que não contaríamos nas quatro mãos. Mas o nosso amor é maior que o mundo e continua intacto; é um marco eterno, dominante, que encara a tempestade com bravura. Absolutamente qualquer tempestade, com toda a bravura de dois corações jovens e plenos.

Bem além das esperanças

A história que vou contar é longa e cheia de dúvidas. É difícil, ao certo, definir com detalhes tudo da forma precisa como aconteceu, por isso dou-me ao direito de fantasiar alguns adjetivos e substantivos. Mas a essência desta história, que não passa do mais puro e verdadeiro amor, esta continuará intacta.
Maria Francesca era seu nome. Ela deveria ter por volta de dezessete anos em 1889. Morava num dos lugares mais lindos da Itália, Marina de Ciró, um vilarejo de praia incrustrado num dos mares mais azuis da Calábria: o mar Jônico.
Francesca tinha cabelos longos e escuros, e grandes olhos amendoados. Seu nariz era vagamente adunco, o que demonstrava uma leve herança moura, da época das invasões. E isto podia-se ver também pelo tom dourado de sua pele, que variava em tons de bronzeado constante.
Raffaele era um pouco mais velho que ela e morava em Ciró, o vilarejo que não tinha praia. Filho de Nicodemo e Risolia, vinha de família de posses, sendo a maior destas uma vinícola que levava o nome do pai. Ele era bem diferente de Francesca, não tinha nos genes a invasão moura, o que lhe denotava tons loiros aos cabelos e olhos infinitamente azuis.
Um dia, e não se sabe muito bem como, Raffaele e Francesca se encontraram pela primeira vez. E algo me diz que este encontro se deu nas praias de Marina. Surgiu um amor bonito, destes vistos em Romeu e Julieta, com todas suas contradições e proibições.
O que sei é que por algum motivo eles não puderam ficar juntos. Não se sabe se por preconceito dos pais de Raffaele, ou por orgulho dos pais de Francesca. Mas é quase certo que o motivo foi por distinção de classes.
Só que o amor era puro e verdadeiro e, por ele, Francesca e Raffaele lutariam com alma. E um dia ouviu-se dizer, lá pelas docas de Marina, que um mundo novo prometia brilhante futuro para quem tivesse coração grande. E que muitos italianos estariam embarcando para bem além da Sardenha, lá depois de todo o Atlântico. Era um lugar chamado Brasile. Lá, bem longe de toda aquela pequenice de Ciró, as esperanças se transformavam em vida.
E foi em 1890 que, muito a contragosto – Francesca e Raffaele fugiram juntos. Ele deixou para sempre um futuro e uma boa parte de dinheiro. Ela deixou a família e o azul infinito do mar Jônico – ela ainda não sabia – mas foi para sempre.
Partiram de Gênova em um navio que trazia muitos deles. Navios que traziam sonhos e esperanças, muito mais que pessoas. A única coisa que sei foi que Francesca trouxe consigo uma miniatura de metal muito pequenina de Santo Onofre. Ela ficava guardada em uma caixinha de lata tão pequena quanto, e foi totalmente feita à mão por sabe-se lá quem. Foi para este Santo que ela rezou por todos os dias de todos os meses a caminho do Brasil.
Raffaele e Francesca vieram em um destes vários navios, não sei o nome ao certo, mas bem poderia ser o Santa Fé, o Caffaro, o Adria ou qualquer outro. Na verdade, pouco importa, já que todos eles traziam os mesmos sonhos. Sei bem é que o navio desembarcou em Santos e, no porto já estavam os capangas dos coronéis.
Diziam que no navio se servia apenas pão preto e chá pela manhã, e batatas pelo almoço. Leite era restringido às crianças de colo e fracionados em meio litro por dia para cada uma delas. E assim foi por muito tempo. E nem ouso me perguntar o que havia de se fazer em um navio por três meses, acordando com a vista das ondas e dormindo com seu barulho. Creio que as grandes novidades eram mesmo os doentes mortos de varíola e febre, que nunca pisaram em terra, e eram jogados ao mar.
Pois bem, mas eu disse dos capangas dos coronéis. Os grandes produtores da nova terra. A história todos vocês devem saber, visto que devem assistir às novelas. Os escravos estavam livres e os coronéis babavam pelos italianos como leões prestes à emboscada. Prometeram mundos e fundos, e Raffaele e Francesca, como não tinham nada a perder, cederam. Atracaram em Santos e seguiram com os capangas para Minas Gerais, para uma fazenda que tanto poderia ser Santa Helena quanto Santa Adélia.
E por lá ficaram por muito e muito tempo, dividindo os sonhos com o café. Ah, este o sonho que não chegava nunca. Há de se dizer que de Minas foram para Araraquara e, entre os dois Estados tiveram onze filhos. Giuseppino era o mais novo deles. Josézinho. Que cresceu ainda como filho de colonos, entre as lembranças dos farrapos que vestia e as mangueiras cheirosas do interior.
Raffaele seguiu seu rumo sem muito querer olhar para trás, o que me faz pensar que sua família é que deve ter sido o grande estopim de toda esta história. Virou a página de um grande livro e começou outro, que ficou pelo novo mundo, pelo tão intrigante Brasile. Francesca sempre sonhou em voltar para Marina de Ciró. A bem da verdade, nunca soube o que aconteceu por lá. Mas mesmo assim foi feliz, e muito feliz, pois se permitiu viver o amor.
Raffaele morreu quando Giuseppino tinha apenas dez anos, mas Francesca teve tempo de conhecer todos os netos brasileiros. A vinícola do pai dele existe até hoje, no mesmo lugar, embora ninguém ainda tenha procurado a gente de lá.
E eu não sei muito bem como tudo isso aconteceu, já que conto esta história como lenda, daquelas que a gente só escuta e não tem provas. Mas sei de coisas suficientes. Sei que o que Francesca nunca imaginou é que um dia alguém faria seu caminho de volta. Demoraria pouco mais de um século, mas esse alguém cruzaria o Atlântico do novo para o velho mundo. Não para a Itália, como ela queria, mas ainda assim para a Europa. E não duraria três meses, mas – aposto que ela ficaria atônita – pouco mais de dez horas, e seria pelo céu.
Sei que Francesca não imaginaria, mas sei que hoje ela sabe. Sabe que a menina que faz seu caminho de volta é a mesma que possui a pequena miniatura de Santo Onofre. Aquela, de lata, que ela trouxe no navio e agora volta de avião. E Francesca sabe, acima de tudo, o que é que leva a menina de volta… Ah, disso ela sabe bem, pois viveu por isso. É a essência, que ainda continua intacta. E não passa do mais puro e verdadeiro amor.

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* Conto dedicado à minha bisavó Maria Francesca, quem nunca conheci, mas quem se faz presente no pequeno Santo Onofre de lata.  E ao meu avô, Giuseppino, minha grande e eterna paixão. Ambos in memorian.

Desfecho da dança das nuvens

(Há muito, muito tempo não via nuvens de carneirinhos, espalhados lá no pasto azul).

E para desfecho da dança das nuvens, posso dizer com certeza que ontem elas dançaram twist, porque suaram demais, mas por bem pouco tempo. As saias sim, estas se agitaram tanto que arrancaram telhas e árvores da terra.
Pelo que me parece, marcaram outro baile para hoje, mas ainda não descobri o que vão dançar: se será mansinho e infinito como xote, ou breve e barulhento como samba.
E no que diz respeito à espera, não foi molhada, mas foi triste e longa numa eternidade que dura até hoje, e durará até amanhã. E até pode ser que a de hoje, ou até mesmo a de amanhã, ou quem sabe as duas, sejam molhadas.

A dança das nuvens

Parece-me que o baile já vai começar. As nuvens dançam pelo céu, adentrando o salão. Vestem seus pretinhos básicos e corpulentos, negros e elegantes. Se cumprimentam, uma a uma, com elétricos beijos nos rostos. Algumas riem alto e estridente num som quase assustador. Outras levam leques ou mexem as saias de modo a abanar todas as nações. Elas se unem de maneira que nem dá mais para distinguir suas próprias individualidades. Só se vê o fim de outra e o começo de uma entre o beijo elétrico.
Por enquanto não chegaram todas as convidadas, mas as luzes já estão diminuindo no salão. E quando todas se cumprimentarem e dançarem bastante, suarão suor de nuvem, com confetes e serpentinas. Embora muitas vezes elas se reúnam só por se reunir. Não se esbaldam de dançar no salão e acabam por nem suar… Mas esta dança de hoje promete ser um grande baile.
E a única coisa que sei, visto que não sou nuvem e nunca fui convidada para o baile, é que quando elas se esbaldam e suam, qualquer espera fica ainda mais angustiante e molhada.

A gente não vê por aqui

Ando meio revoltada esses dias. Talvez seja só um pouco de TPM, ou talvez seja a minha parte rebelde querendo quebrar os grilhões da mediocridade, que nos fazem robôs que só dizem Amém. Estou farta de tanto preconceito e, pior, de tanta hipocrisia.
Assisto na Globo às suas auto-injeções de ego, exemplos de exemplos, morais de morais, contra bebida, cigarro, preconceito, etc, etc, etc. Quanta hipocrisia. Aqueles trechos de novela no meio do intervalo com a lição “se beber, não dirija”, e depois a emissora emenda com o peito estufado “RESPONSABILIDADE SOCIAL, a gente vê por aqui”.
Ontem ligo a TV à tarde e assisto um pouco de “Malhação”. Vejo então uma menina ser chamada pelos “colegas” de baleia, bolota, free-willy, gorda, quando a tal menina nada mais é do que um pouco mais cheinha para os parâmetros esquálidos da nossa sociedade. Pelo amor de Deus, a menina não é gorda!!!! Dêem uma olhada, ela é a da direita na foto:

 

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E como se não bastasse, escuto ontem mesmo, na novela das sete, o Malvino Salvador* falando para uma outra menina bem mais gordinha: “gorda desse jeito, como foi arrumar namorado?”. Como assim, por acaso ela é um ogro, faz parte de outra espécie? Porque ninguém diz “magra assim, como foi arrumar namorado”? Ou, “loira assim”, “alta assim”????
Que menino, hoje em dia, vai querer namorar uma gordinha se na própria televisão isso é considerado “errado”. Se os adolescentes já dão valor ao que os amigos pensam, imaginem quando isso é escancarado em rede nacional como impróprio.
Que diabos de exemplos de moral são esses que a Globo dá? Responsabilidade social. Preconceito então só é preconceito quando é racial? É muito bonito mostrar cena de novela com tolerância RACIAL e dizer “A gente vê por aqui”. Os outros tipos de preconceito nem são, ao menos, definidos como preconceito. Pior: são exarcebados, expostos como se fossem atitudes normais. Quanta hipocrisia!
Eu digo isso, indignada, porque sempre tive uns quilos acima do “normal” e sempre, a vida toda, sofri preconceito por isso. Principalmente quando eu era criança. Cansei de apanhar na escola, voltar com hematomas e ter que explicar para a minha mãe que as crianças me batiam porque me achavam gorda. Cansei de ser rejeitada  nas brincadeiras, ouvir piadinhas, escutar “mas você tem o rosto tão bonito”, como se o resto não significasse mais nada. O preconceito existe, está aí para todo mundo ver. Mas até aí, fazer apologia à isso é demais para a minha cabeça.
E não me venha dizer que os outros tipos de preconceito são piores, porque não são. A gordura está tão estampada para sofrer os pré-conceitos da sociedade quanto a cor da pele, a religião mostrada em vestimentas e os defeitos físicos.
Aonde essas pessoas querem chegar com essas frases absolutamente maldosas em suas novelas? Malhação não é uma novela supostamente para pré-adolescentes e adolescentes? As crianças são maldosas porque são sinceras, mas elas não nascem com o preconceito. Elas aprendem em casa, com os pais e com a televisão. Com os gibis e a Mônica, que nem era gorda. Qual é a graça em  menosprezar um gordinho e reduzí-lo, como se os magros fossem seres superiores? O que está acontecendo com a consciência humana, que às vezes parece regredir?
Eu simplesmente não entendo. Percebo que este preconceito absurdo contra a obesidade (e não estou falando sobre obesidade nos parâmetros médicos, mas nos parâmetros sociais) é muito mais incrustrado neste país do que em outros. Morando na Inglaterra, eu percebo um preconceito muito tímido, que não chega aos pés da maldade que existe no nosso país do biquini, no culto ao corpo em forma de Estado. No Brasil ser gordinho – e eu digo vestir a partir de 40 – é muito difícil. Principalmente para uma mulher.
Comprar roupas no Brasil é absolutamente ridículo. O que aconteceu com a indústria da modelagem de dez anos para hoje é um atentado. Se você colocar um jeans 42 de dez anos atrás em cima de um 46 de hoje, verá que eles têm o mesmo tamanho. O tamanho G não passa do que, um dia, foi um M larguinho. O GG agora é normal em qualquer loja, nem é mais artigo de lojas especiais, tamanho o seu encolhimento.  Qualquer mulher com um pouco mais de seio, barriga, bumbum ou coxa está jogada à marginalidade do mundo das grifes. Isso, para mim, já é uma tremenda discriminação.
Nunca me esqueço de uma mulher dizendo em uma entrevista que tinha “nojo de gente gorda”. Um alemão um dia também teve nojo de judeu. Sinto como se algum anoréxico fosse, a qualquer momento, enfiar todos os gordinhos numa câmara de gás e exterminar a “raça” inferior. Seleção “natural”… Como o atirador finlandês dessa semana que matou oito alunos e disse: “Eu, como selecionador natural, vou eliminar todos aqueles que julgar impróprios, desgraças da raça humana e falhas da seleção natural.” Que belos exemplos de próprios e impróprios que a televisão nos passa.
Se a gente quer falar de tolerância, de “coexistência”, que comece em todos os afluentes da palavra preconceito, não somente no religioso ou racial. A bem da verdade, a palavra “tolerância” por si só nem deveria caber aqui, pois só ela já é preconceituosa. Se alguém está sendo tolerante com outro, é porque de alguma forma não se sente igual ao outro e, sim, superior.
Toda a onda de “quilinhos a mais” virou uma monstruosa indústria de inibidores de apetite, cosméticos, clínicas de estética, grifes e shakes. Todos contra duas polegadas a mais!!! Mas como competir, se as meninas que vestem 38 estão fazendo endermologia para entrar no 36? De que adianta toda essa onda contra a anorexia, todos os apelos contra a bulimia, se continuam denegrindo em rede nacional qualquer pessoa com a coxa grossa?
É muito hipócrita fazer uma novela onde uma menina quase morre de anorexia – vejam bem: para alertar a população – e, alguns meses depois, transformar uma personagem, que nem barriga tem, na “baleia” da novela adolescente. E daqui a alguns meses, quem sabe, fazer documentários na Sexta-feira à noite mostrando os altos índices de bulimia em meninas magras; nossa, mas elas se acham gordas? Que grande hipocrisia. Perdemos totalmente os parâmetros e o bom-senso. Acho que nós, brasileiros, estamos é fartos de tantos exemplos negativos em novelas.

* Errata: o personagem era do ator Sidney Sampaio.

PS: Estou encaminhando esta crônica para a Globo.

A cruz e os abricoeiros

Rita era menina de praia, dessas de longos cachos castanhos e pele cor de amêndoa. Tinha grandes olhos negros de onde podia-se ver o mundo todo, e vastos lábios rosados com gosto de jabuticaba. Rita vestia sempre um vestido de renda que vó Xiquinha havia feito antes de morrer, tinha um par destes. E todos os dias ela fazia igual, caminhando à beira mar de pés descalços na areia fina e branca daquela praia perdida no litoral do Brasil. Carregava um balaio com o almoço do pai, quase sempre arroz, feijão e peixe. Ou feijão, pirão e peixe.
O pai de Rita pescava berbigão na Praia Deserta e era até lá que ela caminhava todos os dias, sob sol ardente ou chuva ardida, para levar-lhe o que comer. E enquanto seus pés roçavam a areia, ela inspirava sonhos e expirava juventude. Deixava para traz a imaculada menina e se inebriava da moça que ali se formava. Imaginava que um dia um príncipe da cidade a levaria de automóvel para subir a serra, do lado de São Paulo ou do outro lado, para o Rio de Janeiro. Para nunca mais ver jaqueiras ou cajueiros, para nunca mais sentir o cheiro salgado de mexilhões.
Mas não se parecia nada com o príncipe de Rita o moço que vinha pela praia todos os dias, para também levar almoço para seu pai, que também pescava berbigões. Jorge era franzino, caiçara, tinha cabelos pretos ondulados e olhos de peixe vivo que contrastavam com a morbidez amarelada de sua pele. E seu pai bem que fazia gosto com pai de Rita para que os dois jovens se entendessem.
Em um dia de verão, caminhando pela praia, Rita viu o moço mais lindo que o mar poderia ter molhado ou que a areia pudesse ter tocado. Era Henrique, que corria em sua frente com uma prancha de surf. Cabelos loiros ao vento, pele rasgada de sol, olhos perigosamente verdes e costas esculpidas pelas ondas. Dançava pelo mar como um golfinho, e Rita parou para olhar, só por um segundo.
Durante todo o verão Rita se apaixonou por Henrique, e Henrique se apaixonou por Rita. E a menina descobriu coisas nas areias de Barequeçaba que nunca havia sonhado. Rolou em noites de fevereiro pela praia verde de Guaecá, fosforescente de plâncton, e  descobriu sensações, sentimentos, suor e desejo. Até o último dia de verão…
Foi quando Henrique foi embora para um dos lados e não a levou de automóvel. Prometeu ficar com ela para sempre, mas somente quando voltasse o verão. E ela cansou de esperá-lo entre primaveras e outonos, e ele nunca voltava.
E foi quando Rita casou-se com Jorge que, lá do alto da serra, veio a notícia de que Henrique nunca mais havia voltado por ter morrido com o automóvel. E Rita chorou o rio Una inteirinho, com todos seus peixes e vagalumes.
E por toda essa água, adoeceu de amor. E Jorge, que tinha os olhos de peixe vivo, adoeceu por ver sua amada definhar em saudade de um amor que não era o seu. E um dia, como na lenda de Pontal da Cruz, Jorge lançou sua jangada ao mar para nunca mais voltar, e seus olhos perderam o vivo para sempre.
Rita, antes de deixar seu espírito à deriva, pediu para ser levada ao Pontal da Cruz, onde uma cruz se ergue entre dois abricoeiros entrelaçados. E ela mesma repetiu a estória que vó Xiquinha dizia ser verdade verdadeira e que o pai do pai do seu pai havia visto: “Foi-se lá há muito, muito tempo quando uma jovem de São Sebastião se enamorou de um moço que vinha de canoa todas as tardes, lá de Ilhabela para vê-la. Até que um dia ela foi obrigada a casar-se com o filho de um médico, que havia sido nomeado pelo Imperador pra cuidar daquelas bandas. E a moça adoeceu de não poder ficar com o amor da sua vida, e o moço de Ilhabela, vendo a sua amada morrer aos poucos, deixou sua canoa ao sabor das ondas do mar. Foi encontrado morto alguns dias depois e a moça morreu logo em seguida, de desgosto e saudade. O corpo do moço apareceu em Pontal da Cruz, onde colocaram uma cruz de madeira. E lá nasceram dois abricoeiros entrelaçados, para recordar aqueles que morreram de amor.”
Rita estava parada de pé, com o vestido de renda e os pés descalços. Seus olhos negros agora estavam pálidos e seus lábios vastos tinham se esbranquecido de dor. E a moça sentou-se na areia, ao terminar de contar a lenda, segurada em um dos braços por sua mãe e em outro, por seu pai, o pescador de berbigão. Lágrimas escorriam de seis olhos fundos enquanto as ondas faziam a música e os abricoeiros, o coral. E Rita não morreu, mas morreu por dentro e para sempre, bem lá no fundo de seu coração seco. E dizia que ali em Pontal da Cruz, um dia também haveria de ter mais três abricoeiros, ou três jaqueiras, ou mais três cajueiros que fossem. Para recordar os amores que tinham que ter sido e não foram, e os que foram e não tinham que ter sido.

 

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